Li esse livro a pedido de um amigo que me dizia que era um autor importante mas que ninguém o comentava. Então, para se aproximar de meu colega que há tempo não via e para, talvez, descobrir de fato um autor de valor.
Mas não foi bem assim. Achei o autor bastante deficiente e tentei explicar ao meu amigo não tendo-o convencido mas também não recebendo uma contestação. Mas para mim também foi uma espécie de rito iniciático. Consegui de fato aplicar os métodos de interpretação em um autor que ninguém de meu círculo filosófico conhece e que não tem a mesma linguagem que a minha.
Não se trata de rotular o autor com rótulos alheios mas, entender a "gramática profunda" de seu pensamento, isto é, traduzir a linguagem do autor para a minha e "ver como os olhos dele o que ele viu". E essa será a tônica dessa interpretação. Tecerei comentários apenas até o capítulo 2 onde se dá a parte mais pessoal do livro e com a qual tive mais trabalho. O resto do livro fala sobre a relação do autor com Kafka, Nietzsche e Heidegger que servem de campo de provas para a interpretação dos dois primeiros capítulos(a parte sobre Nieszche se encontra nesse blog sob o título Nietszche e Platão).
Pode-se argumentar ad hominem dizendo que minha linguagem e pensamento foram de certo modo moldados pelo professor Olavo de Carvalho, mas na verdade deve-se dizer o contrário, pois, se os assimilei eles agora são meus. Os que argumentam dessa forma decerto padecem do vício da busca da originalidade cujas nefastas consequencias, veremos, pesam contra o sr. Pessanha.
i- Uma pista nas idéias
O primeiro parágrafo do primeiro capítulo é interessantíssimo e talvez um resumo do livro todo. Os rodeios que ele faz para explicar o que é Idéia, que é um conceito de 2400 anos, e ainda assim ele descreve idéia de modo metafórico então pegarei duas das descrições que ele usa e traduzirei para português claro. Idéias como:
- cadáver de experiência - a idéia é algo de totalmente separado. A idéia de casa não traz nenhuma imagem a mente pois pode ser uma caverna, uma mansão, casinha de cachorro e a sua casa participando de todas e não sendo nenhuma.
-ele fala que sai de um processo, da história do foguete, fora da instabilidade perfeita e (a de melhor gosto) algo testemunhado - em suma é o princípio de estabilidade e cognoscibilidade das coisas que participam do devir.
Então, para quê tanta descrição poética para um conceito tão batido? ele mesmo diz que "desde que se conceba idéia como", mas esse é o modo clássico e normal de se concebê-la. Observações desnecessárias. E o pior, idéia é um conceito metafísico que segundo a orelha do livro não existe. Chamo atenção à isso não como lapso estilístico o que de certo não é, mas uma pista sobre o significado da obra.
ii- "Descrição topológica"
O que é chamado aqui de descrição topológica não tem nada a ver geografia, mas é uma classificação dos tipos de pessoas a partir da prevalência das partes que as compoem. Não é errada ou ilegitimo fazer isso, basicamente todo o filosofo ou literato o faz. Mas observemos o modo como nosso filósofo o faz. Há os homens do Buraco branco - legalidade metafísica, palavra anti corpo e que "vestiram o uniforme da identidade mundana e acabaram por se confundir com ele" e os do Buraco negro - crise permanente e já nasceram mortos. Os dois buracos são circunscritos por uma "linha do horizonte" e divididos por uma linha do acontecimento que está em movimento centrífugo e que mistura tudo.
Me pareceu que o que ele quis fazer é a velha distinção entre papéis sociais e liberdade individual. Há de fato aqueles que esquecem da vida e só interpretam papéis sociais. E há sempre o perigo de "ponha os pés no rio, ponha as mãos na água" para quem rejeita participar totalmente dos papéis sociais. De modo que é tudo misturado e os buracos são só "tipos extremos". O que causa estranheza é que ele coloca no mesmo saco um Platão e Medievalistas(filosofos brancos) e um cara que só sabe trabalhar. Mas, o Platão e os medievalistas foram os que abandonaram qualquer "uniforme de identidade mundana" e tem a filosofia como preparação para a morte. Esse tipo de incongruência também não é acidental mas isso depois veremos.
iii- "Capítulo 2: Equação Natal: Presença roubada."
