1- As árvores em busca de um rei(Jz 9, 8-15)
As árvores se tinham posto a caminho
para ungir aquele que seria seu rei.
Disseram à oliveira: "reina sobre nós".
A oliveira lhes disse:
"Renunciarei a meu óleo,
que deuses e homens em mim apreciam,
para ir me agitar-me em cima das árvores?"
As árvores disseram à figueira:
"vem tu reinar sobre nós!"
A figueira lhes disse:
"Renunciarei à minha doçura
e a meu bom fruto
para ir me agitar-me em cima das árvores?"
Então as árvores disseram à vinha:
"vem tu reinar sobre nós!"
A vinha lhes disse:
"Renunciarei a meu vinho,
que alegra deuses e homens,
para agitar-me sobre as árvores?"
As árvores disseram ao espinheiro:
"vem tu reinar sobre nós!"
Mas o espinheiro disse às árvores:
"Se é com lealdade que me dão a unção
para que eu seja vosso rei,
então vinde abrigar-vos sob a minha sombra!"
Mas se não for assim, um fogo sairá do espinheiro
e devorará os cedros do Líbano.
2- República (trecho do livro A)
"Por este motivo, por conseguinte, os homens de bem não querem governar nem por causa das riquezas, nem das honrarias, porquanto não querem ser tratados como mercenários, exigindo abertamente a recompensa por seu cargo, nem de ladrões, tirando a vantagem de sua posição.... Ora, o maior dos castigos é ser governado por quem é pior de nós, se não quisermos governar nós mesmos. É com receio disso, me parece, que os bons ocupam a magistratura, quando governam; e então vão para o poder, não como quem vai tomar conta de qualquer benefício, nem para com ele gozar, mas como quem vai para uma necessidade, sem ter pessoas melhores que eles, nem mesmo iguais, para que possam relegá-lo"
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segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Explicação filosófica e ontologia
Pressuposto fundante e regra fundamental do método filosófico foi enunciada por Heráclito com precisão profética: "Os homens despertos estão todos no mesmo mundo, quando dormem cada um vai para seu mundo". Máxima de extrema concisão que revela dois lados da consciência humana. O homem não é só aquele que tem contato simbólico com o que "todos, sempre e em toda parte conhecem" por meio da leitura da Bíblia, cultos pagões públicos e sua religião(ões) como é o que tem seu trabalho, sua arte, e cuida de seus interesses pragmatistas. Em períodos de forte sentimentos religiosos essa divisão é imperceptível mas nos crepúsculos da consciência da luminosidade divina um abismo toma conta do espírito humano e novas espiritualidades tentam preenchê-lo.
Cada uma das artes e a própria ciência tem uma lógica e modus operandi próprios(agora, lógica menor) mas que, como diz a máxima, são "mundos separados". Porém, transpostos esses limites, nenhuma delas aguenta a prova de fogo da dialética. Na matemática, e.g., se diz 1+1=2, mas é esse um que se ajunta ao outro ou o outro ao um? É só pela contiguidade que se forma o dois? E mais: se o 10 é maior que o 8 pelo 2 então a grandeza do dez é a pequenez do dois? É pela pequenez que é a grandeza? Semelhantemente na estética se dirá algo ser belo pelo brilho, ou forma ou pelo que for ou pela beleza? Embora sejam lógicas em si as consequências dos postulados não se harmonizam com o todo do conhecimento e da linguagem humana. Em suma, não há razão.
Não podemos seguir esse caminho. Admitir isso é negar racionalidade ao homem e também a existência de conhecimento, pois, conhecimento não pode ser válido só às vezes. Ou o conhecimento é válido erga omnes ou não é de modo algum. Não pode ser só para os que dormem. Se é verdade que a natureza não frustra e que Deus nos fez racionais então é porque tem que haver razão e devemos superar essa explicação pelos contrários por uma pelo si mesmo, i.e, o dois é dois pela dualidade, o 10 é maior que o 8 pela grandeza e o belo pela beleza. Ou seja, pela Idéia de dualidade, grandeza e beleza(não me vá confundir com conceito, que é um universal).
Isso é explicar uma coisa. Pois explicar vem de ex-plicare donde plicare é fazer rugas, dobras e explicare é portanto desenrugar, desembrulhar e foi precisamente o que fiz. Entendeste minhas afirmativas em outra clave, na de demonstração, mas o que fiz foi mostração, i. e, tentei desembrulhar o conceito por meio de símbolos e exemplos dar toda a dimensão das assertivas platônicas no que tange a idéia de modo que toda a rede de necessidades(incluso perguntas) ficasse clara.
A importância da teoria é conspícua pois dela depende nossa cognoscibilidade. Historicamente(e não tornarei mais a falar de história) de duas fontes provém a Idéia: da matemática e da medicina. O logos matemático busca um critérion, uma pedra de medida, onde se pode reduzir uma multiplicidade a uma unidade. Você pode formar qualquer número pela forma, expressa até por Aristóteles, de número numerante e numerado, por exemplo: sabemos que qualquer número natural, exceto o 1, pode ser gerado pela multiplicação de números primos então o número 531 é formado pelo número primo 59 e pelo número 9. O 59 é o número numerado ou numeroso e o número 9 o número numerante então qualquer número ou GRANDEZA(v. Euclides, quia de intuições) pode ser formado assim. O 59 é o Um do 531. Então pensou-se com acerto que o mesmo se poderia fazer com os sensíveis e encontrar a mônada que para mim é o mesmo que Idéia. Já na medicina o logos é o diagnóstico. O médico grego encontrou similaridade de sintomas entre dois doentes e fez o discernimento entre sintoma e doença. O desgosto para com coisa que antes se gostava, a dor de cabeça, a febre e as manchas no corpo não são autonomas e emboras devam ser tratadas elas não são seu problema: você está com dengue, meu filho, esse é o problema! A aplicação desta descoberta trouxe similares resultados que a da matemática.
Na verdade o logos da medicina é muito mais extenso e compraz não só a Idéia mas a metaidéia e o universal(embora nem sempre este último). A Idéia é um particular e tem existência tal qual um sensível e o sensível tem dependência ontológica do Ideal tal qual o 531 tem do 59 embora ambos sejam igualmente números(ou substância no caso da Idéia e sensível). O logos da medicina se aplica ao da Idéia na medida em que esta tem analogia para com o sensível. A metaidéia é algo que existe mas não tem substância. Perplexo? Exemplifico: o movimento sempre se dá ou substantivamente ou qualitativamente ou quantitativamente ou localmente e não existe fora ou além do ser. A metaidéia é o logos da medicina por excelência(strico sensu). O universal é um conjunto de coisas com as mesmas notas e que não existe em si, por exemplo o conjunto de múltiplos de 59. O logos da medicina, para não se confundir com o da matemática(idéia) foi cunhado como forma(lato sensu).
Sobre a diferença entre lógica e ontologia temos outra dica de Heráclito: "O caminho de subida e o de descida é o mesmo". Na lógica menor há sempre uma operação, por exemplo, 1+1=2 na matemática e as premissas e as conclusões de modo geral na lógica. Isso é algo próprio da lógica menor, o problema conceitual do antes e do depois. Pensamos "1+1" e "animal racional" como uma coisa e "2" e "homem" outra que "por sobreposição de imagens"(espécies de speculum que é espelho então são duas coisas, a imagem e a coisas que se dizem iguais quando sobrepostos"), no caso da lógica são iguais e pela união e separação de unidades no da matemática. A lógica menor é predominantemente psicológica(noológica se quisermos ser precisos). Somente com a teoria das Idéias e com a admissão da imutabilidade destas superaremos essa dualidade. Existe uma Lógica onde não existam duas coisas, mas mesmo com a dualidade de conceitos há unidade no ser. Essa Lógica não há demonstração e essa matemática onde não há operação se chama Metafísica ou Ontologia. Essa Lógica maior é o logos, o Pensamento, cujo objeto não é o conceito mais o Ser. LÓGICA É ONTOLOGIA sendo que ontologia é lógica aplicada e lógica é ontologia formal ou conceitual.
Cada uma das artes e a própria ciência tem uma lógica e modus operandi próprios(agora, lógica menor) mas que, como diz a máxima, são "mundos separados". Porém, transpostos esses limites, nenhuma delas aguenta a prova de fogo da dialética. Na matemática, e.g., se diz 1+1=2, mas é esse um que se ajunta ao outro ou o outro ao um? É só pela contiguidade que se forma o dois? E mais: se o 10 é maior que o 8 pelo 2 então a grandeza do dez é a pequenez do dois? É pela pequenez que é a grandeza? Semelhantemente na estética se dirá algo ser belo pelo brilho, ou forma ou pelo que for ou pela beleza? Embora sejam lógicas em si as consequências dos postulados não se harmonizam com o todo do conhecimento e da linguagem humana. Em suma, não há razão.
Não podemos seguir esse caminho. Admitir isso é negar racionalidade ao homem e também a existência de conhecimento, pois, conhecimento não pode ser válido só às vezes. Ou o conhecimento é válido erga omnes ou não é de modo algum. Não pode ser só para os que dormem. Se é verdade que a natureza não frustra e que Deus nos fez racionais então é porque tem que haver razão e devemos superar essa explicação pelos contrários por uma pelo si mesmo, i.e, o dois é dois pela dualidade, o 10 é maior que o 8 pela grandeza e o belo pela beleza. Ou seja, pela Idéia de dualidade, grandeza e beleza(não me vá confundir com conceito, que é um universal).
Isso é explicar uma coisa. Pois explicar vem de ex-plicare donde plicare é fazer rugas, dobras e explicare é portanto desenrugar, desembrulhar e foi precisamente o que fiz. Entendeste minhas afirmativas em outra clave, na de demonstração, mas o que fiz foi mostração, i. e, tentei desembrulhar o conceito por meio de símbolos e exemplos dar toda a dimensão das assertivas platônicas no que tange a idéia de modo que toda a rede de necessidades(incluso perguntas) ficasse clara.
A importância da teoria é conspícua pois dela depende nossa cognoscibilidade. Historicamente(e não tornarei mais a falar de história) de duas fontes provém a Idéia: da matemática e da medicina. O logos matemático busca um critérion, uma pedra de medida, onde se pode reduzir uma multiplicidade a uma unidade. Você pode formar qualquer número pela forma, expressa até por Aristóteles, de número numerante e numerado, por exemplo: sabemos que qualquer número natural, exceto o 1, pode ser gerado pela multiplicação de números primos então o número 531 é formado pelo número primo 59 e pelo número 9. O 59 é o número numerado ou numeroso e o número 9 o número numerante então qualquer número ou GRANDEZA(v. Euclides, quia de intuições) pode ser formado assim. O 59 é o Um do 531. Então pensou-se com acerto que o mesmo se poderia fazer com os sensíveis e encontrar a mônada que para mim é o mesmo que Idéia. Já na medicina o logos é o diagnóstico. O médico grego encontrou similaridade de sintomas entre dois doentes e fez o discernimento entre sintoma e doença. O desgosto para com coisa que antes se gostava, a dor de cabeça, a febre e as manchas no corpo não são autonomas e emboras devam ser tratadas elas não são seu problema: você está com dengue, meu filho, esse é o problema! A aplicação desta descoberta trouxe similares resultados que a da matemática.
Na verdade o logos da medicina é muito mais extenso e compraz não só a Idéia mas a metaidéia e o universal(embora nem sempre este último). A Idéia é um particular e tem existência tal qual um sensível e o sensível tem dependência ontológica do Ideal tal qual o 531 tem do 59 embora ambos sejam igualmente números(ou substância no caso da Idéia e sensível). O logos da medicina se aplica ao da Idéia na medida em que esta tem analogia para com o sensível. A metaidéia é algo que existe mas não tem substância. Perplexo? Exemplifico: o movimento sempre se dá ou substantivamente ou qualitativamente ou quantitativamente ou localmente e não existe fora ou além do ser. A metaidéia é o logos da medicina por excelência(strico sensu). O universal é um conjunto de coisas com as mesmas notas e que não existe em si, por exemplo o conjunto de múltiplos de 59. O logos da medicina, para não se confundir com o da matemática(idéia) foi cunhado como forma(lato sensu).
Sobre a diferença entre lógica e ontologia temos outra dica de Heráclito: "O caminho de subida e o de descida é o mesmo". Na lógica menor há sempre uma operação, por exemplo, 1+1=2 na matemática e as premissas e as conclusões de modo geral na lógica. Isso é algo próprio da lógica menor, o problema conceitual do antes e do depois. Pensamos "1+1" e "animal racional" como uma coisa e "2" e "homem" outra que "por sobreposição de imagens"(espécies de speculum que é espelho então são duas coisas, a imagem e a coisas que se dizem iguais quando sobrepostos"), no caso da lógica são iguais e pela união e separação de unidades no da matemática. A lógica menor é predominantemente psicológica(noológica se quisermos ser precisos). Somente com a teoria das Idéias e com a admissão da imutabilidade destas superaremos essa dualidade. Existe uma Lógica onde não existam duas coisas, mas mesmo com a dualidade de conceitos há unidade no ser. Essa Lógica não há demonstração e essa matemática onde não há operação se chama Metafísica ou Ontologia. Essa Lógica maior é o logos, o Pensamento, cujo objeto não é o conceito mais o Ser. LÓGICA É ONTOLOGIA sendo que ontologia é lógica aplicada e lógica é ontologia formal ou conceitual.
domingo, 25 de setembro de 2011
O Ônfalo
(este texto deverá fazer parte de um estudo que pretendo realizar sobre Ésquilo mas que ainda estou longe de completar)
Em momentos difíceis, nada melhor que um exemplo em que possamos nos identificar, uma imagem para nos dar força nos momentos de indecisão e cujas dores de alguma forma participamos. Caso não exista nenhum exemplo vivo a literatura pode criar um. Essa é a função da literatura e na Íliada Homero nos dá exemplo disso. Ele tenta nos ensinar isso no episódio da embaixada, quando Fênix(personagem criado ad hoc e que não aparece mais), tutor de Aquiles, conta para seu pupilo a própria história dele. Nos referimos a cólera de Meléagro que é, sem tirar nem pôr, a história de Aquiles.
Também na Odisséia o mesmo método é usado, mas com uma diferença sensível. Telêmaco é aconselhado por Atena a mirar o exemplo de Orestes sendo que aquele lutava para encontrar o pai e salvar a mãe dos pretendentes, e este para vingar o pai morto... pela própria mãe. O que há de comum entre as duas histórias? Aparentemente nada, mas deve ser algo bem geral dada a variedade de casos em que é usada, uma espécie de lei. Não vamos fazer aqui uma análise completa da obra de Ésquilo onde o mito de Orestes é contado mas vale ressaltar talvez o simbolismo central. A descida e subida ao Ônfalo.
Após o assassínio materno surgem, advindas das profundezas, as "cadelas da mãe", isto é, as Fúrias ou Erínias. Orestes segue buscando purificação no templo de Apolo em Delfos enquanto é atormentado pelas Fúrias. Ele segue de Micenas à Delfos e depois, por ordem de Apolo, vai à Atenas onde é julgado. Essa peregrinação me parece ser universal e é quase obrigatória nos romances de formação como é o caso da Telemaquéia(parte da Odisséia onde são contados os feitos de Telêmaco). Trata-se no fundo de encontrar o "Eu", o autoconhecimento.
O homem antigo sempre adorou o lugar. Acreditava-o mágico e que com efeito o lugar tem um poder. Hesíodo diz que "o primeiro de todos foi o caos e, logo depois, a terra de largo seio", como se o lugar fosse um princípio das coisas existentes. Todo o rito do Grande Imperador da antiga China se baseava na adoração das quatro direções cardinais e ele próprio era a ligação entre o cima(céu) e baixo(terra). Terra e céu na babilônia também eram divididos pelas direções cardinais: na terra os quadrantes eram preenchidas por cidades do mundo político e no céu pelas constelações. No Egito vários hinos de adoração foram compostos para as direções mas a mais adorada era o eixo norte-sul pois além de ser a divisão política fundamental do Egito é a direção do nilo, isto é, tendo nascente ao sul, na África setentrional e o delta ao norte, no mar Mediterrâneo. Ademais até o vento predominante ajuda neste sentido pois ele vêm de norte para o sul então se se quisesse subir o nilo usava-se vela e, para vir a jusante(usando a corrente do rio), o remo.
Hoje, graças a matematização de nossa cosmovisão pela ciência, cremos as direções arbitrárias e que cima e baixo é mera questão de ponto de vista. Mas ao contrário, para eles o lugar era um absoluto e mais, como princípio, ele, de certa forma, determina as coisas. O fogo é fogo porque tende para cima e a terra é terra porque tende para baixo e não importa o seu ponto de vista. Há uma estrutura cósmica no mundo que determina o acima e o abaixo como lugares primordiais, isto é, o centro e a periferia do mundo(o céu). Dessas duas direções derivam as outras de modo que cada coisa tem seu lugar próprio e que a este tende naturalmente.
Quando a civilização foi criada o homem perdeu a liberdade de se estabelecer em qualquer lugar que quisesse e também a vivência muito mais íntima que este tinha com o universo e com a natureza. Mas para o civilizado o universo pode ser simbolizado de duas maneiras: o templo e o território de sua civilização. Este último tinha que ser uma imagem de todo o kosmos e a prova disto pode ser encontrada em toda a literatura sacra. Há cidades sagradas, montes onde se diriam bem aventuranças, imprecações e até a morada dos deuses. Também os mares significavam alguma coisa para a representação do kosmos recebendo várias denominações. Mas, para que cada cada lugar dentro do território recebesse a designação e interpretação certa era necessária a presença de uma estrutura que desse a direção dos lugares. Me refiro ao centro e a periferia do universo que serão nominados como o ônfalo(centro) e o confim(limites do território).
Ônfalo é uma palavra grega que designa o "umbigo do mundo". Ele é chamado de luminoso porque é por sua descoberta que todos os lugares tem sentido e são organizados para serem a imagem do universo. É por sua luz que conhecemos o lugar próprio de cada coisa, isto é, o lugar a que cada coisa tende. Então para os persas primitivos quanto mais longe de seu ônfalo, piores são as pessoas. Em Israel, o profeta Isaias escreve sobre uma Jerusalem no topo da glória e que emite círculos concêntricos de graça que abençõam todo o mundo. Na Grécia, o Ônfalo é o templo de Apolo em Delfos que é o centro do mundo.
Deixando essa digressão de lado e voltando à Orestéia vemos que as Fúrias representam a auto acusação e a acusação do meio social. Orestes está poluto e sua voz está longe de sua salvação. As Erínies são, em número igual com as vozes interiores acusatórias, elas são múltiplas. Mas Orestes foje e aqui, como observa Apolo, fugir é um ato de coragem. Ele quer dentre todas essas vozes encontrar a sua voz, saber quem é que fala quando a boca se movimenta e quem é que age quando seus membros movem. Ele só tem uma saída: o Ônfalo. Não falamos de uma cidade grega ou do templo de um antigo deus mas da alma do próprio leitor. Tomemos para nós o conselho de Atena para Telêmaco: miremos Orestes. Só a busca do Ônfalo poderá distinguir as vozes acusatórias e os atos falsos de nossa verdadeira voz e de nossas verdadeiras ações. Só assim poderemos distinguir o "Eu" do "não-eu": a sinceridade é conquista de anos.
Em momentos difíceis, nada melhor que um exemplo em que possamos nos identificar, uma imagem para nos dar força nos momentos de indecisão e cujas dores de alguma forma participamos. Caso não exista nenhum exemplo vivo a literatura pode criar um. Essa é a função da literatura e na Íliada Homero nos dá exemplo disso. Ele tenta nos ensinar isso no episódio da embaixada, quando Fênix(personagem criado ad hoc e que não aparece mais), tutor de Aquiles, conta para seu pupilo a própria história dele. Nos referimos a cólera de Meléagro que é, sem tirar nem pôr, a história de Aquiles.
