terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Quantos copos o terremoto quebrou - Olavo de Carvalho

Para ir adiante no estado de filosofia, o sujeito precisa ter tolerância para com o estado de dúvida. Esta tolerância é alimentada numa espécie de fé que nós temos. Fé, que é baseada na experiência, de que a impressão de caos que você está tendo é passageira. Lembrar que o caos está em você, na sua mente e não na ordem da realidade.  A segunda  guerra mundial, por exemplo, durou 5 anos, matouno total 40 milhões de pessoas. Mas e as outras pessoas? O que estavam fazendo? Será que a vida cotidiana parou? As pessoas não tomavam mais banho, não comiam, não conversavam, não namoravam? Não iam à praia? Será que isto não acontecia? Mesmo dentro de uma situação de caos histórico-social extremo, a ordem profusa continua lá. O número de pessoas que é afetado diretamente pela situação de caos, as vítimas diretas são em número pequeno se você tomar a totalidade da população envolvida. Teve um terremoto no Chile.  Quantos copos o terremoto quebrou? E quantos copos existem no Chile? A experiência humana do mundo real é
experiência de uma profunda estabilidade que se prolonga no tempo e de uma sucessão imensa de
processos e transformações absolutamente pacíficos: o crescimento de uma árvore, o germinar de uma planta, o crescimento do feto na barriga da mãe, a lenta acumulação de bens pelo trabalho, o seu próprio crescimento, o desenvolvimento humano,os movimentos dos planetas no céu, os processos de erosão que estãoalisando as montanhas, mudando o perfil das pedras. São processos lentíssimos. Este é o fundo da nossa experiência. O ato mais elementar de percepção, ao qual me referi no começo, de captar um ente singular e apreender nele a forma inteira da espécie que se manifesta integralmente nele - embora não revelando toda suas potencialidades e variação – revela uma estabilidade real. Mesmo que você seja um evolucionista radical, terá de concordar que se as espécies mudam, elas levam um tempo desgraçado para fazer isso.  Não dá para ser evolucionista sem reconhecer espécies. Se não há espécies, não há evolução das espécies. Você pode tentar me provar que uma lagartixa virou um orangotango, mas é porque você sabe o que é uma lagartixa e o que é um orangotango. Portanto, o tempo de duração das espécies não muda o que eu estou falando, e o tempo de duração do universo, também não afeta em nada o que estou falando. Nós temos o senso do caos, da desordem do susto, do espanto; porque nós vivemos num mundo que é feito de processos regulares e lentos e entre-mesclados de tal maneira que um não atrapalha o outro. Não é incrível? Porque veja se olhar pra cima os planetas estão girando em torno do sol, fazendo isso há um tempão e ao mesmo tempo aqui as árvores estão crescendo, os ventos sopram, os rios correm; é porque nós vivemos num fundo de estabilidade móvel. Se fosse uma coisa totalmente parada nós não poderíamos chamar de estabilidade, porque se nada acontece você nada percebe. Se não há alteração, não há percepção. Então nós vivemos num mundo que é feito de alterações. E estas alterações são lentas, por assim dizer, orgânicas.

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