No Capítulo 2 há um núcleo de significado que dá a chave interpretativa de todo o texto. Transcrevo-a aqui: "Se trata de um universo hipernomeado de sentido, hipersaturado de narrações. Escrevo para encontrar a primeira intensidade sem sentido do gesto inaugural. Escrevo para furar o piche do meu rosto e braços".
Grosso modo no começo ele se lamenta a falta de "arrebatamento"(se opõe ao componente de opacidade que é não se saber muito bem o que se faz. Só o sabendo posteriormente) e que ele só se lembra do logos. Então se pergunta qual causa do seu conhecimento filosófico que serve de base para suas ações? em suma, como foi que chegou nesse momento da vida?
E é aí que entra o buraco negro. Ele é tudo o que foi assimilado por ele fora de uma tradição. E por isso que um workaholic e Platão estão no mesmo saco. E assim ele chama o buraco branco de cascalho porque é o que se amontuou pela tradição.
iv- O caso do carangueijo
O caso do caranguejo é fundamental porque ele mostra o trauma do autor. Então ele lembra de que quando uma criança tem o thambos(espanto que dá origem ao conhecimento) ela divide esse momento com o pai e se ele não retorna ela é danificada para sempre(como sempre a culpa é dos pais). Mas, segundo ele mesmo diz, não tem nada de psicologia. Então só pode representar uma coisa: o desejo de criar uma cultura totalmente nova sozinho. Só isso justifica ele ter se achado danificado irremediavelmente, pois seus pais lhe imporam uma cultura totalmente "anatural". Até o caso é significativo, as primeiras sociedades também imitavam animais.
É claro que isso é uma imbecilidade, porém imbecilidade endêmica pois tem se repetido alarmantemente em exemplos como o de Nietzsche, Descartes, Newton etc. Ademais, fica claro também as consequências desse tipo de atitude que é fazer o recorte da realidade e excluir todo o resto(nihilismo para Nietzsche, tradição vazia para Descartes e Irracionalismo para Newton) que seria o cascalho, o piche e o cimento(ele não inventou o trabalho, as instituições culturais ou a filosofia e por isso é tudo cascalho).
v- Homens arquétípicos
Pessanha divide os homens em três arquétípicos que são 1- o super-homem(no vocabulário de Nietzsche e Robson Crusoé no meu)- inventava livremente seus próprios valores, altivamente pisoteando a “verdade”, o “bem”, a “humanidade” ou o que quer que tivesse o desplante de atravessar o seu caminho; 2- O habitante do mundo que aceitava a cultura sem questionar, reduzido à obediência rotineira e ao “espírito de rebanho” e; 3- Habitantes do Buraco negro que se questionam da cultura, como o pequeno deus de um microcosmo autônomo reinventando a roda.
vi- Conclusão
Agora, eu não preciso nem falar que isso é uma baboseira fora do comum. Como ele esperava aprender a andar, falar e pensar? pois, isso é o que se tira se levarmos ao extremo a tese. Ninguém é o Robson Crusoé. Há o modelo do Piaget da criança sozinha que consegue descobrir tudo e que há o mundo e a criança é falso e falhou como técnica educacional. Há o mundo, a criança e o professor que faz a ponte e representa a tradição. Ademais, o mundo é o mundo. Não importa quão distante se esteja do começo, a não ser que você seja Adão. Então todo mundo, exceto Deus, age no componente de opacidade. Qual o caminho certo já testado e percorrido? Se apreende a tradição e depois, só depois, se transcende a tradição. Agora vocês percebem porque ele teve que reexplicar conceitos tão antigos como idéia e dar nomes novos ao que já existe.
Mas falar é fácil para mim, já fazer... Explico. Quando uma cultura nasce, ela se desenvolve por meios próprios. Acontece que chega um ponto que tem tanta coisa que os indivíduos não conseguem mais apreender. Assim foi na europa medieval. tinha tanto livro, tanta coisa pra aprender que o pessoal desistia. Assim está ocorrendo em nossa cultura e é disso que ele reclama. Eu apostei que chegava até o final, ele, que não.
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