Também na Odisséia o mesmo método é usado, mas com uma diferença sensível. Telêmaco é aconselhado por Atena a mirar o exemplo de Orestes sendo que aquele lutava para encontrar o pai e salvar a mãe dos pretendentes, e este para vingar o pai morto... pela própria mãe. O que há de comum entre as duas histórias? Aparentemente nada, mas deve ser algo bem geral dada a variedade de casos em que é usada, uma espécie de lei. Não vamos fazer aqui uma análise completa da obra de Ésquilo onde o mito de Orestes é contado mas vale ressaltar talvez o simbolismo central. A descida e subida ao Ônfalo.
Após o assassínio materno surgem, advindas das profundezas, as "cadelas da mãe", isto é, as Fúrias ou Erínias. Orestes segue buscando purificação no templo de Apolo em Delfos enquanto é atormentado pelas Fúrias. Ele segue de Micenas à Delfos e depois, por ordem de Apolo, vai à Atenas onde é julgado. Essa peregrinação me parece ser universal e é quase obrigatória nos romances de formação como é o caso da Telemaquéia(parte da Odisséia onde são contados os feitos de Telêmaco). Trata-se no fundo de encontrar o "Eu", o autoconhecimento.
O homem antigo sempre adorou o lugar. Acreditava-o mágico e que com efeito o lugar tem um poder. Hesíodo diz que "o primeiro de todos foi o caos e, logo depois, a terra de largo seio", como se o lugar fosse um princípio das coisas existentes. Todo o rito do Grande Imperador da antiga China se baseava na adoração das quatro direções cardinais e ele próprio era a ligação entre o cima(céu) e baixo(terra). Terra e céu na babilônia também eram divididos pelas direções cardinais: na terra os quadrantes eram preenchidas por cidades do mundo político e no céu pelas constelações. No Egito vários hinos de adoração foram compostos para as direções mas a mais adorada era o eixo norte-sul pois além de ser a divisão política fundamental do Egito é a direção do nilo, isto é, tendo nascente ao sul, na África setentrional e o delta ao norte, no mar Mediterrâneo. Ademais até o vento predominante ajuda neste sentido pois ele vêm de norte para o sul então se se quisesse subir o nilo usava-se vela e, para vir a jusante(usando a corrente do rio), o remo.
Hoje, graças a matematização de nossa cosmovisão pela ciência, cremos as direções arbitrárias e que cima e baixo é mera questão de ponto de vista. Mas ao contrário, para eles o lugar era um absoluto e mais, como princípio, ele, de certa forma, determina as coisas. O fogo é fogo porque tende para cima e a terra é terra porque tende para baixo e não importa o seu ponto de vista. Há uma estrutura cósmica no mundo que determina o acima e o abaixo como lugares primordiais, isto é, o centro e a periferia do mundo(o céu). Dessas duas direções derivam as outras de modo que cada coisa tem seu lugar próprio e que a este tende naturalmente.
Quando a civilização foi criada o homem perdeu a liberdade de se estabelecer em qualquer lugar que quisesse e também a vivência muito mais íntima que este tinha com o universo e com a natureza. Mas para o civilizado o universo pode ser simbolizado de duas maneiras: o templo e o território de sua civilização. Este último tinha que ser uma imagem de todo o kosmos e a prova disto pode ser encontrada em toda a literatura sacra. Há cidades sagradas, montes onde se diriam bem aventuranças, imprecações e até a morada dos deuses. Também os mares significavam alguma coisa para a representação do kosmos recebendo várias denominações. Mas, para que cada cada lugar dentro do território recebesse a designação e interpretação certa era necessária a presença de uma estrutura que desse a direção dos lugares. Me refiro ao centro e a periferia do universo que serão nominados como o ônfalo(centro) e o confim(limites do território).
Ônfalo é uma palavra grega que designa o "umbigo do mundo". Ele é chamado de luminoso porque é por sua descoberta que todos os lugares tem sentido e são organizados para serem a imagem do universo. É por sua luz que conhecemos o lugar próprio de cada coisa, isto é, o lugar a que cada coisa tende. Então para os persas primitivos quanto mais longe de seu ônfalo, piores são as pessoas. Em Israel, o profeta Isaias escreve sobre uma Jerusalem no topo da glória e que emite círculos concêntricos de graça que abençõam todo o mundo. Na Grécia, o Ônfalo é o templo de Apolo em Delfos que é o centro do mundo.
Deixando essa digressão de lado e voltando à Orestéia vemos que as Fúrias representam a auto acusação e a acusação do meio social. Orestes está poluto e sua voz está longe de sua salvação. As Erínies são, em número igual com as vozes interiores acusatórias, elas são múltiplas. Mas Orestes foje e aqui, como observa Apolo, fugir é um ato de coragem. Ele quer dentre todas essas vozes encontrar a sua voz, saber quem é que fala quando a boca se movimenta e quem é que age quando seus membros movem. Ele só tem uma saída: o Ônfalo. Não falamos de uma cidade grega ou do templo de um antigo deus mas da alma do próprio leitor. Tomemos para nós o conselho de Atena para Telêmaco: miremos Orestes. Só a busca do Ônfalo poderá distinguir as vozes acusatórias e os atos falsos de nossa verdadeira voz e de nossas verdadeiras ações. Só assim poderemos distinguir o "Eu" do "não-eu": a sinceridade é conquista de anos.
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
Euclides, o guia de intuições
" Deus fez os números inteiros, todos os outros são obras dos homens" Kroneker
1- Linguagem e matemática
O grande mestre moderno da retórica, Chaim Perelman, pode ter caído em exageros às vezes mas sua interpretação do caos moderno é acertadíssima. Quando digo "caos" não o faço para causar frisson nem nada do tipo mas me refiro ao seu significado etimológico que é abismo. Há um abismo entre nossas classes científicas e o resto do povo.
O abismo foi aberto pelos próprios pés da classe científica com o advento da lógica moderna. O lógico pode elaborar como lhe aprouver a linguagem de seu sistema e determinar os signos e as combinações a ser utilizadas. Mesmo os axiomas, que são os princípios não provados de um sistema, graças à axiomática moderna chamada convencionalista, podem ser escolhidos ao gosto do freguês. Tudo isso é aceito desde que se respeitem os requisitos de coerência intrínseca e de que se evitem ambiguidades.
O sonho da ciência moderna é aquele a que se refere José Ingenieros em seu "O homem medíocre", a completa separação entre filósofos e cientistas com uma lingua exata e unívoca vivendo no mundo dos sonhos e os poetas e outros com o monopólio da linguagem figurada. Hoje já sentimos os efeitos da separação e as consequências são devastadoras.
2- Ciência antiga
Mas nem sempre foi assim, embora os cientistas não fossem mais compreendidos pelos homens comuns do que são hoje, eles pelo menos eram entendidos pelos seu pares. O fator especialização nem sempre foi forte como hodiernamente, nenhuma ciência antiga poderia ser aprendida sozinha, elas não eram autônomas. Não se apreendia uma ciência sem conhecer suas ciências mães e pelo menos dar umas espiadinhas nas ciências irmãs. Não posso deixar de culpar a excesiva especialização que causou a desconexão com as outras ciências e a deformização das próprias ciências.
A análise que vamos fazer não tentará reconstruir a imagem das antigas ciências e da metafísica e cosmologia que às embasavam para dar um novo sentido à ciência, antes, faremos o caminho inverso e tomando um ponto de vista moderno examinaremos uma ciência antiga e tentaremos chegar na metafísica que a insuflava vida. Tomaremos o edifício da geometria euclidiana e partindo de um ponto de vista moderno partiremos do particular até chegarmos a Deus. "Do inferno, passando pelo purgatório rumo ao céu", e Granger será nosso guia.
3- Granger e a filosofia do estilo
Expusemos no post anterior as bases da filosofia do estilo de Granger e então diremos poucas palavras a respeito. Granger define estilo como "modalidade de integração do individual num processo concreto que é o trabalho", isto é, quando Euclides faz geometria ele não está só atualizando a ciência que estava em potência em sua cabeça, ele também está atualizando dentro de si a consciência real ou fictícia de todo o kosmos e sua parte nele. Então não há uma geometria euclidiana, cartesiana etc, etc, etc mas uma geometria só, cujo conhecimento pode ser ampliado ou minorado pelo estilo que o geometra tenha. O estilo, ou redundância, é um modo de apresentar os conceitos, de encadeá-los, dar-lhes unidade e; de outro lado determinar a "carga intuitiva dos conceitos". Em suma, saber quando falar e quando calar.
Obviamente não nos referimos a uma espécie de habilidade ou prudência pessoal, mas esse estilo está estritamente relacionado à cosmologia do geômetra. Um sistema matemático deve ser a interface entre o objeto formal que é a actualização da matemática e o sistema dos atos concretos que constituem as relações dos homens entre si e com o mundo. Michel Chasles, na citação do Granger, diz: "O estilo liga-se tão intimamente com o espírito dos métodos que deve caminhar com eles, do mesmo modo que deve, se tomar a dianteira, influenciá-los poderosamente e nos progressos gerais da ciência".
4- Euclides
Uma primeira exigência se impõe a nossa tarefa, a de saber quais das numerosas cosmologias e filosofias teria Euclides e sua obra participado. Pois, com efeito, várias haviam, embora seja clara a origem helênica da obra resta-nos saber qual filosofia será desvelada ao fim de nossa analise. Então, para ganharmos fonte de comparação faremos uma análise histórica paralela à estilística.
Não se sabe muito da vida de Euclides exceto que atingiu seu acúmen em 300 a. C. e de sua resposta ao rei Ptolomeu. O rei teria lhe pedido um caminho mais curto que os Elementos para a geometria ao que Euclides respondeu: "não há caminho real para a geometria". Ambos os fatos medeiam entre os primeiros discípulos de Platão e sendo Atenas o mais importante centro de matemática até então, não é errado imaginar que Euclides teria recebido dos primeiros discipulos de Platão seu treinamento.
Mas não precisamos imaginar muito pois no Catálogo dos geômetras de Proclo está escrito: "E não muito mais jovem que esses é Euclides, o que reuniu os Elementos, tendo também, por um lado, arranjado muitas coisas de Eudoxo, e, por outro, aperfeiçoado muitas de Teeteto(sim, o do diálogo), e ainda tendo conduzido as coisas demonstradas frouxamente pelos predecessores a demonstrações irrefutáveis". Vale dizer que tanto Eudoxo quanto Teeteto fizeram parte da Academia de Platão.

5- Os problemas
Tomando posse desse dado histórico e também da continuação da escola pitagórica na platônica, podemos nos perguntar como foi solucionado o "terror" dos pitagóricos? Tendo Pitágoras dito ser o Um o princípio e a medida de tudo e também demonstrado seu teorema ocorreu-lhe que tomando um triângulo de lados iguais sua hipotenusa não é medida pelo um, ou seja, é um número racional. Pitágoras descobriu os números racionais e acabou com a própria filosofia. Mas será isso mesmo ou como dirá nosso Mário, "o pitagorismo é a corrente filosófica mais difamada"? De qualquer forma se ele incorre nesse erro também o faz Euclides quando diz que número é "multidão composta de unidade".
Mas não é só isso. Há de se tentar ajustar o sistema de números à noção de ser geométrico linear ou superficial. O que não é problema de menos, pois, embora o problema tenha sido resolvido não parecemos(por nós digo os não matemáticos) ter compreendido. Há uma aritmetização da geometria que dá a matemática um caráter altamente formal e lógico. Antes geômetra era sinônimo de régua esquadro e compasso enquanto hoje só fazemos as contas e as figuras só servem para pretexto do exercício aritmético ou algébrico. É característica do homem massa não ter idéia do esforço feito para alcançar um bem, diria Ortega y Gasset.
Enfim, o que se postula quando se diz terem os objetos uma grandeza?
6- O homem é seu estilo
Falando do estilo exterior não creio existir algum matemático que tenha desbancado nosso homem. Ele é pai do método axiomático(na verdade quem inventou foi Aristóteles mas ocorre que ele nunca o usou) onde partindo de axiomas e noções comuns pode se construir uma série concatenda de proposições. Além disso, há uma espécie de ritual da demonstração que sempre é cumprido onde cada ciclo de demonstração dá origem a inferências que dão origem a novos ciclos.
Começa com a proposição que indica o que é dado no problema e o que é procurado para depois os dados serem designados por simbolos. Por conseguinte se diz o que falta aos dados para descobrir o que se procura. A demonstração estabelece as inferências que decorrem da conclusão e que serão dados para outras proposições e o ciclo é fechado iniciando com um novo problema.
Já falamos do método axiomático de Euclides mas é interessante notar que essa estrutura lógica é preenchida com conteúdo dialético. As figuras geométricas ainda não são totalmente abstraídas em razão de uma aritmética e são tratadas quase como objetos sensíveis. Muitas das proposições tem como fim a construção de figuras, elas são também sobrepostas, transferíveis e por assim dizer tangíveis. A semelhança com o modo dialético Socrático é conspícua e pode-se mesmo encontrar nos diálogos platônicos vários exemplos de demonstrações geométricas a ponto de dizer que as matemáticas e medicina são guias à filosofia. Tanto na dialética platônica quanto na geometria o guia do discurso está disposto a fazer seu interlocutor "ver" a verdade, é a dialética apofântica no dizer de Mário Ferreira. Granger que me parece ter mais bases no kantismo e uma base não muito boa na filosofia clássica tenta exprimir isso ao dizer acertadamente que "a maneira euclidiana consiste em dominar a intuição, em lhe explicitar as evidências, em dar um estatuto às mesmas". Euclides é o guia das intuições.
A filosofia clássica pode se fazer sentir em quase todos os níveis do edifício de nosso matemático, desde a polêmica definição de ponto(sobre isso recomendo a imbatível apostila do Olavo de Carvalho, "Sobre o simbolismo geométrico") até seu ápice conceitual na teoria das medidas.
7- Álgebra geométrica
O que causa espanto aos olhos do leitor moderno é que se permita, na "mais exata das ciências", encontrar algo como a noção comum IV: "coisas(figuras) que coincidem são iguais". Isto é, transportando as figuras de mesma forma e sobrepondo-as pode se postular a igualdade das mesmas. Claro que nisso há um forte toque de intuição geométrica, o que é bom, mas a equivalência entre congruência e igualdade estaria restringindo a extensão desse último que só seria predicado entre figuras iguais.
O percalço somente é superado na proposição 35 do livro I onde, sem nenhuma indicação explícita do autor(eu mesmo fiz o bendito exercício umas três vezes até perceber), o conceito de igualdade geométrica tem sua zona de predicação aumentada. Duas grandezas podem ser iguais independente de sua morfologia.
O teorema 35 diz que: "parelelogramos que têm a mesma base e estão compreendidos entre as mesma paralelas são iguais entre si". Euclides faz coincidir dois triângulos, ABE e DCF, por sobreposição e suprime a mesma superfície BGC deles e diz serem os dois paralelogramos iguais, sendo que, agora tacitamente, em sentido abstrato.

É importante notar que todos os procedimentos aparecem como transformação de figuras e manipulação de áreas. As áreas das superfícies não são construidas como composição de seus comprimentos como fazemos hoje. Ao enunciar o teorema de pitágoras dizemos ser o quadrado da hipotenusa igual a soma dos quadrados dos catetos. Euclides enunciaria serem a soma de quadrados construidos sobre as bases de um triângulo retângulo iguais ao quadrado construído sobre a hipotenusa. Sim, é a mesma coisa mas é isso que quero dizer quando falo de estilo, o Euclides tinha todas as bases para proceder da maneira que fazemos hoje como podemos ver nos seus livros aritméticos mas ele não poderia fazer isso sem uma teoria da medida. Assim no livro dois Euclides cria uma álgebra geométrica que causa espanto dado seu caráter redundante com as regras mais elementares do cálculo. As figuras aqui se tornam uma espécie de ferramenta para o cálculo o que dá uma impressão de que o procedimento é de todo fútil. Mas isso só demonstra o caráter insuficientemente abstrato da noção de grandeza usada até então. Parece que Euclides não quer misturar seus escritos aritméticos com sua algebra geométrica e deixar totalmente estanque a distinção aristotélica entre quantidade contínua e contígua.

8- Teoria da Medida
Estamos em pleno processo de abstração e as grandezas antes manejáveis e quase físicas são consideradas como instrumento de cálculo, sendo que os números não apareciam e Euclides parece se recusar a usá-los. Há ainda o problema dos números racionais que não foi solucionado.
No livro VII, porém, a coisa muda com a definição de grandeza: "uma grandeza é parte alíquota de uma outra grandeza, se a menor mede a maior, isto é, se ela está contida um NÚMERO EXATO de vezes". E Euclides evita qualquer ambiguidade pois ele opõe parte alíquota à "partes", já no plural para indicar que este último não mede a grandeza de modo exato. Só é uma grandeza se for proporcional(logos) à outra, se lhe for um múltiplo. O próprio adjetivo múltiplo remete à mesma idéia de iteração de uma grandeza determinado número de vezes. Euclides reduz a intuição aos limites de um esquema operatório que é a de múltiplo de uma grandeza, que combina esta última com o número inteiro. Isso se dá em três tempos:
i) abstração qualitativa - trata de encontrar um critério, uma pedra de medida e lhe denominar como o um;
ii) condição de possibilidade(necessária e suficiente) da existência de uma relação: quando encontrar um múltiplo da outra que a ultrapasse. Aqui podemos ter duas situações, uma positiva e outra negativa, pois pode-se ou não haver comensurabilidade. Como no caso do infinito em que não há comensurabilidade alguma;
iii) igualdade das relações - a relação entre os duas grandezas não-inteiras tiver igual relação com as grandezas inteiras, isto é, igualdade de relações que se pode expressar assim: sejam dois pares de grandeza; a, b e c, d. As relações a/b e c/d são iguais se, quaisquer que sejam os inteiros p e q, p x a é superior, igual, ou menor que p x b se e somente se p x c é superior, igual ou menor que p x d.
Para Euclides o logos de duas grandezas é um número inteiro. Um número inteiro é a medida de uma grandeza em relação a uma outra grandeza tomada como unidade. Como salientou Granger: "É seguindo a insistência ou não sobre as propriedades intrínsecas da grandeza, unidade escolhida, que a relação será assimilada ao número(racional) medindo uma grandeza será identificada ao número(inteiro) de unidades que mede."
9- Às portas da Álgebra
Mas a unificação não vale somente para os objetos geométricos como vimos mas também para o objeto da aritmética. Para notar isso basta olharmos a definição de número dada por Euclides: uma multiplicidade composta de unidades. É de conhecimento geral a algebra ter sido descoberta pelos Árabes na Pérsia. Mas não se pode negar que Euclides deu todas as condições para a descoberta, e seus pressupostos podem ser todos encontrados nos Elementos. Na verdade quando a academia platônica teve seu fim por meio de decreto é para a Pérsia que foram os remanescentes.
10- Deus
Granger escreve: "a unidade é tomada aqui em sua indeterminação de medida minimal o número da aritmética é o resultado da operação de repetição do número intuitivo que é base da noção de medida. Percebe-se a razão de Euclides não sinta necessidade de precisar que o número é uma grandeza; ele é a grandeza por excelência". Aqui de fato está a raiz do aspecto educativo da geometria a ponto de Platão por na entrada de sua academia o "Não entre quem não for geômetra". Percebemos o dano irreversível causado ao neófito pelo contato direto com os números, pois ele é privado de experimentar as sucessivas fases de abstração para chegar ao logos das figuras. Podemos entender a crítica platônica à Protagoras por este não ter treinamento em geometria, sem isso é muito fácil cair em banalidades do tipo o homem é a medida. Medida, sendo termo propriamente matemático, foi posteriormente usada como idéia tendo sido o processo matemático para achar o logos aplicado a coisas da física e, por sua vez a idéia foi unificada pelo mesmo processo no descobrimento do Uno, Deus. A geometria nos ajuda a perceber que Deus é a medida de todas as coisas.
1- Linguagem e matemática
O grande mestre moderno da retórica, Chaim Perelman, pode ter caído em exageros às vezes mas sua interpretação do caos moderno é acertadíssima. Quando digo "caos" não o faço para causar frisson nem nada do tipo mas me refiro ao seu significado etimológico que é abismo. Há um abismo entre nossas classes científicas e o resto do povo.
