Embora não pareça à primeira vista, este é um campo altamente controverso e sua compreensão trará à luz, como veremos, um tema inusitado.
O texto que inspirou este post se encontra na obra prima de Chaim Perelman "O novo tratado da argumentação". No livro, Perelman dedica um capítulo sobre a questão da diferença entre educação e propaganda à guisa de aplicação de sua teoria da argumentação. Uma das notas diferenciadoras entre os dois é o prestigio social do educador em seu meio(um pastor para o evangélico, um general para os militares etc..). Mas isso não é suficiente, diz ele, pois embora educador e propagandista sejam retores(retórico é o estudioso da retórica), o educador utiliza um tipo especial de retórica, a saber, o discurso epidíctico do vocabulário Aristotélico.
Nele, o retor tenta aumentar o grau de persuasão de uma tese já aceita pela sociedade a que o público pertence sendo requerido prestígio social, pois a tese deve aceita "quia magister dixit". Ademais, há a necessidade não só de inocular os valores nos que acabaram de entrar na sociedade como também de incutir força nas convicções já aceitas por ela para gerar ações, pois como é sabido, a persuasão retórica visa à ações.
Tem função retórica epidíctica os dias cívicos, paradas militares, ritos religiosos, e a educação strictu sensu de nossas escolas etc, (percepção similar aliás a que Platão bota na boca de Protágoras em diálogo homônimo) e são retores e educadores os representantes e atores dos atos acima. São propaganda a pregação cristão em países não cristãos e vice-versa, e doutrinação ateísta em escolas cristãs e vice-versa etc. É cada um no seu quadrado.
Nada contra a propaganda, desse modo exposta. é até saudável para implementar melhorias nas crenças de ambos os lados. O problema é, evidentemente, quando o propagandista posa de educador do grupo alheio. Mas deixemos isso de lado.
Contudo, a resposta de Perelman ainda me parece incompleta. Usemos mais uma vez o bom e velho Aristóteles: quais seriam as quatro causas da educação?
É necessário que haja o educador e o educado, sendo preciso algo que os ligue, i.e., o prestígio social aludido em parágrafo anterior e que será a causa material. A formal é o discurso epidíctico de Aristóteles e ampliado por Perelman até adquirir as mil facetas acima descritas. Até aí tudo bem, mas e as outras duas?
Sabemos também que a forma ou idéia é uma constante de proporcionalidade disposta por uma intenção finalística. A intenção finalística é a causa eficiente. Podemos perguntar quem estrutura e cria o cargo de educador ou professor dando a ele prestigio e os meios de discurso no sentido de Perelman? A sociedade, claro. Toda sociedade que alcança certo nível de civilização cria meios próprios de educação.
Falta ainda o fim da "intenção finalística", a contraparte da causa eficiente que é a causa final. Mas qual será ela?
Um estudo sobre isso está na "República" de Platão. Não nos deteremos nos detalhes mas saibamos logo que para que a sociedade exista e não seja um bando é necessário que haja a incorporação da idéia de Bem(v. A decisão do Bem). E é o que vemos documentado na história que todo povo em algum momento tem um contato com o divino e a cultura, sociedade, costumes, instituições, religião, arte, filosofia e, em suma todo o universo humano servem para salva-guardar a lembrança desses momentos.
Chegamos a definição de educador: é aquele que alcança ou conserva a idéia de Bem transmitindo a outros de modo a construir ou manter a sociedade, por vias discursivas e linguísticas criadas por ele ou por outros, em condições sociais criadas ou pré-existentes.
Assim podemos ver que o verdadeiro problema que é o da conservação e corrupção da sociedade. Sobre nós ainda pesa o problema da acusação de Socrates: "acusado de corromper os jovens da pólis". Mesmo com a definição em mãos é difícil diferenciar o joio do trigo no caso real. Ou melhor, é impossível se se tentar usar critérios não valorativos como os de Perelman.
Fui perguntado numa discussão com um professor universitário de filosofia o porque de minha dura crítica a filósofos do seu gosto e que isto não poderia ser usado sendo sempre necessária a resposta polida. Respondi-lhe com citações de Homero, Platão, Jesus Cristo e os profetas mostrando que a crítica ríspida DEVE ser usada em certas ocasiões e era o que estava fazendo. Ele disse que isso estava fora das tradições, mas eu perguntei, ao que ele não teve resposta, a que tradições ele se referia. Logo a diferenciação é simples desde que se tenha uma educação liberal e se conheça bem os clássicos.
Percebamos também a insuficiência da definição de Perelman em que o educador exprime "teses já aceitas pelo público e pela sociedade", pois, a doxa, a opinião falsa, também está entre elas. E fica claro porque muitos dos alunos de Perelman caíram na adoração do reinado da propaganda e relativismo cínico. Não, a luta entre Protágoras e Sócrates ainda continua através dos séculos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário