No início das civilizações, o homem era um animal acuado. Hoje podemos contemplar a beleza e até o idílico em uma tempestade, mas no passado os fenomenos naturais causavam medo e terror. Contudo, homens apareceram que conseguiram superar esse medo e contemplar a natureza, eles criaram a civilização. As civilizações primevas foram o reflexo do cosmos.
Nessas civilizações a pergunta sobre a causa das mutações do cosmo estava presente, mas foi na Grécia que essa pergunta foi constituida um fim em si mesma. Outra novidade foi que o caráter mítico foi posto de lado (embora ele se apresente sempre). Estava constituida a filosofia. Cabe aqui fazer a observação de que os filosofos não eram tão diferentes dos sacerdotes de outras civilizações, eram uma espécie de escola mística.
Outro movimento, porém, se formou, paralelo a esse, na Grécia: a poesia lírica. Uma constante na estonteante variedade de poetas desse genero era a confrontação da verdade da pólis com uma verdade deles(virtude). Diferentemente dos filosofos e sacerdotes eles não escreviam sobre a natureza mas sobre algo mais próximo do homem comum, i.e., as coisas humanas, as virtudes. Cada um desses poetas descobria uma virtude e a comparavam com a da pólis sendo a verdade a virtude louvada e a mentira o costume(nomos) da pólis.
Mas se cada um proclama uma virtude e cada uma delas era "a verdade" qual virtude seria a verdadeira? Ficou claro que essas virtudes eram diversas faces do mesmo fenomeno: a transcendência. E aqui entra Parmênides, ele em suas observações não usava os sentidos nem queria saber da causa da mutação do cosmos. Seu objeto de estudo é a transcendência a qual, pela primeira vez, foi chamada de Ser.
No poema de Parmênides fica claro que se trata de uma escola mística em plena acepção. O transporte místico feito por cavalos, a deusa inominada, os três caminhos, as musas e a viagem da Noite para a Luz não podem ser encarados de como um recurso literário. Era de fato uma escola mística que culminava com a EXPERIÊNCIA do "É!". Muitos tradudores se enganam ao traduzir "algo é" e mesmo a expressão o "Ser É" parece errônea. É não tem sujeito porque não é nem uma idéia. É uma experiência mística.
Nasceu a metafísica com parmênides e se dividiam aí o que nós chamamos de filosofia. Filosofia dos naturalistas corresponde a física aristotélica e tem como objeto a mutação do cosmos e Metafísica de Parmênides tem como objeto uma experiencia mística. Os erros que emanam dessa distinção estão em todo o lugar principalmente quando parmênides diz que pensamento e ser são o mesmo. Ora, na metafísica e considerando o É! isso é verdade(idéia=imagem; então tudo que se pode criar uma imagem e pensar existe como idéia), de outro modo, considerando a filosofia imanetista isso é dizer que verdade=mentira e que tudo que se pensa existe de modo concreto. A imanetização da transcendência foi erro que ditou a filosofia dos eleáticos posteriores, Protágoras, Demócrito e a lista não caba mais...
Fica claramente distinguidas seis tipos aqui: 1- homem comum; 2-sacerdotes cosmológicos; 3-filósofos da physis; 4-poetas líricos; 5-Parmênides; 6- discípulos de Parmênides que imanetizaram o transcendente. Excluíremos os tipos 2(por não usarem o logos como base da investigação), 4(por serem partes desconexas do fenômeno metafísico) e 6(por não interessar na discussão). Sobre o homem comum pode-se dizer que os eventos cotidianos forjaram a linguagem comum e que seu mundo é o da sociedade humana. Os primeiros filósofos se apropriaram dessa linguagem e fizerm emergir teoreticamente e levaram a um nível metodológico. Com efeito, obtiveram algum resultado e a eles devemos irrupções de sabedoria como o "semelhante atrai semelhante" entre outras; contudo, o método para descobrir o princípio do movimento com base nos sentidos simplismente não se acoplava com a linguagem o que inelutavelmente levou a uma aporia. Platão chegou a dizer que esse método escureceu-lhes a alma e Aristóteles, embora mais brando, observou o mesmo fenômeno. Parmênides é claro alcançou melhor resultado porém ficou só na contemplação do "É!" e não conseguiu construir sobre ele um discurso muito bom de modo que sua descrição, embora arrebatadora, não conseguiu impedir o descarrilamento de seus discípulos gerando o tipo 6.
Uma ascenção à metafísica paralela a Parmenidiana se deu com Sócrates por meios pouco usuais. Filho de parteira, desde pequeno teve contato com a arte médica e mesmo homem se preocupava antes do começo de suas discussões com a saúde do interlocutor. Foi essa arte(medicina) que, por analogia, fez o "turning point" da metafísica. Houve aí a redução do macrocosmo do universo para o microcosmo do homem e daí para a alma. Sócrates agora era o médico da alma cuja regra era o "conhece-te a ti mesmo". O próprio Platão reconhece que "nunca escrevi nada, antes quem o fez foi Sócrates remoçado" e assim ele parte para sua "segunda navegação", ou seja, se quisermos conhecer o macrocosmo do universo teremos que conhecer o microcosmo da alma.
Tipo usual de critica ao Platão é a de que ele fosse dualista. Nada mais falso. Se se compreendeu o texto até aqui perceberá que são dois objetos de estudo e dois gêneros de conhecimento que de algum modo se conectam mas nem por isso devem ser confundidos gerando o erro da imanetização da transcendencia ou o da transcendização da imanencia. Outra é a do idealismo platônico, desde Parmênides demostramos que é uma espécie de via mística e de um ethos, de certo ponto todo humano tem acesso pois é uma possibilidade humana como qualquer outra, mas se defendeu o idealismo como se já se nascesse com essa via mística o que é algo ridículo, apeirokalia não tem conhecimento, só opinião.
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