O abismo foi aberto pelos próprios pés da classe científica com o advento da lógica moderna. O lógico pode elaborar como lhe aprouver a linguagem de seu sistema e determinar os signos e as combinações a ser utilizadas. Mesmo os axiomas, que são os princípios não provados de um sistema, graças à axiomática moderna chamada convencionalista, podem ser escolhidos ao gosto do freguês. Tudo isso é aceito desde que se respeitem os requisitos de coerência intrínseca e de que se evitem ambiguidades.
O sonho da ciência moderna é aquele a que se refere José Ingenieros em seu "O homem medíocre", a completa separação entre filósofos e cientistas com uma lingua exata e unívoca vivendo no mundo dos sonhos e os poetas e outros com o monopólio da linguagem figurada. Hoje já sentimos os efeitos da separação e as consequências são devastadoras.
2- Ciência antiga
Mas nem sempre foi assim, embora os cientistas não fossem mais compreendidos pelos homens comuns do que são hoje, eles pelo menos eram entendidos pelos seu pares. O fator especialização nem sempre foi forte como hodiernamente, nenhuma ciência antiga poderia ser aprendida sozinha, elas não eram autônomas. Não se apreendia uma ciência sem conhecer suas ciências mães e pelo menos dar umas espiadinhas nas ciências irmãs. Não posso deixar de culpar a excesiva especialização que causou a desconexão com as outras ciências e a deformização das próprias ciências.
A análise que vamos fazer não tentará reconstruir a imagem das antigas ciências e da metafísica e cosmologia que às embasavam para dar um novo sentido à ciência, antes, faremos o caminho inverso e tomando um ponto de vista moderno examinaremos uma ciência antiga e tentaremos chegar na metafísica que a insuflava vida. Tomaremos o edifício da geometria euclidiana e partindo de um ponto de vista moderno partiremos do particular até chegarmos a Deus. "Do inferno, passando pelo purgatório rumo ao céu", e Granger será nosso guia.
3- Granger e a filosofia do estilo
Expusemos no post anterior as bases da filosofia do estilo de Granger e então diremos poucas palavras a respeito. Granger define estilo como "modalidade de integração do individual num processo concreto que é o trabalho", isto é, quando Euclides faz geometria ele não está só atualizando a ciência que estava em potência em sua cabeça, ele também está atualizando dentro de si a consciência real ou fictícia de todo o kosmos e sua parte nele. Então não há uma geometria euclidiana, cartesiana etc, etc, etc mas uma geometria só, cujo conhecimento pode ser ampliado ou minorado pelo estilo que o geometra tenha. O estilo, ou redundância, é um modo de apresentar os conceitos, de encadeá-los, dar-lhes unidade e; de outro lado determinar a "carga intuitiva dos conceitos". Em suma, saber quando falar e quando calar.
Obviamente não nos referimos a uma espécie de habilidade ou prudência pessoal, mas esse estilo está estritamente relacionado à cosmologia do geômetra. Um sistema matemático deve ser a interface entre o objeto formal que é a actualização da matemática e o sistema dos atos concretos que constituem as relações dos homens entre si e com o mundo. Michel Chasles, na citação do Granger, diz: "O estilo liga-se tão intimamente com o espírito dos métodos que deve caminhar com eles, do mesmo modo que deve, se tomar a dianteira, influenciá-los poderosamente e nos progressos gerais da ciência".
4- Euclides
Uma primeira exigência se impõe a nossa tarefa, a de saber quais das numerosas cosmologias e filosofias teria Euclides e sua obra participado. Pois, com efeito, várias haviam, embora seja clara a origem helênica da obra resta-nos saber qual filosofia será desvelada ao fim de nossa analise. Então, para ganharmos fonte de comparação faremos uma análise histórica paralela à estilística.
Não se sabe muito da vida de Euclides exceto que atingiu seu acúmen em 300 a. C. e de sua resposta ao rei Ptolomeu. O rei teria lhe pedido um caminho mais curto que os Elementos para a geometria ao que Euclides respondeu: "não há caminho real para a geometria". Ambos os fatos medeiam entre os primeiros discípulos de Platão e sendo Atenas o mais importante centro de matemática até então, não é errado imaginar que Euclides teria recebido dos primeiros discipulos de Platão seu treinamento.
Mas não precisamos imaginar muito pois no Catálogo dos geômetras de Proclo está escrito: "E não muito mais jovem que esses é Euclides, o que reuniu os Elementos, tendo também, por um lado, arranjado muitas coisas de Eudoxo, e, por outro, aperfeiçoado muitas de Teeteto(sim, o do diálogo), e ainda tendo conduzido as coisas demonstradas frouxamente pelos predecessores a demonstrações irrefutáveis". Vale dizer que tanto Eudoxo quanto Teeteto fizeram parte da Academia de Platão.

5- Os problemas
Tomando posse desse dado histórico e também da continuação da escola pitagórica na platônica, podemos nos perguntar como foi solucionado o "terror" dos pitagóricos? Tendo Pitágoras dito ser o Um o princípio e a medida de tudo e também demonstrado seu teorema ocorreu-lhe que tomando um triângulo de lados iguais sua hipotenusa não é medida pelo um, ou seja, é um número racional. Pitágoras descobriu os números racionais e acabou com a própria filosofia. Mas será isso mesmo ou como dirá nosso Mário, "o pitagorismo é a corrente filosófica mais difamada"? De qualquer forma se ele incorre nesse erro também o faz Euclides quando diz que número é "multidão composta de unidade".
Mas não é só isso. Há de se tentar ajustar o sistema de números à noção de ser geométrico linear ou superficial. O que não é problema de menos, pois, embora o problema tenha sido resolvido não parecemos(por nós digo os não matemáticos) ter compreendido. Há uma aritmetização da geometria que dá a matemática um caráter altamente formal e lógico. Antes geômetra era sinônimo de régua esquadro e compasso enquanto hoje só fazemos as contas e as figuras só servem para pretexto do exercício aritmético ou algébrico. É característica do homem massa não ter idéia do esforço feito para alcançar um bem, diria Ortega y Gasset.
Enfim, o que se postula quando se diz terem os objetos uma grandeza?
6- O homem é seu estilo
Falando do estilo exterior não creio existir algum matemático que tenha desbancado nosso homem. Ele é pai do método axiomático(na verdade quem inventou foi Aristóteles mas ocorre que ele nunca o usou) onde partindo de axiomas e noções comuns pode se construir uma série concatenda de proposições. Além disso, há uma espécie de ritual da demonstração que sempre é cumprido onde cada ciclo de demonstração dá origem a inferências que dão origem a novos ciclos.
Começa com a proposição que indica o que é dado no problema e o que é procurado para depois os dados serem designados por simbolos. Por conseguinte se diz o que falta aos dados para descobrir o que se procura. A demonstração estabelece as inferências que decorrem da conclusão e que serão dados para outras proposições e o ciclo é fechado iniciando com um novo problema.
Já falamos do método axiomático de Euclides mas é interessante notar que essa estrutura lógica é preenchida com conteúdo dialético. As figuras geométricas ainda não são totalmente abstraídas em razão de uma aritmética e são tratadas quase como objetos sensíveis. Muitas das proposições tem como fim a construção de figuras, elas são também sobrepostas, transferíveis e por assim dizer tangíveis. A semelhança com o modo dialético Socrático é conspícua e pode-se mesmo encontrar nos diálogos platônicos vários exemplos de demonstrações geométricas a ponto de dizer que as matemáticas e medicina são guias à filosofia. Tanto na dialética platônica quanto na geometria o guia do discurso está disposto a fazer seu interlocutor "ver" a verdade, é a dialética apofântica no dizer de Mário Ferreira. Granger que me parece ter mais bases no kantismo e uma base não muito boa na filosofia clássica tenta exprimir isso ao dizer acertadamente que "a maneira euclidiana consiste em dominar a intuição, em lhe explicitar as evidências, em dar um estatuto às mesmas". Euclides é o guia das intuições.
A filosofia clássica pode se fazer sentir em quase todos os níveis do edifício de nosso matemático, desde a polêmica definição de ponto(sobre isso recomendo a imbatível apostila do Olavo de Carvalho, "Sobre o simbolismo geométrico") até seu ápice conceitual na teoria das medidas.
7- Álgebra geométrica
O que causa espanto aos olhos do leitor moderno é que se permita, na "mais exata das ciências", encontrar algo como a noção comum IV: "coisas(figuras) que coincidem são iguais". Isto é, transportando as figuras de mesma forma e sobrepondo-as pode se postular a igualdade das mesmas. Claro que nisso há um forte toque de intuição geométrica, o que é bom, mas a equivalência entre congruência e igualdade estaria restringindo a extensão desse último que só seria predicado entre figuras iguais.
O percalço somente é superado na proposição 35 do livro I onde, sem nenhuma indicação explícita do autor(eu mesmo fiz o bendito exercício umas três vezes até perceber), o conceito de igualdade geométrica tem sua zona de predicação aumentada. Duas grandezas podem ser iguais independente de sua morfologia.
O teorema 35 diz que: "parelelogramos que têm a mesma base e estão compreendidos entre as mesma paralelas são iguais entre si". Euclides faz coincidir dois triângulos, ABE e DCF, por sobreposição e suprime a mesma superfície BGC deles e diz serem os dois paralelogramos iguais, sendo que, agora tacitamente, em sentido abstrato.

É importante notar que todos os procedimentos aparecem como transformação de figuras e manipulação de áreas. As áreas das superfícies não são construidas como composição de seus comprimentos como fazemos hoje. Ao enunciar o teorema de pitágoras dizemos ser o quadrado da hipotenusa igual a soma dos quadrados dos catetos. Euclides enunciaria serem a soma de quadrados construidos sobre as bases de um triângulo retângulo iguais ao quadrado construído sobre a hipotenusa. Sim, é a mesma coisa mas é isso que quero dizer quando falo de estilo, o Euclides tinha todas as bases para proceder da maneira que fazemos hoje como podemos ver nos seus livros aritméticos mas ele não poderia fazer isso sem uma teoria da medida. Assim no livro dois Euclides cria uma álgebra geométrica que causa espanto dado seu caráter redundante com as regras mais elementares do cálculo. As figuras aqui se tornam uma espécie de ferramenta para o cálculo o que dá uma impressão de que o procedimento é de todo fútil. Mas isso só demonstra o caráter insuficientemente abstrato da noção de grandeza usada até então. Parece que Euclides não quer misturar seus escritos aritméticos com sua algebra geométrica e deixar totalmente estanque a distinção aristotélica entre quantidade contínua e contígua.

8- Teoria da Medida
Estamos em pleno processo de abstração e as grandezas antes manejáveis e quase físicas são consideradas como instrumento de cálculo, sendo que os números não apareciam e Euclides parece se recusar a usá-los. Há ainda o problema dos números racionais que não foi solucionado.
No livro VII, porém, a coisa muda com a definição de grandeza: "uma grandeza é parte alíquota de uma outra grandeza, se a menor mede a maior, isto é, se ela está contida um NÚMERO EXATO de vezes". E Euclides evita qualquer ambiguidade pois ele opõe parte alíquota à "partes", já no plural para indicar que este último não mede a grandeza de modo exato. Só é uma grandeza se for proporcional(logos) à outra, se lhe for um múltiplo. O próprio adjetivo múltiplo remete à mesma idéia de iteração de uma grandeza determinado número de vezes. Euclides reduz a intuição aos limites de um esquema operatório que é a de múltiplo de uma grandeza, que combina esta última com o número inteiro. Isso se dá em três tempos:
i) abstração qualitativa - trata de encontrar um critério, uma pedra de medida e lhe denominar como o um;
ii) condição de possibilidade(necessária e suficiente) da existência de uma relação: quando encontrar um múltiplo da outra que a ultrapasse. Aqui podemos ter duas situações, uma positiva e outra negativa, pois pode-se ou não haver comensurabilidade. Como no caso do infinito em que não há comensurabilidade alguma;
iii) igualdade das relações - a relação entre os duas grandezas não-inteiras tiver igual relação com as grandezas inteiras, isto é, igualdade de relações que se pode expressar assim: sejam dois pares de grandeza; a, b e c, d. As relações a/b e c/d são iguais se, quaisquer que sejam os inteiros p e q, p x a é superior, igual, ou menor que p x b se e somente se p x c é superior, igual ou menor que p x d.
Para Euclides o logos de duas grandezas é um número inteiro. Um número inteiro é a medida de uma grandeza em relação a uma outra grandeza tomada como unidade. Como salientou Granger: "É seguindo a insistência ou não sobre as propriedades intrínsecas da grandeza, unidade escolhida, que a relação será assimilada ao número(racional) medindo uma grandeza será identificada ao número(inteiro) de unidades que mede."
9- Às portas da Álgebra
Mas a unificação não vale somente para os objetos geométricos como vimos mas também para o objeto da aritmética. Para notar isso basta olharmos a definição de número dada por Euclides: uma multiplicidade composta de unidades. É de conhecimento geral a algebra ter sido descoberta pelos Árabes na Pérsia. Mas não se pode negar que Euclides deu todas as condições para a descoberta, e seus pressupostos podem ser todos encontrados nos Elementos. Na verdade quando a academia platônica teve seu fim por meio de decreto é para a Pérsia que foram os remanescentes.
10- Deus
Granger escreve: "a unidade é tomada aqui em sua indeterminação de medida minimal o número da aritmética é o resultado da operação de repetição do número intuitivo que é base da noção de medida. Percebe-se a razão de Euclides não sinta necessidade de precisar que o número é uma grandeza; ele é a grandeza por excelência". Aqui de fato está a raiz do aspecto educativo da geometria a ponto de Platão por na entrada de sua academia o "Não entre quem não for geômetra". Percebemos o dano irreversível causado ao neófito pelo contato direto com os números, pois ele é privado de experimentar as sucessivas fases de abstração para chegar ao logos das figuras. Podemos entender a crítica platônica à Protagoras por este não ter treinamento em geometria, sem isso é muito fácil cair em banalidades do tipo o homem é a medida. Medida, sendo termo propriamente matemático, foi posteriormente usada como idéia tendo sido o processo matemático para achar o logos aplicado a coisas da física e, por sua vez a idéia foi unificada pelo mesmo processo no descobrimento do Uno, Deus. A geometria nos ajuda a perceber que Deus é a medida de todas as coisas.
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
Filosofia do Estilo
(este post é uma leitura do Filosofia da arte de Guilles Gaston Granger)
Nas ciências, na organização da linguagem e nas atividades ditas superiores as relações de forma e conteúdo se apresentam de tal modo que um observador desatento poderia supor a existência de "formas" sem "matérias", sem um conteúdo "significativo" para a sociedade. Assim, as atividades superiores ficaram estigmatizadas como um ócio, donde aliás, deriva a expressão escola. A esfera do útil foi totalmente separada do intelectual e este tinha uma atividade que nada produzia na sociedade.
Propomos não uma completa separação mas uma bipolaridade onde o conteúdo pragmático é átono para os sábios e preponderante nas outras classes e o conteúdo abstrato é preponderante para os sábios e átono para as outras classes.
Nossa proposta só se concretizará por meio do trabalho, na definição de Granger. O trabalho é "a atividade considerada em seu contexto complexo e em particular com as condições sociais que dão significação no mundo efetivamente vivido". Então a atividade do pescador pode ser considerada pelo prisma da arte da pesca e pelo prisma da consciência humana. Para o pescador, seu trabalho é não só o de atualizar a arte da pesca mas a atualização de um fato no interior de uma totalidade, ilusória ou autêntica mas em todo caso vivida pela consciência. Estes dois aspectos constituem dois movimentos de determinação prática do individual, o momento concreto vivido. Trabalho em nossa definição não é só a arte que lhe dá o nome mas o modo que está encaixado no quadro social mais amplo.
Fica claro que na distribuição das partes cabe aos sábios "produzirem" o conteúdo de cada um dos trabalhos, pois a arte da pesca é inventada e aperfeiçoada com o costume mas a consciência do que este faz em contexto geral é dado pelos sábios. Como a arte produtiva é um universal que pode ser reproduzida e atualizada por vários indivíduos a consciência da função no Todo tem caráter individualizador e a tarefa do intelectual é a individuação, a de produzir essa consciência. Mas como diabos isso é possível? Teremos antes de tudo de entender a "arte dos sábios".
Surge então uma aparente aporia. Se a arte da pesca ou da caça tem como caráter individualizador o produto da tal da "arte dos sábios", quem daria o caráter individualizador desta última? Esse parece ser o erro do Aristóteles em sua política, o de dizer que os spoudaios seriam a forma e o povo a matéria. A solução estaria talvez na introdução da concepção platônica de que as sociedades começam com a inoculação da idéia de Bem e que este seria o caráter individualizador, ou material, e a sociedade a forma. Sendo que cada sociedade tem uma forma diferente e nenhuma é suficiente para armazenar dentro de si o Bem. No entanto o processo todo passa pela intermediação dos sacerdotes ou reis que conseguiam organizar a alma para contemplação do Bem e passar essa ordem para a sociedade sendo por isso, em quase todas as culturas, os filhos de Deus.
A atividade superior não existe como se flutuasse no ar. Antes, é uma redução do que é experimentado como um individual, isto é, como momento concreto vivido em tal situação. A vida intelectual orienta-se para a recuperação desse individual vivido. Como toda civilização até agora conhecida tem como base uma criação estética vale a pena nos voltarmos para ela. Uma obra de arte pode ser vista como um esquema repetível de situações, como por exemplo, no Don quixote em que um homem de gênio ficou louco e transfere sua loucura para sociedade ou n'O Processo de Kafka onde o sujeito é punido por algo que não sabe que acontecem. Mas a obra também pode ser vista como a matriz de intelecções de que Aristóteles falava, ou seja, pela profunda impressão que ela causa. No dizer de Grange, "a arte tende a revelar não somente a universalidade sem conceitos, mas também uma individualidade conceituada". Embora a criação estética seja um caso particular, toda atividade superior é uma tentativa humana para superar a impossibilidade de uma apreensão teórica do individual.
Surge então a necessidade de uma filosofia da arte ou filosofia do estilo, não só nas chamadas belas artes mas arte em seu sentido mais amplo. Granger define assim sua filosofia do estilo: "modalidade de integração do individual num processo concreto que é trabalho e que se apresenta necessariamente em todas as formas de prática". O que é estilo? Há a mensagem que é a experiência a ser comunicada, e a redundância, ou sobredeterminações. Por exemplo o locutor que tem uma mensagem a ser transmitida, como um texto, mas pode fazê-la de diversos modos e esses podem reforçar a intenção do texto ou torná-la outra totalmente diferente. Há estilo quando se "sabe usar o simbolismo, não somente quanto ao textura mas também quanto a sua relação com uma experiência que o envolve", diz-nos Granger.
O homem é co-criador de Deus e sua obra magna é a sociedade, sendo assim a proposta da filosofia do estilo é da mais alta importância. A consciência da hierarquia Bem - sábio - homem e de que todos eles são em algum nível criadores é o primeiro passo para um novo patamar de conhecimeto. Todo homem é um criador, ele é sempre artista.
Nas ciências, na organização da linguagem e nas atividades ditas superiores as relações de forma e conteúdo se apresentam de tal modo que um observador desatento poderia supor a existência de "formas" sem "matérias", sem um conteúdo "significativo" para a sociedade. Assim, as atividades superiores ficaram estigmatizadas como um ócio, donde aliás, deriva a expressão escola. A esfera do útil foi totalmente separada do intelectual e este tinha uma atividade que nada produzia na sociedade.
Propomos não uma completa separação mas uma bipolaridade onde o conteúdo pragmático é átono para os sábios e preponderante nas outras classes e o conteúdo abstrato é preponderante para os sábios e átono para as outras classes.
Nossa proposta só se concretizará por meio do trabalho, na definição de Granger. O trabalho é "a atividade considerada em seu contexto complexo e em particular com as condições sociais que dão significação no mundo efetivamente vivido". Então a atividade do pescador pode ser considerada pelo prisma da arte da pesca e pelo prisma da consciência humana. Para o pescador, seu trabalho é não só o de atualizar a arte da pesca mas a atualização de um fato no interior de uma totalidade, ilusória ou autêntica mas em todo caso vivida pela consciência. Estes dois aspectos constituem dois movimentos de determinação prática do individual, o momento concreto vivido. Trabalho em nossa definição não é só a arte que lhe dá o nome mas o modo que está encaixado no quadro social mais amplo.
Fica claro que na distribuição das partes cabe aos sábios "produzirem" o conteúdo de cada um dos trabalhos, pois a arte da pesca é inventada e aperfeiçoada com o costume mas a consciência do que este faz em contexto geral é dado pelos sábios. Como a arte produtiva é um universal que pode ser reproduzida e atualizada por vários indivíduos a consciência da função no Todo tem caráter individualizador e a tarefa do intelectual é a individuação, a de produzir essa consciência. Mas como diabos isso é possível? Teremos antes de tudo de entender a "arte dos sábios".
Surge então uma aparente aporia. Se a arte da pesca ou da caça tem como caráter individualizador o produto da tal da "arte dos sábios", quem daria o caráter individualizador desta última? Esse parece ser o erro do Aristóteles em sua política, o de dizer que os spoudaios seriam a forma e o povo a matéria. A solução estaria talvez na introdução da concepção platônica de que as sociedades começam com a inoculação da idéia de Bem e que este seria o caráter individualizador, ou material, e a sociedade a forma. Sendo que cada sociedade tem uma forma diferente e nenhuma é suficiente para armazenar dentro de si o Bem. No entanto o processo todo passa pela intermediação dos sacerdotes ou reis que conseguiam organizar a alma para contemplação do Bem e passar essa ordem para a sociedade sendo por isso, em quase todas as culturas, os filhos de Deus.
A atividade superior não existe como se flutuasse no ar. Antes, é uma redução do que é experimentado como um individual, isto é, como momento concreto vivido em tal situação. A vida intelectual orienta-se para a recuperação desse individual vivido. Como toda civilização até agora conhecida tem como base uma criação estética vale a pena nos voltarmos para ela. Uma obra de arte pode ser vista como um esquema repetível de situações, como por exemplo, no Don quixote em que um homem de gênio ficou louco e transfere sua loucura para sociedade ou n'O Processo de Kafka onde o sujeito é punido por algo que não sabe que acontecem. Mas a obra também pode ser vista como a matriz de intelecções de que Aristóteles falava, ou seja, pela profunda impressão que ela causa. No dizer de Grange, "a arte tende a revelar não somente a universalidade sem conceitos, mas também uma individualidade conceituada". Embora a criação estética seja um caso particular, toda atividade superior é uma tentativa humana para superar a impossibilidade de uma apreensão teórica do individual.
Surge então a necessidade de uma filosofia da arte ou filosofia do estilo, não só nas chamadas belas artes mas arte em seu sentido mais amplo. Granger define assim sua filosofia do estilo: "modalidade de integração do individual num processo concreto que é trabalho e que se apresenta necessariamente em todas as formas de prática". O que é estilo? Há a mensagem que é a experiência a ser comunicada, e a redundância, ou sobredeterminações. Por exemplo o locutor que tem uma mensagem a ser transmitida, como um texto, mas pode fazê-la de diversos modos e esses podem reforçar a intenção do texto ou torná-la outra totalmente diferente. Há estilo quando se "sabe usar o simbolismo, não somente quanto ao textura mas também quanto a sua relação com uma experiência que o envolve", diz-nos Granger.
O homem é co-criador de Deus e sua obra magna é a sociedade, sendo assim a proposta da filosofia do estilo é da mais alta importância. A consciência da hierarquia Bem - sábio - homem e de que todos eles são em algum nível criadores é o primeiro passo para um novo patamar de conhecimeto. Todo homem é um criador, ele é sempre artista.
sábado, 13 de agosto de 2011
Nomen est omen
Um vício nascido na distante idade média virou comum nos debates públicos atuais, me refiro ao embate fé e razão. É claro que isso é prejudicial para os dois lados. Os religiosos ficam com a marca de lunáticos que sofreram lavagem cerebral e os "servos da razão" balbuciam como criança quando lhes perguntam algo que saia do campo materialista. Alguns religiosos da idade média supunham que a razão não pode ser um meio válido para compreender a realidade porque muitas vezes ela não condizia com a interpretação deles da escrituras sagradas. Posteriormente não só clérigos mas também cientistas negaram espiritualidade à razão e esta teve seu status minorado a uma receita de bolo para laboratório.
Mas tomemos em consideração alguns fatos antes de tentar resolver essa aporia. Não existe mística sem religião e observando as sociedades a mística de cada religião começavam em um certo estágio determinado de cosmovisão. Começa-se tal qual apontei num post anterior em que o homem não sabia diferenciar muito bem o kosmos e o eu, prova disso teremos ao olhar as crianças muito pequenas em que a palavra "eu" é uma das últimas a ser de fato compreendida. Num segundo estágio o homem capta essa diferença e começa a entender do bem e do mal, nascem as leis. Paulo diz que sem a lei estaríamos sem o conhecimento do mal. Por fim a lei, que foi composta para modelar a sociedade, começa de fato a mostrar o seu espírito, ela é a norma, a régua que por fim ficou guardada na alma do homem. Como diz Agostinho, "difere estar dentro da lei e sob a lei", os místicos não estão mais coagidos a uma obediência exteriorizada da lei mas a lei está dentro deles. Há um descobrimento da alma.
Tendo isso em mente, tomemos os chamados povos politeístas sendo que, nos obscurantíssimos tempos primevos, quando outra religião vigorava: a religião familiar. Cada família tinha seu culto que era representado pelo fogo familiar que só poderia ser apagado quando toda a família perecesse. Os deuses desse culto eram os próprios antepassados, são os deuses lares ou penates em Roma ou daimonion na Grécia antiga. Eles eram enterrados na fazenda da família e quando um membro morria ele próprio se tornava deus e velava por sua famíla. Essa religião é a base ainda de muitos de nossos costumes e de nosso direito incluindo casamento, herança e até propriedade privada. Prova disso é uma antiga anedota contada na qual em um momento posterior da história Grega Zeus quer montar um templo para si em cima de um morro, contudo ele é demovido dessa idéia quando descobre que ali estão enterrados os daimonion de uma família. Encontraremos exemplo mais próximo se considerarmos que o judaísmo só nasceu propriamente com Moisés e é uma religião para um povo, antes disso era uma religião para uma família, a de Abraão e Elohim era seu Deus familiar. Ademais, muitos arqueólogos nos asseguram terem sido Abraão, Isaque e Jacó considerados como deuses penates.
A Grécia sofreu o processo da mística acima citado e bastará ler sua literatura de modo cronológico para perceber isso. Há na Grécia um processo de interiorização progressiva da lei e da descoberta da alma que tem seu ápice na filosofia e na ciência. Elas são a mística da religião pagã que sobreviveu a bancarrota desta. Mas os detratores da razão não vêem isso, acham que nasceu por geração espontânea e se maravilham ao notar que só na Grécia isso surgiu. Agora sabemos que até na mais simples fórmula lógica há um profundo substrato espiritual.
Por exemplo, na Grécia e em Roma as pessoas tinham três nomes o prenomen, nomen e agnomen. O agnomen era o nome do pai, o prenomen era o nome dado a crinça e o nomen era o nome da família ou gens. Percebam que o nome verdadeiro era o nomen, o nome de sua gens e por isso a fórmula romana nomen est omen(o nome é o presságio), pois os deuses lares cuidavam do destino de sua gens. Mas o que é definição? Não são também três nomes, ou seja, a espécie particular, o gênero e a diferença específica? Definir uma coisa é dizer de que família ela pertence e qual o seu pai e isso para qualquer coisa. Definir é dizer o nome completo de uma coisa. Agora, quando se fala em definição os que negam a espiritualidade da razão só percebem uma forma lógica vazia.
Muitos acharam que por ter bases na cultura grega a filosofia deveria ter morrido junto com ela. Mas o fato é que não morreu e aí está a prova de sua veracidade e universalidade como hoje podemos ver filósofos pelo menos no cristianismo, judaísmo e islamismo. Pode-se também dizer que o embate cristianismo e filosofia continua mas, isso não é correto. Se olharmos para gênesis 2,19 não veremos o próprio Deus mandando Adão dar nomes a todas as coisas?
Mas tomemos em consideração alguns fatos antes de tentar resolver essa aporia. Não existe mística sem religião e observando as sociedades a mística de cada religião começavam em um certo estágio determinado de cosmovisão. Começa-se tal qual apontei num post anterior em que o homem não sabia diferenciar muito bem o kosmos e o eu, prova disso teremos ao olhar as crianças muito pequenas em que a palavra "eu" é uma das últimas a ser de fato compreendida. Num segundo estágio o homem capta essa diferença e começa a entender do bem e do mal, nascem as leis. Paulo diz que sem a lei estaríamos sem o conhecimento do mal. Por fim a lei, que foi composta para modelar a sociedade, começa de fato a mostrar o seu espírito, ela é a norma, a régua que por fim ficou guardada na alma do homem. Como diz Agostinho, "difere estar dentro da lei e sob a lei", os místicos não estão mais coagidos a uma obediência exteriorizada da lei mas a lei está dentro deles. Há um descobrimento da alma.
Tendo isso em mente, tomemos os chamados povos politeístas sendo que, nos obscurantíssimos tempos primevos, quando outra religião vigorava: a religião familiar. Cada família tinha seu culto que era representado pelo fogo familiar que só poderia ser apagado quando toda a família perecesse. Os deuses desse culto eram os próprios antepassados, são os deuses lares ou penates em Roma ou daimonion na Grécia antiga. Eles eram enterrados na fazenda da família e quando um membro morria ele próprio se tornava deus e velava por sua famíla. Essa religião é a base ainda de muitos de nossos costumes e de nosso direito incluindo casamento, herança e até propriedade privada. Prova disso é uma antiga anedota contada na qual em um momento posterior da história Grega Zeus quer montar um templo para si em cima de um morro, contudo ele é demovido dessa idéia quando descobre que ali estão enterrados os daimonion de uma família. Encontraremos exemplo mais próximo se considerarmos que o judaísmo só nasceu propriamente com Moisés e é uma religião para um povo, antes disso era uma religião para uma família, a de Abraão e Elohim era seu Deus familiar. Ademais, muitos arqueólogos nos asseguram terem sido Abraão, Isaque e Jacó considerados como deuses penates.
A Grécia sofreu o processo da mística acima citado e bastará ler sua literatura de modo cronológico para perceber isso. Há na Grécia um processo de interiorização progressiva da lei e da descoberta da alma que tem seu ápice na filosofia e na ciência. Elas são a mística da religião pagã que sobreviveu a bancarrota desta. Mas os detratores da razão não vêem isso, acham que nasceu por geração espontânea e se maravilham ao notar que só na Grécia isso surgiu. Agora sabemos que até na mais simples fórmula lógica há um profundo substrato espiritual.
Por exemplo, na Grécia e em Roma as pessoas tinham três nomes o prenomen, nomen e agnomen. O agnomen era o nome do pai, o prenomen era o nome dado a crinça e o nomen era o nome da família ou gens. Percebam que o nome verdadeiro era o nomen, o nome de sua gens e por isso a fórmula romana nomen est omen(o nome é o presságio), pois os deuses lares cuidavam do destino de sua gens. Mas o que é definição? Não são também três nomes, ou seja, a espécie particular, o gênero e a diferença específica? Definir uma coisa é dizer de que família ela pertence e qual o seu pai e isso para qualquer coisa. Definir é dizer o nome completo de uma coisa. Agora, quando se fala em definição os que negam a espiritualidade da razão só percebem uma forma lógica vazia.
Muitos acharam que por ter bases na cultura grega a filosofia deveria ter morrido junto com ela. Mas o fato é que não morreu e aí está a prova de sua veracidade e universalidade como hoje podemos ver filósofos pelo menos no cristianismo, judaísmo e islamismo. Pode-se também dizer que o embate cristianismo e filosofia continua mas, isso não é correto. Se olharmos para gênesis 2,19 não veremos o próprio Deus mandando Adão dar nomes a todas as coisas?
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
Validade da biologia e o Deus de Darwin
A história da teoria da evolução desde seu ápice Darwiniano e apesar da atenção que recebe de seus admiradores e críticos não me parece ter passado por uma séria análise dialética. Pode-se mesmo dizer que a história da teoria da evolução e de um modo mais geral a questão da origem das espécies é uma luta de gigantes. São dois gigantes cegos, a nessecidade e o espontâneo.
Principio basilar da teoria da evolução é a seleção natural onde a necessidade aperfeiçoa os seres e os que não se adaptassem ao meio não sobreviveriam. Certo, se assim se explica como as espécies mudam não se explica como elas nascem. Antes mesmo de Darwin se explicou isso pela famosa tese "derivada" de Aristóteles, a geração espontânea. Nessa tese os seres, em parte, surgem a partir do "princípio ativo" em que o fator espontâneo é enfatizado e em parte por reprodução. Posteriormente se refuta essa tese e se afirma que o mecanismo de transformação das espécies era todinho a partir da adaptação das espécies ao meio e houve somente no início algo como a geração espontânea. Variações das duas teses abundam e pode-se sem erro dizer que a história da tese evolucionária pode ser contada como uma escala em que há uma variação destes dois termos sem nenhum conseguir suprimir totalmente o outro.
Agora, a necessidade em si não pode criar nada, é antes condição para que as coisas se criem. A condição é necessária não pode se confundir com a suficiente. Nenhum cientista disse que a vida teve necessariamente que surgir, ou que em um dado momento que uma espécie teve que evoluir sem mais. Antes dizem que as espécies mudam por tal ou qual variação no meio ambiente que fez uma espécie mudar ou mesmo surgirem. Para entendermos necessidade um exemplo: para um segmento de reta ser tal ele tem que, quando fizer parte de um triângulo, fazer com que a soma de seus ângulos internos seja 180 e a soma das dos quadrados 360. Isso está na definição dele? não. Agora, se isso não for verdadeiro uma reta não é uma reta ou seja é impossível exprimir todo o conjunto de necessidades mesmo de uma formiga e mesmo que para isso se gaste toda sua vida. Isso é o círculo de latência segundo Olavo de Carvalho, o conjunto de necessidades e relações de um objeto, isso é o que aristóteles chamava de necessidade.
Não se pode negar que os adeptos da geração espontânea tem em sua tese um trunfo maior do que eles mesmos crêem. Pois a evolução é geração espontânea. Ou a mudança climática que fez o pássaro mudar de bico ocorreu para que isso acontecesse? Ou o planeta primitivo teve que se adaptar para a criação da primeira ameba? Eles assumem que tudo isso ocorreu espontâneamente e que as espécies tiveram que se adaptar a isso. Agora é humanamente impossível ter em mente toda possível causa que determine uma mutação, pode ser em nível micro atômico, celular etc. E por isso tantas alterações e tantas contradições, mas isso advém da aceitação do modelo científico desde Galileu o que transforma a ciência de um conhecimento apodítico a meras opiniões.
O que é o modelo científico? pois bem, no modelo se concebe um tipo de universo fechado em que o cientista acha que pode controlar tudo. É O "plano inclinado sem atrito" ou algo no "completo vácuo". Mas ocorre que o cientista acha que controla tudo mas sempre há a chance de ele não ter todas as variáveis em mente como ocorreu no caso do Newton. Muito mais coisa entrava no modelo dele do que ele sabia como bem provou o Einstein. Mas a maior prova disso os evolucionistas dão: "Ah não! mas o Darwin não sabia da genética" ou "agora o mais razoável é a geração espontânea". Quer dizer, a ciência moderna e não somente a biologia não são explicações ou conhecimento, são meras opiniões sobre o assunto. Aqui já se vê o problema da teoria da evolução. Não é que é falsa é que não explica nada, não é ciência. Evolução é enrolação pomposa.
Explicar uma coisa é dizer de que propiedade todas as outras propriedades do ente dependem e é claro que aqui me refiro a causa mais próxima. A noção de explicação ou causa pode ser entendida em estrutura triádica que coincide com os três termos de um silogismo. O explanandum é a conclusão: a presença da propriedade A no sujeito C. Exemplifico: Todo homem é mortal; Sócrates é mortal; logo Sócrates é homem. A mortalidade de Sócrates é explicada por sua humanidade. Assim a biologia antiga e presente SEMPRE explicou assim o homem e suas caracteristicas como por exemplo a semelhança de seus ossos com as do chimpanzé é por causa de que os dois são primatas. A biologia se baseia nos sentidos? Sim. É empirica? sim. E no entanto é apodítica. Agora o sujeitinho vem explicar a semelhança do homem e chimpanzé por um ancestral comum é abaixar o nível.
Toda ciência está em um quadro metafísico determinado seja ele platônico, aristotélico, kantiano, Comteano e assim vai. Ora, quais os pressupostos metafísicos da teoria da evolução? não é uma pergunta apropriada? Vamos aplicar o método do paragrafo anterior aqui, Queremos saber a propriedade de que dependem as outras propriedades da girafa. Porque a girafa tem um longo pescoço? porque é girafa? Não. Porque em um dado momento histórico do qual "Sobrevivendo apenas os portadores da mutação que os permitiu sobreviver à adversidade natural, serão passados adiante os genes desta mutação, portanto, as gerações seguintes a carregarão." Isso para Darwin é explicar uma girafa. Quer dizer a evolução é uma evolução das propriedades. Um dia nascerá um "homo superus" que não morrera e se perguntarem a causa da sua imortalidade responderão que ele era homo sapiens e por tal razão ele virou "homo superus". Ora, as propriedades não sobrevivem sem um subjacente tal como sua cor não existiria sem seu corpo. Então Darwin supôs um subjacente que é a natureza. É SOMENTE sobre essa base metafísica que se pode entender a evoluçao como uma explicação. E por isso se percebe que mesmo após a física provar a invalidade do modelo científico os biólogos ainda acreditam na total veracidade do evolucionismo. Eles pensam isso por ter uma base metafísica diversa da dos físicos. Por fim, ouçamos da voz do próprio Darwin:
"Man can act only on external and visible characters: nature cares nothing for appearances, except in so far as they may be useful to any being. She can act on every internal organ, on every shade of constitutional difference, on the whole machinery of life. Man selects only for his own good; Nature only for that of the being which she tends. . . . It may be said that natural selection is daily and hourly scrutinizing, throughout the world, every variation, even the slightest; rejecting that which is bad, preserving and adding up all that is good; silently and insensibly working whenever and wherever opportunity offers, as the improvements of each organic being in relation to its organic and inorganic conditions of life."
Charles Darwin, On the Origin of Species (London: Murray, 1859), pp. 83-84
Mas então de que modo a biologia pode se validar? De modo algum se pode dispensar a adaptação dos seres físicos. Para que se seja ser é necessário passar pelo crivo Platônico da polaridade do Ser e isso vale para todo o ser, inclusive os físicos. O ser é produto de dois princípios e é uma síntese de unidade e multiplicidade e de determinado e indeterminado. Assim nada é algo se não é "um" algo, mas isso só acontece se ele participa da unidade e de seu oposto. Eu sou homem e a negação do não-homem, me defino pelo que sou e pelo oposto de tudo que não sou. O que é adaptação? é uma relação adequada entre os elementos de um sistema complexo de um lado, e o meio ambiente (o outro) do outro. Algo só é se suas partes constituintes permaneçam exata e estreitamente ligadas entre si e com as condições exteriores que é exatamente a idéia de justiça para Platão. Sendo que ele não aplicou isso para os seres físicos tarefa que coube ao magnânimo Aristóteles.
Mas se a evolução nos desaponta como ciência ela e a teoria do big bang são como mitos fundadores de nossa era. Não posso aqui dar uma análise cultural do caso mas a coisa se esclarece se percebemos que Darwin durante a famosíssima viagem no Beagle estava completamente absorto na leitura de Humboldt e de poetas do romantismo alemão e como para estes vigorava a máxima de Spinoza "Deus sive natura" - Deus é o mesmo que a natureza - é natural que Darwin tivesse os mesmos pensamentos. É como se cada ser, cada espécie e entidade natural fosse órgão de um só corpo e a evolução é como diversas mudanças naturais dentro da mesma idéia. No fim, para Darwin, a mudança climática ocorreu para que o bico do passarinho mudasse e as condições climáticas da terra primitiva ocorreram para a criação da vida.
Agora, a ciência e o mito esbarram em um ponto, mesmo que se trabalhasse em um modelo científico absolutamente correto a espontaneidade teria de ser explicada pois se algo ocorreu ao acaso é porque havia uma intenção original que deu origem espontaneamente a algo e também havia a condição material da natureza. Aqui descobrimos a necessidade da existência do fator escolha que em algum momento deveria girar as rodas da máquina da espontaneidade e da necessidade, uma Inteligência, uma alma do mundo como quiserem chamar. Agora, é claro que a natureza não é Deus pois, se ela é como um só ente que tende à um fim é porque ela teve um começo sendo em algum momento criada e direcionada ao fim. Mas de qualquer modo aí está o Deus de Darwin. Não tem jeito, se o querem livrar do ateísmo ele cai na idolatria da natureza.
Nota: Agradeço ao Rodrigo, este texto não existiria sem ele.
Principio basilar da teoria da evolução é a seleção natural onde a necessidade aperfeiçoa os seres e os que não se adaptassem ao meio não sobreviveriam. Certo, se assim se explica como as espécies mudam não se explica como elas nascem. Antes mesmo de Darwin se explicou isso pela famosa tese "derivada" de Aristóteles, a geração espontânea. Nessa tese os seres, em parte, surgem a partir do "princípio ativo" em que o fator espontâneo é enfatizado e em parte por reprodução. Posteriormente se refuta essa tese e se afirma que o mecanismo de transformação das espécies era todinho a partir da adaptação das espécies ao meio e houve somente no início algo como a geração espontânea. Variações das duas teses abundam e pode-se sem erro dizer que a história da tese evolucionária pode ser contada como uma escala em que há uma variação destes dois termos sem nenhum conseguir suprimir totalmente o outro.
Agora, a necessidade em si não pode criar nada, é antes condição para que as coisas se criem. A condição é necessária não pode se confundir com a suficiente. Nenhum cientista disse que a vida teve necessariamente que surgir, ou que em um dado momento que uma espécie teve que evoluir sem mais. Antes dizem que as espécies mudam por tal ou qual variação no meio ambiente que fez uma espécie mudar ou mesmo surgirem. Para entendermos necessidade um exemplo: para um segmento de reta ser tal ele tem que, quando fizer parte de um triângulo, fazer com que a soma de seus ângulos internos seja 180 e a soma das dos quadrados 360. Isso está na definição dele? não. Agora, se isso não for verdadeiro uma reta não é uma reta ou seja é impossível exprimir todo o conjunto de necessidades mesmo de uma formiga e mesmo que para isso se gaste toda sua vida. Isso é o círculo de latência segundo Olavo de Carvalho, o conjunto de necessidades e relações de um objeto, isso é o que aristóteles chamava de necessidade.
Não se pode negar que os adeptos da geração espontânea tem em sua tese um trunfo maior do que eles mesmos crêem. Pois a evolução é geração espontânea. Ou a mudança climática que fez o pássaro mudar de bico ocorreu para que isso acontecesse? Ou o planeta primitivo teve que se adaptar para a criação da primeira ameba? Eles assumem que tudo isso ocorreu espontâneamente e que as espécies tiveram que se adaptar a isso. Agora é humanamente impossível ter em mente toda possível causa que determine uma mutação, pode ser em nível micro atômico, celular etc. E por isso tantas alterações e tantas contradições, mas isso advém da aceitação do modelo científico desde Galileu o que transforma a ciência de um conhecimento apodítico a meras opiniões.
O que é o modelo científico? pois bem, no modelo se concebe um tipo de universo fechado em que o cientista acha que pode controlar tudo. É O "plano inclinado sem atrito" ou algo no "completo vácuo". Mas ocorre que o cientista acha que controla tudo mas sempre há a chance de ele não ter todas as variáveis em mente como ocorreu no caso do Newton. Muito mais coisa entrava no modelo dele do que ele sabia como bem provou o Einstein. Mas a maior prova disso os evolucionistas dão: "Ah não! mas o Darwin não sabia da genética" ou "agora o mais razoável é a geração espontânea". Quer dizer, a ciência moderna e não somente a biologia não são explicações ou conhecimento, são meras opiniões sobre o assunto. Aqui já se vê o problema da teoria da evolução. Não é que é falsa é que não explica nada, não é ciência. Evolução é enrolação pomposa.
Explicar uma coisa é dizer de que propiedade todas as outras propriedades do ente dependem e é claro que aqui me refiro a causa mais próxima. A noção de explicação ou causa pode ser entendida em estrutura triádica que coincide com os três termos de um silogismo. O explanandum é a conclusão: a presença da propriedade A no sujeito C. Exemplifico: Todo homem é mortal; Sócrates é mortal; logo Sócrates é homem. A mortalidade de Sócrates é explicada por sua humanidade. Assim a biologia antiga e presente SEMPRE explicou assim o homem e suas caracteristicas como por exemplo a semelhança de seus ossos com as do chimpanzé é por causa de que os dois são primatas. A biologia se baseia nos sentidos? Sim. É empirica? sim. E no entanto é apodítica. Agora o sujeitinho vem explicar a semelhança do homem e chimpanzé por um ancestral comum é abaixar o nível.
Toda ciência está em um quadro metafísico determinado seja ele platônico, aristotélico, kantiano, Comteano e assim vai. Ora, quais os pressupostos metafísicos da teoria da evolução? não é uma pergunta apropriada? Vamos aplicar o método do paragrafo anterior aqui, Queremos saber a propriedade de que dependem as outras propriedades da girafa. Porque a girafa tem um longo pescoço? porque é girafa? Não. Porque em um dado momento histórico do qual "Sobrevivendo apenas os portadores da mutação que os permitiu sobreviver à adversidade natural, serão passados adiante os genes desta mutação, portanto, as gerações seguintes a carregarão." Isso para Darwin é explicar uma girafa. Quer dizer a evolução é uma evolução das propriedades. Um dia nascerá um "homo superus" que não morrera e se perguntarem a causa da sua imortalidade responderão que ele era homo sapiens e por tal razão ele virou "homo superus". Ora, as propriedades não sobrevivem sem um subjacente tal como sua cor não existiria sem seu corpo. Então Darwin supôs um subjacente que é a natureza. É SOMENTE sobre essa base metafísica que se pode entender a evoluçao como uma explicação. E por isso se percebe que mesmo após a física provar a invalidade do modelo científico os biólogos ainda acreditam na total veracidade do evolucionismo. Eles pensam isso por ter uma base metafísica diversa da dos físicos. Por fim, ouçamos da voz do próprio Darwin:
"Man can act only on external and visible characters: nature cares nothing for appearances, except in so far as they may be useful to any being. She can act on every internal organ, on every shade of constitutional difference, on the whole machinery of life. Man selects only for his own good; Nature only for that of the being which she tends. . . . It may be said that natural selection is daily and hourly scrutinizing, throughout the world, every variation, even the slightest; rejecting that which is bad, preserving and adding up all that is good; silently and insensibly working whenever and wherever opportunity offers, as the improvements of each organic being in relation to its organic and inorganic conditions of life."
Charles Darwin, On the Origin of Species (London: Murray, 1859), pp. 83-84
Mas então de que modo a biologia pode se validar? De modo algum se pode dispensar a adaptação dos seres físicos. Para que se seja ser é necessário passar pelo crivo Platônico da polaridade do Ser e isso vale para todo o ser, inclusive os físicos. O ser é produto de dois princípios e é uma síntese de unidade e multiplicidade e de determinado e indeterminado. Assim nada é algo se não é "um" algo, mas isso só acontece se ele participa da unidade e de seu oposto. Eu sou homem e a negação do não-homem, me defino pelo que sou e pelo oposto de tudo que não sou. O que é adaptação? é uma relação adequada entre os elementos de um sistema complexo de um lado, e o meio ambiente (o outro) do outro. Algo só é se suas partes constituintes permaneçam exata e estreitamente ligadas entre si e com as condições exteriores que é exatamente a idéia de justiça para Platão. Sendo que ele não aplicou isso para os seres físicos tarefa que coube ao magnânimo Aristóteles.
Mas se a evolução nos desaponta como ciência ela e a teoria do big bang são como mitos fundadores de nossa era. Não posso aqui dar uma análise cultural do caso mas a coisa se esclarece se percebemos que Darwin durante a famosíssima viagem no Beagle estava completamente absorto na leitura de Humboldt e de poetas do romantismo alemão e como para estes vigorava a máxima de Spinoza "Deus sive natura" - Deus é o mesmo que a natureza - é natural que Darwin tivesse os mesmos pensamentos. É como se cada ser, cada espécie e entidade natural fosse órgão de um só corpo e a evolução é como diversas mudanças naturais dentro da mesma idéia. No fim, para Darwin, a mudança climática ocorreu para que o bico do passarinho mudasse e as condições climáticas da terra primitiva ocorreram para a criação da vida.
Agora, a ciência e o mito esbarram em um ponto, mesmo que se trabalhasse em um modelo científico absolutamente correto a espontaneidade teria de ser explicada pois se algo ocorreu ao acaso é porque havia uma intenção original que deu origem espontaneamente a algo e também havia a condição material da natureza. Aqui descobrimos a necessidade da existência do fator escolha que em algum momento deveria girar as rodas da máquina da espontaneidade e da necessidade, uma Inteligência, uma alma do mundo como quiserem chamar. Agora, é claro que a natureza não é Deus pois, se ela é como um só ente que tende à um fim é porque ela teve um começo sendo em algum momento criada e direcionada ao fim. Mas de qualquer modo aí está o Deus de Darwin. Não tem jeito, se o querem livrar do ateísmo ele cai na idolatria da natureza.
Nota: Agradeço ao Rodrigo, este texto não existiria sem ele.
terça-feira, 26 de julho de 2011
Cristianismo e Platonismo
"Cristianismo é o platonismo do povo" Nietszche
A morte na vida não é doutrina nova e nem é encarada da mesma forma. Para provar isso veremos como ela se dá em Platão, no Cristianismo e em Homero o que é suficiente para tirar o endeusamento dos pré-socráticos dos Nietszchianos e demonstrar que é uma doutrina "que em todas as parte, por todos e sempre foi conhecida".
Platão - Dada uma afecção qualquer como a morte pode-se perguntar qual sua causa e essa pode ser de dois modos por espécie e gênero ou concomitancia e gênero concomitante. Assim o homem morre porque é homem e por outro lado porque há uma ausência de alma. Portanto vida e morte podem ser medida numa escala cuja a unidade é a presença da alma no corpo e, por serem vida e morte parte da mesma escala eles não existem por si e por isso a busca da unidade da alma.
Cristianismo - Aqui a via é outra, pois poderia se pensar na individualização e que a perfeição de cada indivíduo está em si mesmo mas, tendo Jesus adquirido a perfeição não existe algo como sujeito-medida mas Jesus sendo a medida da perfeição e por isso se diz "que não mais viva mas que Cristo viva em mim". Ademais a supressão do Eu é causa do nome Cristianismo(imitadores de Cristo)
Homero - O termo que na era clássica grega significa corpo em Homero significa cadáver, e o que significa alma é em Homero sombra. Assim a divisão corpo-alma em Homero NÃO existe! o homem é designado como uma espécie de superfície que é inflada por seres infra-humanos e supra-humanos sendo a religião o cultivo da parte que em você te transcende.
Em TODOS os casos vida e morte são altamente relativizados e há a mortificação do eu pelo cultivo das coisas superiores então o Cristianismo não é um platonismo para o povo nem o platonismo um cristianismo de sábios ambos os casos são como espelhos que refletem a mesma realidade, a saber, aquilo "que em todas as parte, por todos e sempre foi conhecida". Outro exemplo é a trindade egípcia, platonico-aristotélica e cristã mas por hoje é só.
A morte na vida não é doutrina nova e nem é encarada da mesma forma. Para provar isso veremos como ela se dá em Platão, no Cristianismo e em Homero o que é suficiente para tirar o endeusamento dos pré-socráticos dos Nietszchianos e demonstrar que é uma doutrina "que em todas as parte, por todos e sempre foi conhecida".
Platão - Dada uma afecção qualquer como a morte pode-se perguntar qual sua causa e essa pode ser de dois modos por espécie e gênero ou concomitancia e gênero concomitante. Assim o homem morre porque é homem e por outro lado porque há uma ausência de alma. Portanto vida e morte podem ser medida numa escala cuja a unidade é a presença da alma no corpo e, por serem vida e morte parte da mesma escala eles não existem por si e por isso a busca da unidade da alma.
Cristianismo - Aqui a via é outra, pois poderia se pensar na individualização e que a perfeição de cada indivíduo está em si mesmo mas, tendo Jesus adquirido a perfeição não existe algo como sujeito-medida mas Jesus sendo a medida da perfeição e por isso se diz "que não mais viva mas que Cristo viva em mim". Ademais a supressão do Eu é causa do nome Cristianismo(imitadores de Cristo)
Homero - O termo que na era clássica grega significa corpo em Homero significa cadáver, e o que significa alma é em Homero sombra. Assim a divisão corpo-alma em Homero NÃO existe! o homem é designado como uma espécie de superfície que é inflada por seres infra-humanos e supra-humanos sendo a religião o cultivo da parte que em você te transcende.
Em TODOS os casos vida e morte são altamente relativizados e há a mortificação do eu pelo cultivo das coisas superiores então o Cristianismo não é um platonismo para o povo nem o platonismo um cristianismo de sábios ambos os casos são como espelhos que refletem a mesma realidade, a saber, aquilo "que em todas as parte, por todos e sempre foi conhecida". Outro exemplo é a trindade egípcia, platonico-aristotélica e cristã mas por hoje é só.
quinta-feira, 21 de julho de 2011
Notas ao livro Instabilidade Perpétua do Juliano Pessanha
Li esse livro a pedido de um amigo que me dizia que era um autor importante mas que ninguém o comentava. Então, para se aproximar de meu colega que há tempo não via e para, talvez, descobrir de fato um autor de valor.
Mas não foi bem assim. Achei o autor bastante deficiente e tentei explicar ao meu amigo não tendo-o convencido mas também não recebendo uma contestação. Mas para mim também foi uma espécie de rito iniciático. Consegui de fato aplicar os métodos de interpretação em um autor que ninguém de meu círculo filosófico conhece e que não tem a mesma linguagem que a minha.
Não se trata de rotular o autor com rótulos alheios mas, entender a "gramática profunda" de seu pensamento, isto é, traduzir a linguagem do autor para a minha e "ver como os olhos dele o que ele viu". E essa será a tônica dessa interpretação. Tecerei comentários apenas até o capítulo 2 onde se dá a parte mais pessoal do livro e com a qual tive mais trabalho. O resto do livro fala sobre a relação do autor com Kafka, Nietzsche e Heidegger que servem de campo de provas para a interpretação dos dois primeiros capítulos(a parte sobre Nieszche se encontra nesse blog sob o título Nietszche e Platão).
Pode-se argumentar ad hominem dizendo que minha linguagem e pensamento foram de certo modo moldados pelo professor Olavo de Carvalho, mas na verdade deve-se dizer o contrário, pois, se os assimilei eles agora são meus. Os que argumentam dessa forma decerto padecem do vício da busca da originalidade cujas nefastas consequencias, veremos, pesam contra o sr. Pessanha.
i- Uma pista nas idéias
O primeiro parágrafo do primeiro capítulo é interessantíssimo e talvez um resumo do livro todo. Os rodeios que ele faz para explicar o que é Idéia, que é um conceito de 2400 anos, e ainda assim ele descreve idéia de modo metafórico então pegarei duas das descrições que ele usa e traduzirei para português claro. Idéias como:
- cadáver de experiência - a idéia é algo de totalmente separado. A idéia de casa não traz nenhuma imagem a mente pois pode ser uma caverna, uma mansão, casinha de cachorro e a sua casa participando de todas e não sendo nenhuma.
-ele fala que sai de um processo, da história do foguete, fora da instabilidade perfeita e (a de melhor gosto) algo testemunhado - em suma é o princípio de estabilidade e cognoscibilidade das coisas que participam do devir.
Então, para quê tanta descrição poética para um conceito tão batido? ele mesmo diz que "desde que se conceba idéia como", mas esse é o modo clássico e normal de se concebê-la. Observações desnecessárias. E o pior, idéia é um conceito metafísico que segundo a orelha do livro não existe. Chamo atenção à isso não como lapso estilístico o que de certo não é, mas uma pista sobre o significado da obra.
ii- "Descrição topológica"
O que é chamado aqui de descrição topológica não tem nada a ver geografia, mas é uma classificação dos tipos de pessoas a partir da prevalência das partes que as compoem. Não é errada ou ilegitimo fazer isso, basicamente todo o filosofo ou literato o faz. Mas observemos o modo como nosso filósofo o faz. Há os homens do Buraco branco - legalidade metafísica, palavra anti corpo e que "vestiram o uniforme da identidade mundana e acabaram por se confundir com ele" e os do Buraco negro - crise permanente e já nasceram mortos. Os dois buracos são circunscritos por uma "linha do horizonte" e divididos por uma linha do acontecimento que está em movimento centrífugo e que mistura tudo.
Me pareceu que o que ele quis fazer é a velha distinção entre papéis sociais e liberdade individual. Há de fato aqueles que esquecem da vida e só interpretam papéis sociais. E há sempre o perigo de "ponha os pés no rio, ponha as mãos na água" para quem rejeita participar totalmente dos papéis sociais. De modo que é tudo misturado e os buracos são só "tipos extremos". O que causa estranheza é que ele coloca no mesmo saco um Platão e Medievalistas(filosofos brancos) e um cara que só sabe trabalhar. Mas, o Platão e os medievalistas foram os que abandonaram qualquer "uniforme de identidade mundana" e tem a filosofia como preparação para a morte. Esse tipo de incongruência também não é acidental mas isso depois veremos.
iii- "Capítulo 2: Equação Natal: Presença roubada."
No Capítulo 2 há um núcleo de significado que dá a chave interpretativa de todo o texto. Transcrevo-a aqui: "Se trata de um universo hipernomeado de sentido, hipersaturado de narrações. Escrevo para encontrar a primeira intensidade sem sentido do gesto inaugural. Escrevo para furar o piche do meu rosto e braços".
Grosso modo no começo ele se lamenta a falta de "arrebatamento"(se opõe ao componente de opacidade que é não se saber muito bem o que se faz. Só o sabendo posteriormente) e que ele só se lembra do logos. Então se pergunta qual causa do seu conhecimento filosófico que serve de base para suas ações? em suma, como foi que chegou nesse momento da vida?
E é aí que entra o buraco negro. Ele é tudo o que foi assimilado por ele fora de uma tradição. E por isso que um workaholic e Platão estão no mesmo saco. E assim ele chama o buraco branco de cascalho porque é o que se amontuou pela tradição.
iv- O caso do carangueijo
O caso do caranguejo é fundamental porque ele mostra o trauma do autor. Então ele lembra de que quando uma criança tem o thambos(espanto que dá origem ao conhecimento) ela divide esse momento com o pai e se ele não retorna ela é danificada para sempre(como sempre a culpa é dos pais). Mas, segundo ele mesmo diz, não tem nada de psicologia. Então só pode representar uma coisa: o desejo de criar uma cultura totalmente nova sozinho. Só isso justifica ele ter se achado danificado irremediavelmente, pois seus pais lhe imporam uma cultura totalmente "anatural". Até o caso é significativo, as primeiras sociedades também imitavam animais.
