Pressuposto fundante e regra fundamental do método filosófico foi enunciada por Heráclito com precisão profética: "Os homens despertos estão todos no mesmo mundo, quando dormem cada um vai para seu mundo". Máxima de extrema concisão que revela dois lados da consciência humana. O homem não é só aquele que tem contato simbólico com o que "todos, sempre e em toda parte conhecem" por meio da leitura da Bíblia, cultos pagões públicos e sua religião(ões) como é o que tem seu trabalho, sua arte, e cuida de seus interesses pragmatistas. Em períodos de forte sentimentos religiosos essa divisão é imperceptível mas nos crepúsculos da consciência da luminosidade divina um abismo toma conta do espírito humano e novas espiritualidades tentam preenchê-lo.
Cada uma das artes e a própria ciência tem uma lógica e modus operandi próprios(agora, lógica menor) mas que, como diz a máxima, são "mundos separados". Porém, transpostos esses limites, nenhuma delas aguenta a prova de fogo da dialética. Na matemática, e.g., se diz 1+1=2, mas é esse um que se ajunta ao outro ou o outro ao um? É só pela contiguidade que se forma o dois? E mais: se o 10 é maior que o 8 pelo 2 então a grandeza do dez é a pequenez do dois? É pela pequenez que é a grandeza? Semelhantemente na estética se dirá algo ser belo pelo brilho, ou forma ou pelo que for ou pela beleza? Embora sejam lógicas em si as consequências dos postulados não se harmonizam com o todo do conhecimento e da linguagem humana. Em suma, não há razão.
Não podemos seguir esse caminho. Admitir isso é negar racionalidade ao homem e também a existência de conhecimento, pois, conhecimento não pode ser válido só às vezes. Ou o conhecimento é válido erga omnes ou não é de modo algum. Não pode ser só para os que dormem. Se é verdade que a natureza não frustra e que Deus nos fez racionais então é porque tem que haver razão e devemos superar essa explicação pelos contrários por uma pelo si mesmo, i.e, o dois é dois pela dualidade, o 10 é maior que o 8 pela grandeza e o belo pela beleza. Ou seja, pela Idéia de dualidade, grandeza e beleza(não me vá confundir com conceito, que é um universal).
Isso é explicar uma coisa. Pois explicar vem de ex-plicare donde plicare é fazer rugas, dobras e explicare é portanto desenrugar, desembrulhar e foi precisamente o que fiz. Entendeste minhas afirmativas em outra clave, na de demonstração, mas o que fiz foi mostração, i. e, tentei desembrulhar o conceito por meio de símbolos e exemplos dar toda a dimensão das assertivas platônicas no que tange a idéia de modo que toda a rede de necessidades(incluso perguntas) ficasse clara.
A importância da teoria é conspícua pois dela depende nossa cognoscibilidade. Historicamente(e não tornarei mais a falar de história) de duas fontes provém a Idéia: da matemática e da medicina. O logos matemático busca um critérion, uma pedra de medida, onde se pode reduzir uma multiplicidade a uma unidade. Você pode formar qualquer número pela forma, expressa até por Aristóteles, de número numerante e numerado, por exemplo: sabemos que qualquer número natural, exceto o 1, pode ser gerado pela multiplicação de números primos então o número 531 é formado pelo número primo 59 e pelo número 9. O 59 é o número numerado ou numeroso e o número 9 o número numerante então qualquer número ou GRANDEZA(v. Euclides, quia de intuições) pode ser formado assim. O 59 é o Um do 531. Então pensou-se com acerto que o mesmo se poderia fazer com os sensíveis e encontrar a mônada que para mim é o mesmo que Idéia. Já na medicina o logos é o diagnóstico. O médico grego encontrou similaridade de sintomas entre dois doentes e fez o discernimento entre sintoma e doença. O desgosto para com coisa que antes se gostava, a dor de cabeça, a febre e as manchas no corpo não são autonomas e emboras devam ser tratadas elas não são seu problema: você está com dengue, meu filho, esse é o problema! A aplicação desta descoberta trouxe similares resultados que a da matemática.
Na verdade o logos da medicina é muito mais extenso e compraz não só a Idéia mas a metaidéia e o universal(embora nem sempre este último). A Idéia é um particular e tem existência tal qual um sensível e o sensível tem dependência ontológica do Ideal tal qual o 531 tem do 59 embora ambos sejam igualmente números(ou substância no caso da Idéia e sensível). O logos da medicina se aplica ao da Idéia na medida em que esta tem analogia para com o sensível. A metaidéia é algo que existe mas não tem substância. Perplexo? Exemplifico: o movimento sempre se dá ou substantivamente ou qualitativamente ou quantitativamente ou localmente e não existe fora ou além do ser. A metaidéia é o logos da medicina por excelência(strico sensu). O universal é um conjunto de coisas com as mesmas notas e que não existe em si, por exemplo o conjunto de múltiplos de 59. O logos da medicina, para não se confundir com o da matemática(idéia) foi cunhado como forma(lato sensu).
Sobre a diferença entre lógica e ontologia temos outra dica de Heráclito: "O caminho de subida e o de descida é o mesmo". Na lógica menor há sempre uma operação, por exemplo, 1+1=2 na matemática e as premissas e as conclusões de modo geral na lógica. Isso é algo próprio da lógica menor, o problema conceitual do antes e do depois. Pensamos "1+1" e "animal racional" como uma coisa e "2" e "homem" outra que "por sobreposição de imagens"(espécies de speculum que é espelho então são duas coisas, a imagem e a coisas que se dizem iguais quando sobrepostos"), no caso da lógica são iguais e pela união e separação de unidades no da matemática. A lógica menor é predominantemente psicológica(noológica se quisermos ser precisos). Somente com a teoria das Idéias e com a admissão da imutabilidade destas superaremos essa dualidade. Existe uma Lógica onde não existam duas coisas, mas mesmo com a dualidade de conceitos há unidade no ser. Essa Lógica não há demonstração e essa matemática onde não há operação se chama Metafísica ou Ontologia. Essa Lógica maior é o logos, o Pensamento, cujo objeto não é o conceito mais o Ser. LÓGICA É ONTOLOGIA sendo que ontologia é lógica aplicada e lógica é ontologia formal ou conceitual.
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