por: Otto Maria Carpeaux
(Nota: Não sou de ficar publicando texto alheio mas esse me pareceu raro. O Carpeaux disse que "tinha publicado na imprensa brasileira entre 1941 e 1966, mais ou menos 1500 artigos sôbre artigos literários. Dêstes, duas centenas foram enfeixados em livros, hoje esgotados e dificilmente acessíveis. E o resto?". Bem, o resto tratemos de juntar. Minha pequena contribuição ao imenso trabalho a ser realizado.)
Assim como em Paris também há no Rio de Jeniro e em São Paulo devotos do Marquês de Sade e dosa seus romances que a censura do regime De Gaulle condenou novamente a serem vendidos clandestinamente: Justine e Juliette e os outros todos em que sempre se repete a combinação de orgias sexuais e torturas sangrentas, às vezes degenerando em hecatombas: bondouir e necrotério. Sade é hoje o santo de um culto literário-filosófico-místico. Espero que não lhe esqueçam o sesquicentenário: morreu em 2 de Dezembro de 1814 e é hoje, 150 anos depois, mais atual que então. Dupla atualidade: uma literária e outra.
Desde 1945 saíram várias edições de suas principais obras. Mais lidos que as próprias obras foram os ensaios sobre Sade, de escritores e pensadores tão sérios e hermáticamente profundos como George Bataille e Maurice Blanchot. A grande biografia de Maurice Heine, interrompida pela morte do autor, foi completada por Gilbert Lely, que compara Sade a Bocaccio e Cervantes, mas fala mais da filosofia do marquês do que seus enredos e do seu estilo. Pois do estilo de Sade não vale a pena falar e seus enredos são de uma insipidez que confirma a frase de Baudelaire, grande especialista na matéria: "o pecado é monótono".
Como escritor, Sade não se pode comparar com Rétif de la Bretonne nom com Laclos, seus contemporâneos. Rétif, realista crasso e inculto, conhece todas as ruas, bairros, casas, classes de Paris antes da revolução: dá um apnorama completo da sociedade do seu tempo, não menos "pecaminoso" que o panorama de Sade, que se limita, por sua vez a mostrar o intérieour de um bordel e porão, bem fechado para ninguém ouvir os gritos das vítimas. Rétif, um realista; Sade, um visionário. Mas sua visão só penetra corpos e não as almas. Desafio a quem me possa mostrar uma única obra de Sade que valha a análise de uma página de Laclos. Mas como se explica, então, a fama literária do pai do Sadismo?
É muito conhecida, até em várias traduções, a obra em que o crítico italiano Mário Paz estudou as correntes de ateísmo, diabolismo etc. no romantismo europeu, especialmente no francês. Mas por volta de 1850, os não-românticos Rétif e Laclos estavam esquecidos. Consideráva-se Sade como grande satanista. É palavra que, com razão, não se usa mais. Mas tampouco se usa o conceito. O que ontem passava satânico, é hoje exaltado como místico. Os "sadianos"(é necessário o neologismo para não confundí-los com sádicos) elevaram seu santo para o autar da "liberdade absoluta". E por mais que repugne certo palavrório místico-filosófico em torno de Sade, não se pode negar que a "liberdade absoluta" de Sade á coisa muito séria.