É claro que isso é uma imbecilidade, porém imbecilidade endêmica pois tem se repetido alarmantemente em exemplos como o de Nietzsche, Descartes, Newton etc. Ademais, fica claro também as consequências desse tipo de atitude que é fazer o recorte da realidade e excluir todo o resto(nihilismo para Nietzsche, tradição vazia para Descartes e Irracionalismo para Newton) que seria o cascalho, o piche e o cimento(ele não inventou o trabalho, as instituições culturais ou a filosofia e por isso é tudo cascalho).
v- Homens arquétípicos
Pessanha divide os homens em três arquétípicos que são 1- o super-homem(no vocabulário de Nietzsche e Robson Crusoé no meu)- inventava livremente seus próprios valores, altivamente pisoteando a “verdade”, o “bem”, a “humanidade” ou o que quer que tivesse o desplante de atravessar o seu caminho; 2- O habitante do mundo que aceitava a cultura sem questionar, reduzido à obediência rotineira e ao “espírito de rebanho” e; 3- Habitantes do Buraco negro que se questionam da cultura, como o pequeno deus de um microcosmo autônomo reinventando a roda.
vi- Conclusão
Agora, eu não preciso nem falar que isso é uma baboseira fora do comum. Como ele esperava aprender a andar, falar e pensar? pois, isso é o que se tira se levarmos ao extremo a tese. Ninguém é o Robson Crusoé. Há o modelo do Piaget da criança sozinha que consegue descobrir tudo e que há o mundo e a criança é falso e falhou como técnica educacional. Há o mundo, a criança e o professor que faz a ponte e representa a tradição. Ademais, o mundo é o mundo. Não importa quão distante se esteja do começo, a não ser que você seja Adão. Então todo mundo, exceto Deus, age no componente de opacidade. Qual o caminho certo já testado e percorrido? Se apreende a tradição e depois, só depois, se transcende a tradição. Agora vocês percebem porque ele teve que reexplicar conceitos tão antigos como idéia e dar nomes novos ao que já existe.
Mas falar é fácil para mim, já fazer... Explico. Quando uma cultura nasce, ela se desenvolve por meios próprios. Acontece que chega um ponto que tem tanta coisa que os indivíduos não conseguem mais apreender. Assim foi na europa medieval. tinha tanto livro, tanta coisa pra aprender que o pessoal desistia. Assim está ocorrendo em nossa cultura e é disso que ele reclama. Eu apostei que chegava até o final, ele, que não.
Mas não foi bem assim. Achei o autor bastante deficiente e tentei explicar ao meu amigo não tendo-o convencido mas também não recebendo uma contestação. Mas para mim também foi uma espécie de rito iniciático. Consegui de fato aplicar os métodos de interpretação em um autor que ninguém de meu círculo filosófico conhece e que não tem a mesma linguagem que a minha.
Não se trata de rotular o autor com rótulos alheios mas, entender a "gramática profunda" de seu pensamento, isto é, traduzir a linguagem do autor para a minha e "ver como os olhos dele o que ele viu". E essa será a tônica dessa interpretação. Tecerei comentários apenas até o capítulo 2 onde se dá a parte mais pessoal do livro e com a qual tive mais trabalho. O resto do livro fala sobre a relação do autor com Kafka, Nietzsche e Heidegger que servem de campo de provas para a interpretação dos dois primeiros capítulos(a parte sobre Nieszche se encontra nesse blog sob o título Nietszche e Platão).
Pode-se argumentar ad hominem dizendo que minha linguagem e pensamento foram de certo modo moldados pelo professor Olavo de Carvalho, mas na verdade deve-se dizer o contrário, pois, se os assimilei eles agora são meus. Os que argumentam dessa forma decerto padecem do vício da busca da originalidade cujas nefastas consequencias, veremos, pesam contra o sr. Pessanha.
i- Uma pista nas idéias
O primeiro parágrafo do primeiro capítulo é interessantíssimo e talvez um resumo do livro todo. Os rodeios que ele faz para explicar o que é Idéia, que é um conceito de 2400 anos, e ainda assim ele descreve idéia de modo metafórico então pegarei duas das descrições que ele usa e traduzirei para português claro. Idéias como:
- cadáver de experiência - a idéia é algo de totalmente separado. A idéia de casa não traz nenhuma imagem a mente pois pode ser uma caverna, uma mansão, casinha de cachorro e a sua casa participando de todas e não sendo nenhuma.
-ele fala que sai de um processo, da história do foguete, fora da instabilidade perfeita e (a de melhor gosto) algo testemunhado - em suma é o princípio de estabilidade e cognoscibilidade das coisas que participam do devir.
Então, para quê tanta descrição poética para um conceito tão batido? ele mesmo diz que "desde que se conceba idéia como", mas esse é o modo clássico e normal de se concebê-la. Observações desnecessárias. E o pior, idéia é um conceito metafísico que segundo a orelha do livro não existe. Chamo atenção à isso não como lapso estilístico o que de certo não é, mas uma pista sobre o significado da obra.
ii- "Descrição topológica"
O que é chamado aqui de descrição topológica não tem nada a ver geografia, mas é uma classificação dos tipos de pessoas a partir da prevalência das partes que as compoem. Não é errada ou ilegitimo fazer isso, basicamente todo o filosofo ou literato o faz. Mas observemos o modo como nosso filósofo o faz. Há os homens do Buraco branco - legalidade metafísica, palavra anti corpo e que "vestiram o uniforme da identidade mundana e acabaram por se confundir com ele" e os do Buraco negro - crise permanente e já nasceram mortos. Os dois buracos são circunscritos por uma "linha do horizonte" e divididos por uma linha do acontecimento que está em movimento centrífugo e que mistura tudo.
Me pareceu que o que ele quis fazer é a velha distinção entre papéis sociais e liberdade individual. Há de fato aqueles que esquecem da vida e só interpretam papéis sociais. E há sempre o perigo de "ponha os pés no rio, ponha as mãos na água" para quem rejeita participar totalmente dos papéis sociais. De modo que é tudo misturado e os buracos são só "tipos extremos". O que causa estranheza é que ele coloca no mesmo saco um Platão e Medievalistas(filosofos brancos) e um cara que só sabe trabalhar. Mas, o Platão e os medievalistas foram os que abandonaram qualquer "uniforme de identidade mundana" e tem a filosofia como preparação para a morte. Esse tipo de incongruência também não é acidental mas isso depois veremos.
iii- "Capítulo 2: Equação Natal: Presença roubada."
No Capítulo 2 há um núcleo de significado que dá a chave interpretativa de todo o texto. Transcrevo-a aqui: "Se trata de um universo hipernomeado de sentido, hipersaturado de narrações. Escrevo para encontrar a primeira intensidade sem sentido do gesto inaugural. Escrevo para furar o piche do meu rosto e braços".
Grosso modo no começo ele se lamenta a falta de "arrebatamento"(se opõe ao componente de opacidade que é não se saber muito bem o que se faz. Só o sabendo posteriormente) e que ele só se lembra do logos. Então se pergunta qual causa do seu conhecimento filosófico que serve de base para suas ações? em suma, como foi que chegou nesse momento da vida?
E é aí que entra o buraco negro. Ele é tudo o que foi assimilado por ele fora de uma tradição. E por isso que um workaholic e Platão estão no mesmo saco. E assim ele chama o buraco branco de cascalho porque é o que se amontuou pela tradição.
iv- O caso do carangueijo
O caso do caranguejo é fundamental porque ele mostra o trauma do autor. Então ele lembra de que quando uma criança tem o thambos(espanto que dá origem ao conhecimento) ela divide esse momento com o pai e se ele não retorna ela é danificada para sempre(como sempre a culpa é dos pais). Mas, segundo ele mesmo diz, não tem nada de psicologia. Então só pode representar uma coisa: o desejo de criar uma cultura totalmente nova sozinho. Só isso justifica ele ter se achado danificado irremediavelmente, pois seus pais lhe imporam uma cultura totalmente "anatural". Até o caso é significativo, as primeiras sociedades também imitavam animais.
É claro que isso é uma imbecilidade, porém imbecilidade endêmica pois tem se repetido alarmantemente em exemplos como o de Nietzsche, Descartes, Newton etc. Ademais, fica claro também as consequências desse tipo de atitude que é fazer o recorte da realidade e excluir todo o resto(nihilismo para Nietzsche, tradição vazia para Descartes e Irracionalismo para Newton) que seria o cascalho, o piche e o cimento(ele não inventou o trabalho, as instituições culturais ou a filosofia e por isso é tudo cascalho).
v- Homens arquétípicos
Pessanha divide os homens em três arquétípicos que são 1- o super-homem(no vocabulário de Nietzsche e Robson Crusoé no meu)- inventava livremente seus próprios valores, altivamente pisoteando a “verdade”, o “bem”, a “humanidade” ou o que quer que tivesse o desplante de atravessar o seu caminho; 2- O habitante do mundo que aceitava a cultura sem questionar, reduzido à obediência rotineira e ao “espírito de rebanho” e; 3- Habitantes do Buraco negro que se questionam da cultura, como o pequeno deus de um microcosmo autônomo reinventando a roda.
vi- Conclusão
Agora, eu não preciso nem falar que isso é uma baboseira fora do comum. Como ele esperava aprender a andar, falar e pensar? pois, isso é o que se tira se levarmos ao extremo a tese. Ninguém é o Robson Crusoé. Há o modelo do Piaget da criança sozinha que consegue descobrir tudo e que há o mundo e a criança é falso e falhou como técnica educacional. Há o mundo, a criança e o professor que faz a ponte e representa a tradição. Ademais, o mundo é o mundo. Não importa quão distante se esteja do começo, a não ser que você seja Adão. Então todo mundo, exceto Deus, age no componente de opacidade. Qual o caminho certo já testado e percorrido? Se apreende a tradição e depois, só depois, se transcende a tradição. Agora vocês percebem porque ele teve que reexplicar conceitos tão antigos como idéia e dar nomes novos ao que já existe.
Mas falar é fácil para mim, já fazer... Explico. Quando uma cultura nasce, ela se desenvolve por meios próprios. Acontece que chega um ponto que tem tanta coisa que os indivíduos não conseguem mais apreender. Assim foi na europa medieval. tinha tanto livro, tanta coisa pra aprender que o pessoal desistia. Assim está ocorrendo em nossa cultura e é disso que ele reclama. Eu apostei que chegava até o final, ele, que não.
quarta-feira, 20 de julho de 2011
terça-feira, 19 de julho de 2011
Imanetizar a transcendência
Esse texto é uma crítica ao texto de Delfim Santos "Sobre a ambiguidade na metafísica"
Quem é Delfim Santos: http://pt.wikipedia.org/wiki/Delfim_Santos
O texto: http://www.filosofia.org/aut/003/m49a0840.pdf
Prometi não mais escrever textos grandes quando estivesse no navio, é cansativo. Mas esse deve valer a pena porque, em muito, me parece ser um exemplo da imanetização da transcendência.
É bem verdade que concordo com a tese da ambíguidade da metafísica. Toda teoria dos princípios supremos de Platão e Aristóteles são mitos e Platão não julgava-se digno de escrever sobre ela é porque de fato, não é como um sistema lógico que o sujeito tem que admitir a veracidade. Ademais, essas doutrinas são muito semelhantes ao mito cosmogônico de Hesíodo e a teologia esquiliana. Então iria mais longe ao dizer que não se trata de uma ambiguidade(2 sentidos) mas algo de múltiplos sentidos e, para quem crê na total logicidade da filosofia Aristóteles diz que o filomito é de certo modo um filósofo.
Mas não é em vão que o autor usa a palavra ambíguo, como quem leu percebeu. Antes ele fala de um duplo movimento da metafísica. Aqui, minha linguagem ainda presa com os antigos bate com a dele que fala de duas correntes de pensamento moderno. Assim, me parece forçoso fazer uma crítica ao pensamento dessas duas correntes. Quem leu o post Filosofia X Metafísica há de compreender que estas tem dois objetos de estudo diferentes, portanto sendo dois gêneros de conhecimento diferentes. O objeto metafísico é o resultado de uma ascenção e descobrimento da alma e da experiência do "É!". Então o fica o ridículo do idealismo que pressupõe que qualquer um nasça com tais dotes. Na verdade eles(materialistas e idealistas) se perguntam como um homem comum reconhece algo e supõe que seja pela idéia. Mas isso não é verdade, eles só tem acesso a suas afecções e com isso criam opiniões(doxa). Mas as afecções tendem a mudar, a vir a ser, o que gera uma inadequação das opiniões e das sensações e por isso o realista sempre tem que apelar ao idealista como bem viu o autor do texto.
Outra confusão terrível aqui é entre realismo, real, e sensível. Realista é o sujeito que diz serem os sensíveis o Ser por excelência. Real vem do latim "res, ei" que quer dizer coisa, isto é, individualidade, mistura entre forma e matéria e, assim concretude. Mas será contra-histórico e, na verdade estúpido, julgar as idéias como unicamente forma, pois, por serem muitas e portanto pluras servem de matéria para o Uno. Por outro lado elas são compostas de forma e matéria, isto é, Uno e os contrários que elas analogam e, portanto, são unidades e coisas.
Logo, percebe-se a verdade de que "tudo que é pelo pensamento é", pois isso se refere ao mundo do "É!", a metafísica, de outro modo se negaria existencia as idéia que, como vimos é absurdo. Esse é o principal erro do autor, achar que só há existencia e individualidade nos sensíveis. Quando fala da polarização da metafísica em pensamento e existência ele não sabe o que esta falando, ele está imanetizando o transcendente. A metafísica é o discursso que articula o transcendente na inteligência. Assim, como falou Aristóteles, a inteligência não precisa de objeto físico externo. "O homem fala com palavras mas Deus fala com palavras e coisas" o filósofo vai descobrindo a Lei que rege o microcosmo da alma e vendo que "tal como é em cima é embaixo" e percebe porque "Deus criou o homem a sua imagem e semelhança" e que tudo que existe são "pensamentos de Deus".
Quem é Delfim Santos: http://pt.wikipedia.org/wiki/Delfim_Santos
O texto: http://www.filosofia.org/aut/003/m49a0840.pdf
Prometi não mais escrever textos grandes quando estivesse no navio, é cansativo. Mas esse deve valer a pena porque, em muito, me parece ser um exemplo da imanetização da transcendência.
É bem verdade que concordo com a tese da ambíguidade da metafísica. Toda teoria dos princípios supremos de Platão e Aristóteles são mitos e Platão não julgava-se digno de escrever sobre ela é porque de fato, não é como um sistema lógico que o sujeito tem que admitir a veracidade. Ademais, essas doutrinas são muito semelhantes ao mito cosmogônico de Hesíodo e a teologia esquiliana. Então iria mais longe ao dizer que não se trata de uma ambiguidade(2 sentidos) mas algo de múltiplos sentidos e, para quem crê na total logicidade da filosofia Aristóteles diz que o filomito é de certo modo um filósofo.
Mas não é em vão que o autor usa a palavra ambíguo, como quem leu percebeu. Antes ele fala de um duplo movimento da metafísica. Aqui, minha linguagem ainda presa com os antigos bate com a dele que fala de duas correntes de pensamento moderno. Assim, me parece forçoso fazer uma crítica ao pensamento dessas duas correntes. Quem leu o post Filosofia X Metafísica há de compreender que estas tem dois objetos de estudo diferentes, portanto sendo dois gêneros de conhecimento diferentes. O objeto metafísico é o resultado de uma ascenção e descobrimento da alma e da experiência do "É!". Então o fica o ridículo do idealismo que pressupõe que qualquer um nasça com tais dotes. Na verdade eles(materialistas e idealistas) se perguntam como um homem comum reconhece algo e supõe que seja pela idéia. Mas isso não é verdade, eles só tem acesso a suas afecções e com isso criam opiniões(doxa). Mas as afecções tendem a mudar, a vir a ser, o que gera uma inadequação das opiniões e das sensações e por isso o realista sempre tem que apelar ao idealista como bem viu o autor do texto.
Outra confusão terrível aqui é entre realismo, real, e sensível. Realista é o sujeito que diz serem os sensíveis o Ser por excelência. Real vem do latim "res, ei" que quer dizer coisa, isto é, individualidade, mistura entre forma e matéria e, assim concretude. Mas será contra-histórico e, na verdade estúpido, julgar as idéias como unicamente forma, pois, por serem muitas e portanto pluras servem de matéria para o Uno. Por outro lado elas são compostas de forma e matéria, isto é, Uno e os contrários que elas analogam e, portanto, são unidades e coisas.
Logo, percebe-se a verdade de que "tudo que é pelo pensamento é", pois isso se refere ao mundo do "É!", a metafísica, de outro modo se negaria existencia as idéia que, como vimos é absurdo. Esse é o principal erro do autor, achar que só há existencia e individualidade nos sensíveis. Quando fala da polarização da metafísica em pensamento e existência ele não sabe o que esta falando, ele está imanetizando o transcendente. A metafísica é o discursso que articula o transcendente na inteligência. Assim, como falou Aristóteles, a inteligência não precisa de objeto físico externo. "O homem fala com palavras mas Deus fala com palavras e coisas" o filósofo vai descobrindo a Lei que rege o microcosmo da alma e vendo que "tal como é em cima é embaixo" e percebe porque "Deus criou o homem a sua imagem e semelhança" e que tudo que existe são "pensamentos de Deus".
Problema da forma e matéria
Meu objetivo aqui não é dar uma explanação sobre a metafísica platônica, pois seria descabido e nem tenho forças para isso. Aqui tentarei justificar a posição da ambíguidade entre matéria e sínolo em Aristóteles. É matéria complexa e posso cair em muitas contradições principalmente agora que estou sem meus livros(puta saudade do voegelin!). Esse é um campo de polêmica milenar e parece mesmo haver algo estranho, copio aqui o Angioni: "Não há consenso sobre os resultados da argumentação pela qual Aristóteles pretende resolver o problema[se forma ou subjacente é substância], e, na verdade, nem sequer há consenso de que é realmente esse problema que Aristóteles formula". Assim, para desconfundir o meio de campo, dividirei esse estudo em três tópicos: Teoria dos princípios platônica acompanhada de leitura do capítulo 7 livro I da física de Aristóteles e uma análise do argumento do terceiro homem Aristotélico.
i- Protologia Platônico-Aristotélica
Um ponto importante é que eu não vou falar sobre a teoria das idéias. Sim, é uma merda... mas, for the sake of the agument, deixo pruma próxima e o mesmo vale pros números idéais (embora só tenha compreendido uma parte deles). Então eu tô cortando MUITA coisa.
Depois de descobertas as idéias que representavam a unidade na multiplicidade e que englobavam varios seres houve o problema de que as idéias por sua vez eram muitas e que, portanto plurais. Logo, as idéias não eram o topo da metafísica platônica sendo necessários os princípios. Para Platão dois eram os princípios: o Uno supremo que é o princípio de determinação formal e a Díade indeterminada de Grande-e-pequeno, que é princípio de variabilidade indefinida. Uma coisa que temos SEMPRE QUE LEMBRAR é que os princípios NÃO SÃO algo que deram o primeiro movimento no universo e depois desapareceram, ou não acontecem mais. Eles são atemporais e como Deus na Bíblia é por eles que "nós vivemos, nos movemos e somos". Eles foram e são a causa de tudo e princípio de qualquer causalidade como veremos na parte de Aristóteles.
O Uno é o princípio limitador e limitante, a díade é "estrtural desigualdade" e engloba infinita grandeza e pequenez, sendo princípio da indeterminação. Os dois são igualmente originários, mas seria incorreto falar de dois princípios. Na verdade, é claro que um é forma e o outro é potência e por isso se exigem mutualmente e geram o Ser que é uma síntese de unidade e multiplicidade. Citando Reale: "Nada é algo se não é UM algo. Mas ele só pode participar da unidade porque ao mesmo tempo participa do princípio oposto da multiplicidade ilimitada e, por isso, é outro em relação a própira unidade. O Ser é, por isso unidade na multiplicidade".
Dito isso, vejamos como a coisa se dá na Física de Aristóteles. Começando a partir do livro I capitulo 6 do Física veremos a investigação sobre os princípios. Ele adimite no livro 5 que os contrários devem ser feitos princípios. No livro 6 há a divagação sobre o número de princípios, se seriam dois ou três. A questão fica inconclusa mas fica a necessidade de INCLUIR AOS CONTRÁRIOS UM SUBJACENTE. A questão só terá solução no livro 7. O dito subjacente àquilo que vêm a ser "mesmo que seja um em número é dois pela forma" enquanto o uno é um em forma. Fica claro, portanto, que tanto em Platão como Aristóteles há essa tríade. Para Platão a díade grande-e-pequeno seria para Aristóteles os contrários(em letra maiúscula), o Ser é o aristotélico subjacente(composto de forma e matéria) e O Uno seria a Forma. Mais uma vez tenho que lembrar que isto vale para todas as coisa que vem a ser e portanto princípio de TODA A CAUSALIDADE não importa quão pequena e atual.
