quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Filosofia do Estilo

(este post é uma leitura do Filosofia da arte de Guilles Gaston Granger)

Nas ciências, na organização da linguagem e nas atividades ditas superiores as relações de forma e conteúdo se apresentam de tal modo que um observador desatento poderia supor a existência de "formas" sem "matérias", sem um conteúdo "significativo" para a sociedade. Assim, as atividades superiores ficaram estigmatizadas como um ócio, donde aliás, deriva a expressão escola. A esfera do útil foi totalmente separada do intelectual e este tinha uma atividade que nada produzia na sociedade.

Propomos não uma completa separação mas uma bipolaridade onde o conteúdo pragmático é átono para os sábios e preponderante nas outras classes e o conteúdo abstrato é preponderante para os sábios e átono para as outras classes.

Nossa proposta só se concretizará por meio do trabalho, na definição de Granger. O trabalho é "a atividade considerada em seu contexto complexo e em particular com as condições sociais que dão significação no mundo efetivamente vivido". Então a atividade do pescador pode ser considerada pelo prisma da arte da pesca e pelo prisma da consciência humana. Para o pescador, seu trabalho é não só o de atualizar a arte da pesca mas a atualização de um fato no interior de uma totalidade, ilusória ou autêntica mas em todo caso vivida pela consciência. Estes dois aspectos constituem dois movimentos de determinação prática do individual, o momento concreto vivido. Trabalho em nossa definição não é só a arte que lhe dá o nome mas o modo que está encaixado no quadro social mais amplo.

Fica claro que na distribuição das partes cabe aos sábios "produzirem" o conteúdo de cada um dos trabalhos, pois a arte da pesca é inventada e aperfeiçoada com o costume mas a consciência do que este faz em contexto geral é dado pelos sábios. Como a arte produtiva é um universal que pode ser reproduzida e atualizada por vários indivíduos a consciência da função no Todo tem caráter individualizador e a tarefa do intelectual é a individuação, a de produzir essa consciência. Mas como diabos isso é possível? Teremos antes de tudo de entender a "arte dos sábios".

Surge então uma aparente aporia. Se a arte da pesca ou da caça tem como caráter individualizador o produto da tal da "arte dos sábios", quem daria o caráter individualizador desta última? Esse parece ser o erro do Aristóteles em sua política, o de dizer que os spoudaios seriam a forma e o povo a matéria. A solução estaria talvez na introdução da concepção platônica de que as sociedades começam com a inoculação da idéia de Bem e que este seria o caráter individualizador, ou material, e a sociedade a forma. Sendo que cada sociedade tem uma forma diferente e nenhuma é suficiente para armazenar dentro de si o Bem. No entanto o processo todo passa pela intermediação dos sacerdotes ou reis que conseguiam organizar a alma para contemplação do Bem e passar essa ordem para a sociedade sendo por isso, em quase todas as culturas, os filhos de Deus.

A atividade superior não existe como se flutuasse no ar. Antes, é uma redução do que é experimentado como um individual, isto é, como momento concreto vivido em tal situação. A vida intelectual orienta-se para a recuperação desse individual vivido. Como toda civilização até agora conhecida tem como base uma criação estética vale a pena nos voltarmos para ela. Uma obra de arte pode ser vista como um esquema repetível de situações, como por exemplo, no Don quixote em que um homem de gênio ficou louco e transfere sua loucura para sociedade ou n'O Processo de Kafka onde o sujeito é punido por algo que não sabe que acontecem. Mas a obra também pode ser vista como a matriz de intelecções de que Aristóteles falava, ou seja, pela profunda impressão que ela causa. No dizer de Grange, "a arte tende a revelar não somente a universalidade sem conceitos, mas também uma individualidade conceituada". Embora a criação estética seja um caso particular, toda atividade superior é uma tentativa humana para superar a impossibilidade de uma apreensão teórica do individual.

Surge então a necessidade de uma filosofia da arte ou filosofia do estilo, não só nas chamadas belas artes mas arte em seu sentido mais amplo. Granger define assim sua filosofia do estilo: "modalidade de integração do individual num processo concreto que é trabalho e que se apresenta necessariamente em todas as formas de prática". O que é estilo? Há a mensagem que é a experiência a ser comunicada, e a redundância, ou sobredeterminações. Por exemplo o locutor que tem uma mensagem a ser transmitida, como um texto, mas pode fazê-la de diversos modos e esses podem reforçar a intenção do texto ou torná-la outra totalmente diferente. Há estilo quando se "sabe usar o simbolismo, não somente quanto ao textura mas também quanto a sua relação com uma experiência que o envolve", diz-nos Granger.

O homem é co-criador de Deus e sua obra magna é a sociedade, sendo assim a proposta da filosofia do estilo é da mais alta importância. A consciência da hierarquia Bem - sábio - homem e de que todos eles são em algum nível criadores é o primeiro passo para um novo patamar de conhecimeto. Todo homem é um criador, ele é sempre artista.

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