sábado, 13 de agosto de 2011

Nomen est omen

Um vício nascido na distante idade média virou comum nos debates públicos atuais, me refiro ao embate fé e razão. É claro que isso é prejudicial para os dois lados. Os religiosos ficam com a marca de lunáticos que sofreram lavagem cerebral e os "servos da razão" balbuciam como criança quando lhes perguntam algo que saia do campo materialista. Alguns religiosos da idade média supunham que a razão não pode ser um meio válido para compreender a realidade porque muitas vezes ela não condizia com a interpretação deles da escrituras sagradas. Posteriormente não só clérigos mas também cientistas negaram espiritualidade à razão e esta teve seu status minorado a uma receita de bolo para laboratório.

Mas tomemos em consideração alguns fatos antes de tentar resolver essa aporia. Não existe mística sem religião e observando as sociedades a mística de cada religião começavam em um certo estágio determinado de cosmovisão. Começa-se tal qual apontei num post anterior em que o homem não sabia diferenciar muito bem o kosmos e o eu, prova disso teremos ao olhar as crianças muito pequenas em que a palavra "eu" é uma das últimas a ser de fato compreendida. Num segundo estágio o homem capta essa diferença e começa a entender do bem e do mal, nascem as leis. Paulo diz que sem a lei estaríamos sem o conhecimento do mal. Por fim a lei, que foi composta para modelar a sociedade, começa de fato a mostrar o seu espírito, ela é a norma, a régua que por fim ficou guardada na alma do homem. Como diz Agostinho, "difere estar dentro da lei e sob a lei", os místicos não estão mais coagidos a uma obediência exteriorizada da lei mas a lei está dentro deles. Há um descobrimento da alma.

Tendo isso em mente, tomemos os chamados povos politeístas sendo que, nos obscurantíssimos tempos primevos, quando outra religião vigorava: a religião familiar. Cada família tinha seu culto que era representado pelo fogo familiar que só poderia ser apagado quando toda a família perecesse. Os deuses desse culto eram os próprios antepassados, são os deuses lares ou penates em Roma ou daimonion na Grécia antiga. Eles eram enterrados na fazenda da família e quando um membro morria ele próprio se tornava deus e velava por sua famíla. Essa religião é a base ainda de muitos de nossos costumes e de nosso direito incluindo casamento, herança e até propriedade privada. Prova disso é uma antiga anedota contada na qual em um momento posterior da história Grega Zeus quer montar um templo para si em cima de um morro, contudo ele é demovido dessa idéia quando descobre que ali estão enterrados os daimonion de uma família. Encontraremos exemplo mais próximo se considerarmos que o judaísmo só nasceu propriamente com Moisés e é uma religião para um povo, antes disso era uma religião para uma família, a de Abraão e Elohim era seu Deus familiar. Ademais, muitos arqueólogos nos asseguram terem sido Abraão, Isaque e Jacó considerados como deuses penates.

A Grécia sofreu o processo da mística acima citado e bastará ler sua literatura de modo cronológico para perceber isso. Há na Grécia um processo de interiorização progressiva da lei e da descoberta da alma que tem seu ápice na filosofia e na ciência. Elas são a mística da religião pagã que sobreviveu a bancarrota desta. Mas os detratores da razão não vêem isso, acham que nasceu por geração espontânea e se maravilham ao notar que só na Grécia isso surgiu. Agora sabemos que até na mais simples fórmula lógica há um profundo substrato espiritual.

Por exemplo, na Grécia e em Roma as pessoas tinham três nomes o prenomen, nomen e agnomen. O agnomen era o nome do pai, o prenomen era o nome dado a crinça e o nomen era o nome da família ou gens. Percebam que o nome verdadeiro era o nomen, o nome de sua gens e por isso a fórmula romana nomen est omen(o nome é o presságio), pois os deuses lares cuidavam do destino de sua gens. Mas o que é definição? Não são também três nomes, ou seja, a espécie particular, o gênero e a diferença específica? Definir uma coisa é dizer de que família ela pertence e qual o seu pai e isso para qualquer coisa. Definir é dizer o nome completo de uma coisa. Agora, quando se fala em definição os que negam a espiritualidade da razão só percebem uma forma lógica vazia.

Muitos acharam que por ter bases na cultura grega a filosofia deveria ter morrido junto com ela. Mas o fato é que não morreu e aí está a prova de sua veracidade e universalidade como hoje podemos ver filósofos pelo menos no cristianismo, judaísmo e islamismo. Pode-se também dizer que o embate cristianismo e filosofia continua mas, isso não é correto. Se olharmos para gênesis 2,19 não veremos o próprio Deus mandando Adão dar nomes a todas as coisas?

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