Aqui entra a ambibuidade do subjacente e da matéria, pois às vezes significam o Ser e às vezes a Díade. Creio que quando se trata de mutações substanciais se use matéria como Díade e mutações de propriedades se use matéria como subjacente. Mas não tenho certeza...
ii- Argumento do "terceiro homem"
Um dos grandes argumentos Aristotélicos contra a teoria das idéias platônicas é o famoso argumento do "terceiro homem", isto é, considerando a idéia de homem e o homem concreto seria preciso algo que os intermediasse, o terceiro homem. Mas daí a necessidade de intermediar o homem-idéia com o terceiro homem e o terceiro homem com o concreto e assim surgiria uma corrente infinda de homens o que tornaria o conceito de homem initeligível.
Mas será mesmo assim? Examinemos os modos de significação dos conceitos, Eles podem ser:
- unívocos: aplicado a vários seres com mesma significação;
- equívocos: aplicado a vários seres com significação completamnente diferente;
- análogos: aplicado a coisas diversas com acepções nem identicas nem totalmente diferentes.
Ora, os conceitos não são totalmente diversos de seus respectivos concretos, nem são um só com eles. São portanto análogos. De fato, nenhuma realidade é totalmente diferente do mundo de nossa existência pelo fato de que em tudo há algo de Deus e, no entanto, as realidades metafísicas diferem dos fatos da experiência. A unicidade nos leva a um monismo, a equivocidade supõe um dualismo ou um pluralismo. Só a analogia pode assegurar pluralidade na unidade.
A parte, como ser, é análoga ao todo e, é necessário que haja comparação para que possa se empregar a analogia. A analogia é uma relação que se dá pelo o esquema do espírito e o do mundo real-físico, por meio de comparações entre uma idéia e um fato real ou entre idéias.
Fica assim desnecessária a suposição de uma "teoria do terceiro homem" e afirmada mais uma vez a validade da teoria das idéias platônicas.
i- Protologia Platônico-Aristotélica
Um ponto importante é que eu não vou falar sobre a teoria das idéias. Sim, é uma merda... mas, for the sake of the agument, deixo pruma próxima e o mesmo vale pros números idéais (embora só tenha compreendido uma parte deles). Então eu tô cortando MUITA coisa.
Depois de descobertas as idéias que representavam a unidade na multiplicidade e que englobavam varios seres houve o problema de que as idéias por sua vez eram muitas e que, portanto plurais. Logo, as idéias não eram o topo da metafísica platônica sendo necessários os princípios. Para Platão dois eram os princípios: o Uno supremo que é o princípio de determinação formal e a Díade indeterminada de Grande-e-pequeno, que é princípio de variabilidade indefinida. Uma coisa que temos SEMPRE QUE LEMBRAR é que os princípios NÃO SÃO algo que deram o primeiro movimento no universo e depois desapareceram, ou não acontecem mais. Eles são atemporais e como Deus na Bíblia é por eles que "nós vivemos, nos movemos e somos". Eles foram e são a causa de tudo e princípio de qualquer causalidade como veremos na parte de Aristóteles.
O Uno é o princípio limitador e limitante, a díade é "estrtural desigualdade" e engloba infinita grandeza e pequenez, sendo princípio da indeterminação. Os dois são igualmente originários, mas seria incorreto falar de dois princípios. Na verdade, é claro que um é forma e o outro é potência e por isso se exigem mutualmente e geram o Ser que é uma síntese de unidade e multiplicidade. Citando Reale: "Nada é algo se não é UM algo. Mas ele só pode participar da unidade porque ao mesmo tempo participa do princípio oposto da multiplicidade ilimitada e, por isso, é outro em relação a própira unidade. O Ser é, por isso unidade na multiplicidade".
Dito isso, vejamos como a coisa se dá na Física de Aristóteles. Começando a partir do livro I capitulo 6 do Física veremos a investigação sobre os princípios. Ele adimite no livro 5 que os contrários devem ser feitos princípios. No livro 6 há a divagação sobre o número de princípios, se seriam dois ou três. A questão fica inconclusa mas fica a necessidade de INCLUIR AOS CONTRÁRIOS UM SUBJACENTE. A questão só terá solução no livro 7. O dito subjacente àquilo que vêm a ser "mesmo que seja um em número é dois pela forma" enquanto o uno é um em forma. Fica claro, portanto, que tanto em Platão como Aristóteles há essa tríade. Para Platão a díade grande-e-pequeno seria para Aristóteles os contrários(em letra maiúscula), o Ser é o aristotélico subjacente(composto de forma e matéria) e O Uno seria a Forma. Mais uma vez tenho que lembrar que isto vale para todas as coisa que vem a ser e portanto princípio de TODA A CAUSALIDADE não importa quão pequena e atual.
Aqui entra a ambibuidade do subjacente e da matéria, pois às vezes significam o Ser e às vezes a Díade. Creio que quando se trata de mutações substanciais se use matéria como Díade e mutações de propriedades se use matéria como subjacente. Mas não tenho certeza...
ii- Argumento do "terceiro homem"
Um dos grandes argumentos Aristotélicos contra a teoria das idéias platônicas é o famoso argumento do "terceiro homem", isto é, considerando a idéia de homem e o homem concreto seria preciso algo que os intermediasse, o terceiro homem. Mas daí a necessidade de intermediar o homem-idéia com o terceiro homem e o terceiro homem com o concreto e assim surgiria uma corrente infinda de homens o que tornaria o conceito de homem initeligível.
Mas será mesmo assim? Examinemos os modos de significação dos conceitos, Eles podem ser:
- unívocos: aplicado a vários seres com mesma significação;
- equívocos: aplicado a vários seres com significação completamnente diferente;
- análogos: aplicado a coisas diversas com acepções nem identicas nem totalmente diferentes.
Ora, os conceitos não são totalmente diversos de seus respectivos concretos, nem são um só com eles. São portanto análogos. De fato, nenhuma realidade é totalmente diferente do mundo de nossa existência pelo fato de que em tudo há algo de Deus e, no entanto, as realidades metafísicas diferem dos fatos da experiência. A unicidade nos leva a um monismo, a equivocidade supõe um dualismo ou um pluralismo. Só a analogia pode assegurar pluralidade na unidade.
A parte, como ser, é análoga ao todo e, é necessário que haja comparação para que possa se empregar a analogia. A analogia é uma relação que se dá pelo o esquema do espírito e o do mundo real-físico, por meio de comparações entre uma idéia e um fato real ou entre idéias.
Fica assim desnecessária a suposição de uma "teoria do terceiro homem" e afirmada mais uma vez a validade da teoria das idéias platônicas.
Metafísica X Filosofia
No início das civilizações, o homem era um animal acuado. Hoje podemos contemplar a beleza e até o idílico em uma tempestade, mas no passado os fenomenos naturais causavam medo e terror. Contudo, homens apareceram que conseguiram superar esse medo e contemplar a natureza, eles criaram a civilização. As civilizações primevas foram o reflexo do cosmos.
Nessas civilizações a pergunta sobre a causa das mutações do cosmo estava presente, mas foi na Grécia que essa pergunta foi constituida um fim em si mesma. Outra novidade foi que o caráter mítico foi posto de lado (embora ele se apresente sempre). Estava constituida a filosofia. Cabe aqui fazer a observação de que os filosofos não eram tão diferentes dos sacerdotes de outras civilizações, eram uma espécie de escola mística.
Outro movimento, porém, se formou, paralelo a esse, na Grécia: a poesia lírica. Uma constante na estonteante variedade de poetas desse genero era a confrontação da verdade da pólis com uma verdade deles(virtude). Diferentemente dos filosofos e sacerdotes eles não escreviam sobre a natureza mas sobre algo mais próximo do homem comum, i.e., as coisas humanas, as virtudes. Cada um desses poetas descobria uma virtude e a comparavam com a da pólis sendo a verdade a virtude louvada e a mentira o costume(nomos) da pólis.
Mas se cada um proclama uma virtude e cada uma delas era "a verdade" qual virtude seria a verdadeira? Ficou claro que essas virtudes eram diversas faces do mesmo fenomeno: a transcendência. E aqui entra Parmênides, ele em suas observações não usava os sentidos nem queria saber da causa da mutação do cosmos. Seu objeto de estudo é a transcendência a qual, pela primeira vez, foi chamada de Ser.
No poema de Parmênides fica claro que se trata de uma escola mística em plena acepção. O transporte místico feito por cavalos, a deusa inominada, os três caminhos, as musas e a viagem da Noite para a Luz não podem ser encarados de como um recurso literário. Era de fato uma escola mística que culminava com a EXPERIÊNCIA do "É!". Muitos tradudores se enganam ao traduzir "algo é" e mesmo a expressão o "Ser É" parece errônea. É não tem sujeito porque não é nem uma idéia. É uma experiência mística.
Nasceu a metafísica com parmênides e se dividiam aí o que nós chamamos de filosofia. Filosofia dos naturalistas corresponde a física aristotélica e tem como objeto a mutação do cosmos e Metafísica de Parmênides tem como objeto uma experiencia mística. Os erros que emanam dessa distinção estão em todo o lugar principalmente quando parmênides diz que pensamento e ser são o mesmo. Ora, na metafísica e considerando o É! isso é verdade(idéia=imagem; então tudo que se pode criar uma imagem e pensar existe como idéia), de outro modo, considerando a filosofia imanetista isso é dizer que verdade=mentira e que tudo que se pensa existe de modo concreto. A imanetização da transcendência foi erro que ditou a filosofia dos eleáticos posteriores, Protágoras, Demócrito e a lista não caba mais...
Fica claramente distinguidas seis tipos aqui: 1- homem comum; 2-sacerdotes cosmológicos; 3-filósofos da physis; 4-poetas líricos; 5-Parmênides; 6- discípulos de Parmênides que imanetizaram o transcendente. Excluíremos os tipos 2(por não usarem o logos como base da investigação), 4(por serem partes desconexas do fenômeno metafísico) e 6(por não interessar na discussão). Sobre o homem comum pode-se dizer que os eventos cotidianos forjaram a linguagem comum e que seu mundo é o da sociedade humana. Os primeiros filósofos se apropriaram dessa linguagem e fizerm emergir teoreticamente e levaram a um nível metodológico. Com efeito, obtiveram algum resultado e a eles devemos irrupções de sabedoria como o "semelhante atrai semelhante" entre outras; contudo, o método para descobrir o princípio do movimento com base nos sentidos simplismente não se acoplava com a linguagem o que inelutavelmente levou a uma aporia. Platão chegou a dizer que esse método escureceu-lhes a alma e Aristóteles, embora mais brando, observou o mesmo fenômeno. Parmênides é claro alcançou melhor resultado porém ficou só na contemplação do "É!" e não conseguiu construir sobre ele um discurso muito bom de modo que sua descrição, embora arrebatadora, não conseguiu impedir o descarrilamento de seus discípulos gerando o tipo 6.
Uma ascenção à metafísica paralela a Parmenidiana se deu com Sócrates por meios pouco usuais. Filho de parteira, desde pequeno teve contato com a arte médica e mesmo homem se preocupava antes do começo de suas discussões com a saúde do interlocutor. Foi essa arte(medicina) que, por analogia, fez o "turning point" da metafísica. Houve aí a redução do macrocosmo do universo para o microcosmo do homem e daí para a alma. Sócrates agora era o médico da alma cuja regra era o "conhece-te a ti mesmo". O próprio Platão reconhece que "nunca escrevi nada, antes quem o fez foi Sócrates remoçado" e assim ele parte para sua "segunda navegação", ou seja, se quisermos conhecer o macrocosmo do universo teremos que conhecer o microcosmo da alma.
Tipo usual de critica ao Platão é a de que ele fosse dualista. Nada mais falso. Se se compreendeu o texto até aqui perceberá que são dois objetos de estudo e dois gêneros de conhecimento que de algum modo se conectam mas nem por isso devem ser confundidos gerando o erro da imanetização da transcendencia ou o da transcendização da imanencia. Outra é a do idealismo platônico, desde Parmênides demostramos que é uma espécie de via mística e de um ethos, de certo ponto todo humano tem acesso pois é uma possibilidade humana como qualquer outra, mas se defendeu o idealismo como se já se nascesse com essa via mística o que é algo ridículo, apeirokalia não tem conhecimento, só opinião.
Nessas civilizações a pergunta sobre a causa das mutações do cosmo estava presente, mas foi na Grécia que essa pergunta foi constituida um fim em si mesma. Outra novidade foi que o caráter mítico foi posto de lado (embora ele se apresente sempre). Estava constituida a filosofia. Cabe aqui fazer a observação de que os filosofos não eram tão diferentes dos sacerdotes de outras civilizações, eram uma espécie de escola mística.
Outro movimento, porém, se formou, paralelo a esse, na Grécia: a poesia lírica. Uma constante na estonteante variedade de poetas desse genero era a confrontação da verdade da pólis com uma verdade deles(virtude). Diferentemente dos filosofos e sacerdotes eles não escreviam sobre a natureza mas sobre algo mais próximo do homem comum, i.e., as coisas humanas, as virtudes. Cada um desses poetas descobria uma virtude e a comparavam com a da pólis sendo a verdade a virtude louvada e a mentira o costume(nomos) da pólis.
Mas se cada um proclama uma virtude e cada uma delas era "a verdade" qual virtude seria a verdadeira? Ficou claro que essas virtudes eram diversas faces do mesmo fenomeno: a transcendência. E aqui entra Parmênides, ele em suas observações não usava os sentidos nem queria saber da causa da mutação do cosmos. Seu objeto de estudo é a transcendência a qual, pela primeira vez, foi chamada de Ser.
No poema de Parmênides fica claro que se trata de uma escola mística em plena acepção. O transporte místico feito por cavalos, a deusa inominada, os três caminhos, as musas e a viagem da Noite para a Luz não podem ser encarados de como um recurso literário. Era de fato uma escola mística que culminava com a EXPERIÊNCIA do "É!". Muitos tradudores se enganam ao traduzir "algo é" e mesmo a expressão o "Ser É" parece errônea. É não tem sujeito porque não é nem uma idéia. É uma experiência mística.
Nasceu a metafísica com parmênides e se dividiam aí o que nós chamamos de filosofia. Filosofia dos naturalistas corresponde a física aristotélica e tem como objeto a mutação do cosmos e Metafísica de Parmênides tem como objeto uma experiencia mística. Os erros que emanam dessa distinção estão em todo o lugar principalmente quando parmênides diz que pensamento e ser são o mesmo. Ora, na metafísica e considerando o É! isso é verdade(idéia=imagem; então tudo que se pode criar uma imagem e pensar existe como idéia), de outro modo, considerando a filosofia imanetista isso é dizer que verdade=mentira e que tudo que se pensa existe de modo concreto. A imanetização da transcendência foi erro que ditou a filosofia dos eleáticos posteriores, Protágoras, Demócrito e a lista não caba mais...
Fica claramente distinguidas seis tipos aqui: 1- homem comum; 2-sacerdotes cosmológicos; 3-filósofos da physis; 4-poetas líricos; 5-Parmênides; 6- discípulos de Parmênides que imanetizaram o transcendente. Excluíremos os tipos 2(por não usarem o logos como base da investigação), 4(por serem partes desconexas do fenômeno metafísico) e 6(por não interessar na discussão). Sobre o homem comum pode-se dizer que os eventos cotidianos forjaram a linguagem comum e que seu mundo é o da sociedade humana. Os primeiros filósofos se apropriaram dessa linguagem e fizerm emergir teoreticamente e levaram a um nível metodológico. Com efeito, obtiveram algum resultado e a eles devemos irrupções de sabedoria como o "semelhante atrai semelhante" entre outras; contudo, o método para descobrir o princípio do movimento com base nos sentidos simplismente não se acoplava com a linguagem o que inelutavelmente levou a uma aporia. Platão chegou a dizer que esse método escureceu-lhes a alma e Aristóteles, embora mais brando, observou o mesmo fenômeno. Parmênides é claro alcançou melhor resultado porém ficou só na contemplação do "É!" e não conseguiu construir sobre ele um discurso muito bom de modo que sua descrição, embora arrebatadora, não conseguiu impedir o descarrilamento de seus discípulos gerando o tipo 6.
Uma ascenção à metafísica paralela a Parmenidiana se deu com Sócrates por meios pouco usuais. Filho de parteira, desde pequeno teve contato com a arte médica e mesmo homem se preocupava antes do começo de suas discussões com a saúde do interlocutor. Foi essa arte(medicina) que, por analogia, fez o "turning point" da metafísica. Houve aí a redução do macrocosmo do universo para o microcosmo do homem e daí para a alma. Sócrates agora era o médico da alma cuja regra era o "conhece-te a ti mesmo". O próprio Platão reconhece que "nunca escrevi nada, antes quem o fez foi Sócrates remoçado" e assim ele parte para sua "segunda navegação", ou seja, se quisermos conhecer o macrocosmo do universo teremos que conhecer o microcosmo da alma.
Tipo usual de critica ao Platão é a de que ele fosse dualista. Nada mais falso. Se se compreendeu o texto até aqui perceberá que são dois objetos de estudo e dois gêneros de conhecimento que de algum modo se conectam mas nem por isso devem ser confundidos gerando o erro da imanetização da transcendencia ou o da transcendização da imanencia. Outra é a do idealismo platônico, desde Parmênides demostramos que é uma espécie de via mística e de um ethos, de certo ponto todo humano tem acesso pois é uma possibilidade humana como qualquer outra, mas se defendeu o idealismo como se já se nascesse com essa via mística o que é algo ridículo, apeirokalia não tem conhecimento, só opinião.
sexta-feira, 29 de abril de 2011
Nietzsche e Platão
Nota: este post se baseia num comentário do livro do Juliano Garcia Pessanha, Instabilidade perpétua.
Nos Outros capítulos se tinha uma rede de problemas unificados por um tema central donde se poderiam resolvê-los. Nesse daqui ele me dá uma canja e coloca o problema central em evidência sem muitos outros problemas satélites. Muito embora o número de metáforas esclarecedoras aumente sensivelmente.
O problema central dessa vez é o da rigidez moral. Por rigidez moral quero dizer algo como a pré-determinação de um código moral para casos específicos. Eu, aqui concordo com o Nietzsche e o JP. É verdadeiramente um sinal de decadência.
Embora discorde dos termos usados em certos trechos, concordo que não se pode "nomear antecipadamente a virtude" e que ela vem de fora. Só uma coisa me deixou intrigado: Ele aplicou esse princípio na doença do Nietzsche(pra quem não sabe era o excesso de dor de cabeça que chamamos de enxaqueca). Agora, porque ele não aplicou o princípio na loucura de Nietzsche?
A resposta talvez esteja na própria filosofia dele que segunto Juliano Pessanha se divide em duas partes: 1- Negativa: crítica à cultura; e 2- Positiva: construtiva de criação de novos valores. Mas o que especificamente está em cada uma das partes? Na parte negativa há a critica do Platonismo que ele diz ser a base de nossa cultura a ponto de dizer que o cristianismo é um platonismo para o povo. Todavia, examinemos de modo técnico o modo de desconstrução do professor alemão de filologia:
1- Essa conjugação de "arte, pensamento e saber" não cessa de forma alguma em Sócrates, Platão e Aristóteles. Principalmente em Platão, estou lendo toda a arte literária grega só para entender ele. Aliás, nem em Aristóteles sendo que perderam toda a obra literária dele. Segundo Reale, eles são sintetizadores e o fulcro da cultura grega. Ademais, carimbar apolíneo na testa de Platão chega ser até desonesto. Os Gregos tinham uma imagem de Platão meio homem meio Dionísio. Para Platão filósofo é quem é trágico e comediógrafo ao mesmo tempo.