Resta escrever uma história do ateísmo europeu. Seria livro menos volumoso que se pensa. Muitos dos ateus anatemizados do passado seriam hoje panteístas; como Spinoza. Outros foram budistas disfarçados como Schopenhauer, ou mesmo cristãos às avessas como Nietzsche. Não é a negação de Deus que faz o ateu. Existe uma definição, a melhor do ateísmo que exclui ateus idealistas(como Fichte), ou ateus pan-logistas(como Hegel) e até os ateus por paixão de justiça, como Marx. A definição é do próprio mestre de Marx: Ludwing Feuerbach; e diz: "Só aquele é verdadeiro ateu para o qual não significam nada os atributos próprios da divindade, a Onipotência, a Sabedoria, a Justiça, a Bondade, o Amor; não é ateu aquele para o qual não significa nada só o sujeito desses atributos". Esse falso ateu ele atribui-os a um outro ser qualquer, digamos o Homem ou Estado ou à História e adora o Homem, caso da Sabedoria, o Estado, instrumento da Justiça, ou a História onipotente, como se fossem Deus; não é ateu autêntico. Conforme essas definições, é Sade um dos raros ateus autênticos. Negou Deus e um dos principais atributos de Deus: o Amor. É propriamente o destruidor da religião do Amor.
Estava especialmente autorizado apara tanto. O autor de Justine e Juliette era descendente do sieur Hugo de Sade, nobre provençal que viveu no século XIV, casado com Laura de Noves: Laura, bitetravó do marquês de Sade; Laura, a "amada imortal" de Patrarca, pai de toda a literatura amorosa e da própria religião do amor poético.
Sade destruiu o mito de Laura e Patrarca. Demonstrou que o amor é sinônimo de egoísmo e que amor radical é egoísmo radical e que a conclusão última do egoísmo radical é a destruição do outro, de todos os outros, destruição que é a expressão da literatura da liberdade absoluta do Destruidor. O culto, a religião dessa liberdade Absoluta leva modestamente o nome de sadismo.
Quem já leu pelo menos algumas páginas de Sade, sabe que sua maneira de praticar sua religião não se parece com o sadismo comum. Em Sade, as orgias sexuais são requintadas de vítimas escolhidas e com mortandade em massa de comparsas. Teoricamente, a liberdade Absoluta de Sade poderia ser uma variante da liberdade existencialista; e pelo Boulevard At. Grermain reentreou Sade, em 1945, na atualidade literária. Mas praticamente o sadismo radical de Sade parece a todos não-sádicos expresssão de loucura. Não se diz isso para desprezar ou insultar. Só se pensa no fato que Sade passou mais da metade da vida em manicômios judiciais, onde ficou preso, mas menos como inimigo da moralidade pública e, sim, por ter torturado e assassinado moças. O manicômio seria lugar conveniente para comemorar o sesquicentenário da morte de Sade. É o que fez o dramaturgo alemão Peter Weiss, em peça cuja representação berlinense, em maio desse ano, fez sensação.
A peça, que também já existe impressa chamará a atenção do mundo. Esse Peter Weiss é dramaturgo de extraordinária força inventiva. A elementos de Brecht, de Ionesco e do expressionismo soube acrescentar um frisson autenticamente pirandelliano. Mas é originalíssimo e, pelo anti-realismo do estilo dramático, moderno up to date. No entanto o título da peça é longo e pomposo como o de uma tragédia histórica barroca: "A perseguição e assassinato de Jean-Paul Marat, representado pela companhia teatral do manicômio de Charenton, sob a direção de sieur de Sade".
Afirma a lenda, álias duvidosa, que Sade, quando em Cherenton, último manicômio em que esteve preso, teria escrito peças de teatro. Weiss imagina que uma dessas peças tivesse comemorado um acontecimento histórico bem ao gosto de Sade: o assassinato do tribuno revolucionário Marat, em 1793, na sua banheira, pela heróica Charlotte Condey. Quinze anos depois, os loucos encerrados em Charenton representam na grande sala de banheiros da casa a peça que Sade escreveu sobre aquele acontecimento, representação dirigida pelo próprio Sade. Teatro no teatro. Na platéia dentro do palco, o diretor do estabelecimento, Dr. Coulmier, outros médicos, outros loucos. Um speaker anuncia, gritando, as cenas e comenta o enredo. Não há um coro como na tragédia grega mas dois coros: um Chorus mysticus e um coro de quatro palhaços que representam o povo parisiense. Os atores, empolgados pelos seus papéis, têm de vez em quando acessos de loucura furiosa, e então o Dr. Coulmier dá aos enfermeiros sinal para dominá-los. Cena culminante é um diálogo filosófico entre Sade e Marat. Depois do assassinato do tribuno aparece Bonaparte, como Anjo de morte, e todos saem atrás dele em ritmo de marcha. É a História.
É uma peça estranha como não há outra igual: o realismo cru e visões oníricas, danças e pantomimas dos loucos, gíria ordinária, frases altamente poéticas e o grande diálogo filosófico em que Marat defende a revolução, ao passo que Sade não acredita em revoluções: não libertam realmente ninguém; matam, sim mas enfim terminam e as matanças acabam e para que foi bom? Para Sade, o ponto mais alto da revolução francesa foi o assassinato de Marat, não porque Marat foi vítima, mas porque ele é assassinado sem motivo imediato e em circunstâncias tão extraordinárias, na banheira que inspiram a imaginação do marquês: lembra como em 1744 foi em Paris executado Damiens, que tinha feito um atentado contra a pessoa sagrada do rei Luis XV; execução em praça pública perante uma multidão que acompanhou estarrecida e (talvez deliciada) a tortura inefável - Damiens foi esquartejado vivo.
Estabelecer uma relação entre a doutrina de Sade e o caso de Damiens (Otto Flake, em livro sobre Sade, já o lembrou também há 40 anos atrás) parece-me idéia feliz e profunda do dramaturgo Peter Weiss: colocou Sade no seu momento histórico. Pensemos no século XVIII como na época em que foi, nos países principais da Europa, abolida a tortura judicial e em que Beccaria começou a luta contra a pena capital. Mas o séc. XVIII também é a época de execuções, com torturas requintadas, em praça pública. Inventou a guilhotina. E Sade restabeleceu, pelo menos para seu uso particular, a tortura. É homem de seu tempo mas não da época da revolução quando Sade tinha já 49 anos de idade. É contemporâneo de Casanova, libertin como ele, mas não um aventureiro, como o veneziano, e sim um grande senhor aristocrático; um daqueles aristocratas aos quais a França do Ancien Régime tudo parecia lícito e impunemente permitido. As vítimas de Sade não eram aquelas mulheres licensiosas que teriam participado dos seus prazeres. Eram moças pobre, do povo e foram remuneradas a servirem aos desejos do marquês; mas no momento em recebiam o dinheiro ignoravam que sairiam do bordoir do marquês multiladas ou mortas. Por esses "casos", a famosa affaire de Marseille e outras semelhantes, Sade foi tantas vezes preso, e em uma carta ao Garde des Sceaux ele se queixa amargamente: ele, um homem da nobreza, preso durante anos, pour une poutaine.
Na mesma carta anuncia ao dignatário do Reino uma vingança histórica: un jour de la liberté. Mas quando a Revolução veio não tratou de forma melhor - pour une poutaine - o defensor da liberdade Absoluta. Nenhum regime teve uso para ele: passou mais que metade da vida em prisões e manicômios, sob Luís XVI, sob a Gironde, sob Robespierre e sob Napoleão, que no entanto também eram especialistas em derramar sangue. A vida e a obra de Sade são a atualidade entre a tortura judicial e a execução de Damiens, de um lado e, por outro lado, a guilhotina e as primeiras guerras do século XIX. E essa atualidade não é histórica. Ainda não acabou. Mais viva e pungente que a atualidade literária de Sade é esta outra: Auschwitz e Belsen, os tiros na nuca na prisão de Luianka, os comunistas chineses queixosos em locomotivas da China de 1972(testemunha Malraux), as execuções de Katin e as de Via Ardeatina(Roma, città aperta) e o garote vil na Espanha e os torturados da Argélia, e aos devotos do marquês de Sade se pede: menos atualidade.
publicado no Correio da Manhã, em 10/04/1967.
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