3- Nietzsche aumenta muito. Santificar tudo antes de Sócrates e demonizar a filosofia postrior é achar que Platão criou uma cultura e não fez parte dela.
4- O homem de antes não tinha cabeça dividida e o de hoje tem. Nada mais falso. Os filósofos pré-socráticos podem ser entendidos como monges que só queriam saber do céu tanto que eram chamados meteorólogos. Se lembra do conto da Trácia em que uma escrava ri de Tales de mileto quando ele cai no buraco ou na peça as nuvens de aristófanes quando este representa um sócrates naturalista(pré-socrático rsrs). A coisa muda com Sócrates quando pensa que todo conhecimento serve para praticar a ação justa.
5- "Platão matou a pluralidade o devir": Meu Deus! Ele não vê que tudo desde o começo foi um processo? Todos os pré-socráticos tentaram explicar o devir por meio de sua redução a uma causa única seja, a água, os 4 elementos, o ar etc...
6- Também é erro crasso achar que Platão matou o mito. Ele só criou novos. Já dizia o Aristóteles: O filósofo é também um amante do mito. Não posso explicar aqui os pormenores mas recomendo a leitura de Eric Voegelin - Platão e Aristóteles
Podemos perceber que a crítica à Platão de Nietzsche não tem fundamento objetivo algum. Passemos à parte construtiva, ou afirmativa de nosso filósofo. Sobre a questão moral podemos sem medo de mudança muito considerável nos apoiar em Genealogia da moral que aliás Pessanha se baseia.É no fundo uma moral naturalista o que Nietzsche propõe: Sabendo que a palavra "Aristos" que do grego significa melhor e que existe uma classe que se define por esse nome(Aristocratas), supôs que os valores destes eram chamados bons que hoje chamamos de prepotencia, falta de ética, mesquinharia etc. No entanto com a subida de vida dos escravos e servos esses, amargurados e ressentidos com a antiga casta poderosa, inverteram os sentidos das palavras para o que chamamos de valores éticos. Então ele propõe um retorno aos valores naturais, pois são impostos pela natureza, da lei do mais forte, donde aliás o nome vontade de potência.
Historicamente não sobra dúvida da vacuidade da tese. Para tanto recomendo um dos clássicos da história e filosofia: Giambattista Vico "Princípios de uma nova ciência". Mas nem isso foi necessário, o próprio Platão dá conta do assunto. Podemos ver Nitzsche como um personagem de Platão no diálogo "Górgias", ele é Cálicles - nobre ateniense na peça. Entre os muitos argumentos elencados por Platão se encontra o do caso de os mais fracos se unirem como ficaria o mais forte? Semelhante caso se deu quando a França de Napoleão caiu pela união de uns simples monarcas no estilo antigo ou no caso dos nazistas serem destruidos por esse "lixo genético" da Rússia. Imagino o pavor dos nobres só de imaginar isso.
Agora, há uma consequencia mais profunda eludida por Platão e que responderá a questão. Eu postei quando você me perguntou da filosofia platônica e repito aqui: "A alma é composta por 4 virtudes: Temperança, Coragem, Sabedoria e Justiça. A temperança, coragem e sabedoria são como que partes constitutivas e a Justiça é a força externa que dá coerência ao todo. Normalmente se você comete uma injustiça(dar um soco em alguem) a justiça externa vem(dão um soco em você). Mas e se você não receber o soco de volta? Sua alma perde a coesão e quando você morrer você perde o "eu" e não porque ele se uniu ao todo(que é o ideal) mas o "eu" se dispersou ficando na terra. Então por isso Sócrates dizia que é melhor sofrer do que praticar injustiça e ele morreu por isso." suspeito que foi isso que ocasionou a loucura de Nietzsche, a perda de coesão da alma.
Mas e a percepção original do cara? Quer dizer que vivemos num mundo bipolar entre a rigidez moral e a loucura? De modo algum. É como eu postei no meu perfil do orkut: "A virtude não é de ninguém, nem o sucesso." (recomendo que leia o resto). Simplesmente desconhecemos a aplicação particular da moral. Sabemos regras gerais do que é bom e do que é mau e elas são verdadeiras, ao contrário do que Nietzsche diz, só sabemos uma fórmula geral e não como aplicar ela. Desejar fixar uma fórmula geral para todos os casos particulares é cair no erro da rigidez moral(e morte) e negar que elas existam é o erro da loucura. Por isso que é necessário certa sensibilidade para viver(recomendo para esse caso a leitura do magnífico romance de Mark Twain "As aventuras de Huckleberry Finn").
Nos Outros capítulos se tinha uma rede de problemas unificados por um tema central donde se poderiam resolvê-los. Nesse daqui ele me dá uma canja e coloca o problema central em evidência sem muitos outros problemas satélites. Muito embora o número de metáforas esclarecedoras aumente sensivelmente.
O problema central dessa vez é o da rigidez moral. Por rigidez moral quero dizer algo como a pré-determinação de um código moral para casos específicos. Eu, aqui concordo com o Nietzsche e o JP. É verdadeiramente um sinal de decadência.
Embora discorde dos termos usados em certos trechos, concordo que não se pode "nomear antecipadamente a virtude" e que ela vem de fora. Só uma coisa me deixou intrigado: Ele aplicou esse princípio na doença do Nietzsche(pra quem não sabe era o excesso de dor de cabeça que chamamos de enxaqueca). Agora, porque ele não aplicou o princípio na loucura de Nietzsche?
A resposta talvez esteja na própria filosofia dele que segunto Juliano Pessanha se divide em duas partes: 1- Negativa: crítica à cultura; e 2- Positiva: construtiva de criação de novos valores. Mas o que especificamente está em cada uma das partes? Na parte negativa há a critica do Platonismo que ele diz ser a base de nossa cultura a ponto de dizer que o cristianismo é um platonismo para o povo. Todavia, examinemos de modo técnico o modo de desconstrução do professor alemão de filologia:
1- Essa conjugação de "arte, pensamento e saber" não cessa de forma alguma em Sócrates, Platão e Aristóteles. Principalmente em Platão, estou lendo toda a arte literária grega só para entender ele. Aliás, nem em Aristóteles sendo que perderam toda a obra literária dele. Segundo Reale, eles são sintetizadores e o fulcro da cultura grega. Ademais, carimbar apolíneo na testa de Platão chega ser até desonesto. Os Gregos tinham uma imagem de Platão meio homem meio Dionísio. Para Platão filósofo é quem é trágico e comediógrafo ao mesmo tempo.
3- Nietzsche aumenta muito. Santificar tudo antes de Sócrates e demonizar a filosofia postrior é achar que Platão criou uma cultura e não fez parte dela.
4- O homem de antes não tinha cabeça dividida e o de hoje tem. Nada mais falso. Os filósofos pré-socráticos podem ser entendidos como monges que só queriam saber do céu tanto que eram chamados meteorólogos. Se lembra do conto da Trácia em que uma escrava ri de Tales de mileto quando ele cai no buraco ou na peça as nuvens de aristófanes quando este representa um sócrates naturalista(pré-socrático rsrs). A coisa muda com Sócrates quando pensa que todo conhecimento serve para praticar a ação justa.
5- "Platão matou a pluralidade o devir": Meu Deus! Ele não vê que tudo desde o começo foi um processo? Todos os pré-socráticos tentaram explicar o devir por meio de sua redução a uma causa única seja, a água, os 4 elementos, o ar etc...
6- Também é erro crasso achar que Platão matou o mito. Ele só criou novos. Já dizia o Aristóteles: O filósofo é também um amante do mito. Não posso explicar aqui os pormenores mas recomendo a leitura de Eric Voegelin - Platão e Aristóteles
Podemos perceber que a crítica à Platão de Nietzsche não tem fundamento objetivo algum. Passemos à parte construtiva, ou afirmativa de nosso filósofo. Sobre a questão moral podemos sem medo de mudança muito considerável nos apoiar em Genealogia da moral que aliás Pessanha se baseia.É no fundo uma moral naturalista o que Nietzsche propõe: Sabendo que a palavra "Aristos" que do grego significa melhor e que existe uma classe que se define por esse nome(Aristocratas), supôs que os valores destes eram chamados bons que hoje chamamos de prepotencia, falta de ética, mesquinharia etc. No entanto com a subida de vida dos escravos e servos esses, amargurados e ressentidos com a antiga casta poderosa, inverteram os sentidos das palavras para o que chamamos de valores éticos. Então ele propõe um retorno aos valores naturais, pois são impostos pela natureza, da lei do mais forte, donde aliás o nome vontade de potência.
Historicamente não sobra dúvida da vacuidade da tese. Para tanto recomendo um dos clássicos da história e filosofia: Giambattista Vico "Princípios de uma nova ciência". Mas nem isso foi necessário, o próprio Platão dá conta do assunto. Podemos ver Nitzsche como um personagem de Platão no diálogo "Górgias", ele é Cálicles - nobre ateniense na peça. Entre os muitos argumentos elencados por Platão se encontra o do caso de os mais fracos se unirem como ficaria o mais forte? Semelhante caso se deu quando a França de Napoleão caiu pela união de uns simples monarcas no estilo antigo ou no caso dos nazistas serem destruidos por esse "lixo genético" da Rússia. Imagino o pavor dos nobres só de imaginar isso.
Agora, há uma consequencia mais profunda eludida por Platão e que responderá a questão. Eu postei quando você me perguntou da filosofia platônica e repito aqui: "A alma é composta por 4 virtudes: Temperança, Coragem, Sabedoria e Justiça. A temperança, coragem e sabedoria são como que partes constitutivas e a Justiça é a força externa que dá coerência ao todo. Normalmente se você comete uma injustiça(dar um soco em alguem) a justiça externa vem(dão um soco em você). Mas e se você não receber o soco de volta? Sua alma perde a coesão e quando você morrer você perde o "eu" e não porque ele se uniu ao todo(que é o ideal) mas o "eu" se dispersou ficando na terra. Então por isso Sócrates dizia que é melhor sofrer do que praticar injustiça e ele morreu por isso." suspeito que foi isso que ocasionou a loucura de Nietzsche, a perda de coesão da alma.
Mas e a percepção original do cara? Quer dizer que vivemos num mundo bipolar entre a rigidez moral e a loucura? De modo algum. É como eu postei no meu perfil do orkut: "A virtude não é de ninguém, nem o sucesso." (recomendo que leia o resto). Simplesmente desconhecemos a aplicação particular da moral. Sabemos regras gerais do que é bom e do que é mau e elas são verdadeiras, ao contrário do que Nietzsche diz, só sabemos uma fórmula geral e não como aplicar ela. Desejar fixar uma fórmula geral para todos os casos particulares é cair no erro da rigidez moral(e morte) e negar que elas existam é o erro da loucura. Por isso que é necessário certa sensibilidade para viver(recomendo para esse caso a leitura do magnífico romance de Mark Twain "As aventuras de Huckleberry Finn").
quarta-feira, 6 de abril de 2011
Educação e Propaganda
Embora não pareça à primeira vista, este é um campo altamente controverso e sua compreensão trará à luz, como veremos, um tema inusitado.
O texto que inspirou este post se encontra na obra prima de Chaim Perelman "O novo tratado da argumentação". No livro, Perelman dedica um capítulo sobre a questão da diferença entre educação e propaganda à guisa de aplicação de sua teoria da argumentação. Uma das notas diferenciadoras entre os dois é o prestigio social do educador em seu meio(um pastor para o evangélico, um general para os militares etc..). Mas isso não é suficiente, diz ele, pois embora educador e propagandista sejam retores(retórico é o estudioso da retórica), o educador utiliza um tipo especial de retórica, a saber, o discurso epidíctico do vocabulário Aristotélico.
Nele, o retor tenta aumentar o grau de persuasão de uma tese já aceita pela sociedade a que o público pertence sendo requerido prestígio social, pois a tese deve aceita "quia magister dixit". Ademais, há a necessidade não só de inocular os valores nos que acabaram de entrar na sociedade como também de incutir força nas convicções já aceitas por ela para gerar ações, pois como é sabido, a persuasão retórica visa à ações.
Tem função retórica epidíctica os dias cívicos, paradas militares, ritos religiosos, e a educação strictu sensu de nossas escolas etc, (percepção similar aliás a que Platão bota na boca de Protágoras em diálogo homônimo) e são retores e educadores os representantes e atores dos atos acima. São propaganda a pregação cristão em países não cristãos e vice-versa, e doutrinação ateísta em escolas cristãs e vice-versa etc. É cada um no seu quadrado.
Nada contra a propaganda, desse modo exposta. é até saudável para implementar melhorias nas crenças de ambos os lados. O problema é, evidentemente, quando o propagandista posa de educador do grupo alheio. Mas deixemos isso de lado.
Contudo, a resposta de Perelman ainda me parece incompleta. Usemos mais uma vez o bom e velho Aristóteles: quais seriam as quatro causas da educação?
É necessário que haja o educador e o educado, sendo preciso algo que os ligue, i.e., o prestígio social aludido em parágrafo anterior e que será a causa material. A formal é o discurso epidíctico de Aristóteles e ampliado por Perelman até adquirir as mil facetas acima descritas. Até aí tudo bem, mas e as outras duas?
Sabemos também que a forma ou idéia é uma constante de proporcionalidade disposta por uma intenção finalística. A intenção finalística é a causa eficiente. Podemos perguntar quem estrutura e cria o cargo de educador ou professor dando a ele prestigio e os meios de discurso no sentido de Perelman? A sociedade, claro. Toda sociedade que alcança certo nível de civilização cria meios próprios de educação.
Falta ainda o fim da "intenção finalística", a contraparte da causa eficiente que é a causa final. Mas qual será ela?
Um estudo sobre isso está na "República" de Platão. Não nos deteremos nos detalhes mas saibamos logo que para que a sociedade exista e não seja um bando é necessário que haja a incorporação da idéia de Bem(v. A decisão do Bem). E é o que vemos documentado na história que todo povo em algum momento tem um contato com o divino e a cultura, sociedade, costumes, instituições, religião, arte, filosofia e, em suma todo o universo humano servem para salva-guardar a lembrança desses momentos.
Chegamos a definição de educador: é aquele que alcança ou conserva a idéia de Bem transmitindo a outros de modo a construir ou manter a sociedade, por vias discursivas e linguísticas criadas por ele ou por outros, em condições sociais criadas ou pré-existentes.
Assim podemos ver que o verdadeiro problema que é o da conservação e corrupção da sociedade. Sobre nós ainda pesa o problema da acusação de Socrates: "acusado de corromper os jovens da pólis". Mesmo com a definição em mãos é difícil diferenciar o joio do trigo no caso real. Ou melhor, é impossível se se tentar usar critérios não valorativos como os de Perelman.
Fui perguntado numa discussão com um professor universitário de filosofia o porque de minha dura crítica a filósofos do seu gosto e que isto não poderia ser usado sendo sempre necessária a resposta polida. Respondi-lhe com citações de Homero, Platão, Jesus Cristo e os profetas mostrando que a crítica ríspida DEVE ser usada em certas ocasiões e era o que estava fazendo. Ele disse que isso estava fora das tradições, mas eu perguntei, ao que ele não teve resposta, a que tradições ele se referia. Logo a diferenciação é simples desde que se tenha uma educação liberal e se conheça bem os clássicos.
Percebamos também a insuficiência da definição de Perelman em que o educador exprime "teses já aceitas pelo público e pela sociedade", pois, a doxa, a opinião falsa, também está entre elas. E fica claro porque muitos dos alunos de Perelman caíram na adoração do reinado da propaganda e relativismo cínico. Não, a luta entre Protágoras e Sócrates ainda continua através dos séculos.
O texto que inspirou este post se encontra na obra prima de Chaim Perelman "O novo tratado da argumentação". No livro, Perelman dedica um capítulo sobre a questão da diferença entre educação e propaganda à guisa de aplicação de sua teoria da argumentação. Uma das notas diferenciadoras entre os dois é o prestigio social do educador em seu meio(um pastor para o evangélico, um general para os militares etc..). Mas isso não é suficiente, diz ele, pois embora educador e propagandista sejam retores(retórico é o estudioso da retórica), o educador utiliza um tipo especial de retórica, a saber, o discurso epidíctico do vocabulário Aristotélico.
Nele, o retor tenta aumentar o grau de persuasão de uma tese já aceita pela sociedade a que o público pertence sendo requerido prestígio social, pois a tese deve aceita "quia magister dixit". Ademais, há a necessidade não só de inocular os valores nos que acabaram de entrar na sociedade como também de incutir força nas convicções já aceitas por ela para gerar ações, pois como é sabido, a persuasão retórica visa à ações.
Tem função retórica epidíctica os dias cívicos, paradas militares, ritos religiosos, e a educação strictu sensu de nossas escolas etc, (percepção similar aliás a que Platão bota na boca de Protágoras em diálogo homônimo) e são retores e educadores os representantes e atores dos atos acima. São propaganda a pregação cristão em países não cristãos e vice-versa, e doutrinação ateísta em escolas cristãs e vice-versa etc. É cada um no seu quadrado.
Nada contra a propaganda, desse modo exposta. é até saudável para implementar melhorias nas crenças de ambos os lados. O problema é, evidentemente, quando o propagandista posa de educador do grupo alheio. Mas deixemos isso de lado.
Contudo, a resposta de Perelman ainda me parece incompleta. Usemos mais uma vez o bom e velho Aristóteles: quais seriam as quatro causas da educação?
É necessário que haja o educador e o educado, sendo preciso algo que os ligue, i.e., o prestígio social aludido em parágrafo anterior e que será a causa material. A formal é o discurso epidíctico de Aristóteles e ampliado por Perelman até adquirir as mil facetas acima descritas. Até aí tudo bem, mas e as outras duas?
Sabemos também que a forma ou idéia é uma constante de proporcionalidade disposta por uma intenção finalística. A intenção finalística é a causa eficiente. Podemos perguntar quem estrutura e cria o cargo de educador ou professor dando a ele prestigio e os meios de discurso no sentido de Perelman? A sociedade, claro. Toda sociedade que alcança certo nível de civilização cria meios próprios de educação.
Falta ainda o fim da "intenção finalística", a contraparte da causa eficiente que é a causa final. Mas qual será ela?
Um estudo sobre isso está na "República" de Platão. Não nos deteremos nos detalhes mas saibamos logo que para que a sociedade exista e não seja um bando é necessário que haja a incorporação da idéia de Bem(v. A decisão do Bem). E é o que vemos documentado na história que todo povo em algum momento tem um contato com o divino e a cultura, sociedade, costumes, instituições, religião, arte, filosofia e, em suma todo o universo humano servem para salva-guardar a lembrança desses momentos.
Chegamos a definição de educador: é aquele que alcança ou conserva a idéia de Bem transmitindo a outros de modo a construir ou manter a sociedade, por vias discursivas e linguísticas criadas por ele ou por outros, em condições sociais criadas ou pré-existentes.
Assim podemos ver que o verdadeiro problema que é o da conservação e corrupção da sociedade. Sobre nós ainda pesa o problema da acusação de Socrates: "acusado de corromper os jovens da pólis". Mesmo com a definição em mãos é difícil diferenciar o joio do trigo no caso real. Ou melhor, é impossível se se tentar usar critérios não valorativos como os de Perelman.
Fui perguntado numa discussão com um professor universitário de filosofia o porque de minha dura crítica a filósofos do seu gosto e que isto não poderia ser usado sendo sempre necessária a resposta polida. Respondi-lhe com citações de Homero, Platão, Jesus Cristo e os profetas mostrando que a crítica ríspida DEVE ser usada em certas ocasiões e era o que estava fazendo. Ele disse que isso estava fora das tradições, mas eu perguntei, ao que ele não teve resposta, a que tradições ele se referia. Logo a diferenciação é simples desde que se tenha uma educação liberal e se conheça bem os clássicos.
Percebamos também a insuficiência da definição de Perelman em que o educador exprime "teses já aceitas pelo público e pela sociedade", pois, a doxa, a opinião falsa, também está entre elas. E fica claro porque muitos dos alunos de Perelman caíram na adoração do reinado da propaganda e relativismo cínico. Não, a luta entre Protágoras e Sócrates ainda continua através dos séculos.
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