1- Linguagem e matemática
O grande mestre moderno da retórica, Chaim Perelman, pode ter caído em exageros às vezes mas sua interpretação do caos moderno é acertadíssima. Quando digo "caos" não o faço para causar frisson nem nada do tipo mas me refiro ao seu significado etimológico que é abismo. Há um abismo entre nossas classes científicas e o resto do povo.
O abismo foi aberto pelos próprios pés da classe científica com o advento da lógica moderna. O lógico pode elaborar como lhe aprouver a linguagem de seu sistema e determinar os signos e as combinações a ser utilizadas. Mesmo os axiomas, que são os princípios não provados de um sistema, graças à axiomática moderna chamada convencionalista, podem ser escolhidos ao gosto do freguês. Tudo isso é aceito desde que se respeitem os requisitos de coerência intrínseca e de que se evitem ambiguidades.
O sonho da ciência moderna é aquele a que se refere José Ingenieros em seu "O homem medíocre", a completa separação entre filósofos e cientistas com uma lingua exata e unívoca vivendo no mundo dos sonhos e os poetas e outros com o monopólio da linguagem figurada. Hoje já sentimos os efeitos da separação e as consequências são devastadoras.
2- Ciência antiga
Mas nem sempre foi assim, embora os cientistas não fossem mais compreendidos pelos homens comuns do que são hoje, eles pelo menos eram entendidos pelos seu pares. O fator especialização nem sempre foi forte como hodiernamente, nenhuma ciência antiga poderia ser aprendida sozinha, elas não eram autônomas. Não se apreendia uma ciência sem conhecer suas ciências mães e pelo menos dar umas espiadinhas nas ciências irmãs. Não posso deixar de culpar a excesiva especialização que causou a desconexão com as outras ciências e a deformização das próprias ciências.
A análise que vamos fazer não tentará reconstruir a imagem das antigas ciências e da metafísica e cosmologia que às embasavam para dar um novo sentido à ciência, antes, faremos o caminho inverso e tomando um ponto de vista moderno examinaremos uma ciência antiga e tentaremos chegar na metafísica que a insuflava vida. Tomaremos o edifício da geometria euclidiana e partindo de um ponto de vista moderno partiremos do particular até chegarmos a Deus. "Do inferno, passando pelo purgatório rumo ao céu", e Granger será nosso guia.
3- Granger e a filosofia do estilo
Expusemos no post anterior as bases da filosofia do estilo de Granger e então diremos poucas palavras a respeito. Granger define estilo como "modalidade de integração do individual num processo concreto que é o trabalho", isto é, quando Euclides faz geometria ele não está só atualizando a ciência que estava em potência em sua cabeça, ele também está atualizando dentro de si a consciência real ou fictícia de todo o kosmos e sua parte nele. Então não há uma geometria euclidiana, cartesiana etc, etc, etc mas uma geometria só, cujo conhecimento pode ser ampliado ou minorado pelo estilo que o geometra tenha. O estilo, ou redundância, é um modo de apresentar os conceitos, de encadeá-los, dar-lhes unidade e; de outro lado determinar a "carga intuitiva dos conceitos". Em suma, saber quando falar e quando calar.
Obviamente não nos referimos a uma espécie de habilidade ou prudência pessoal, mas esse estilo está estritamente relacionado à cosmologia do geômetra. Um sistema matemático deve ser a interface entre o objeto formal que é a actualização da matemática e o sistema dos atos concretos que constituem as relações dos homens entre si e com o mundo. Michel Chasles, na citação do Granger, diz: "O estilo liga-se tão intimamente com o espírito dos métodos que deve caminhar com eles, do mesmo modo que deve, se tomar a dianteira, influenciá-los poderosamente e nos progressos gerais da ciência".
4- Euclides
Uma primeira exigência se impõe a nossa tarefa, a de saber quais das numerosas cosmologias e filosofias teria Euclides e sua obra participado. Pois, com efeito, várias haviam, embora seja clara a origem helênica da obra resta-nos saber qual filosofia será desvelada ao fim de nossa analise. Então, para ganharmos fonte de comparação faremos uma análise histórica paralela à estilística.
Não se sabe muito da vida de Euclides exceto que atingiu seu acúmen em 300 a. C. e de sua resposta ao rei Ptolomeu. O rei teria lhe pedido um caminho mais curto que os Elementos para a geometria ao que Euclides respondeu: "não há caminho real para a geometria". Ambos os fatos medeiam entre os primeiros discípulos de Platão e sendo Atenas o mais importante centro de matemática até então, não é errado imaginar que Euclides teria recebido dos primeiros discipulos de Platão seu treinamento.
Mas não precisamos imaginar muito pois no Catálogo dos geômetras de Proclo está escrito: "E não muito mais jovem que esses é Euclides, o que reuniu os Elementos, tendo também, por um lado, arranjado muitas coisas de Eudoxo, e, por outro, aperfeiçoado muitas de Teeteto(sim, o do diálogo), e ainda tendo conduzido as coisas demonstradas frouxamente pelos predecessores a demonstrações irrefutáveis". Vale dizer que tanto Eudoxo quanto Teeteto fizeram parte da Academia de Platão.

5- Os problemas
Tomando posse desse dado histórico e também da continuação da escola pitagórica na platônica, podemos nos perguntar como foi solucionado o "terror" dos pitagóricos? Tendo Pitágoras dito ser o Um o princípio e a medida de tudo e também demonstrado seu teorema ocorreu-lhe que tomando um triângulo de lados iguais sua hipotenusa não é medida pelo um, ou seja, é um número racional. Pitágoras descobriu os números racionais e acabou com a própria filosofia. Mas será isso mesmo ou como dirá nosso Mário, "o pitagorismo é a corrente filosófica mais difamada"? De qualquer forma se ele incorre nesse erro também o faz Euclides quando diz que número é "multidão composta de unidade".
Mas não é só isso. Há de se tentar ajustar o sistema de números à noção de ser geométrico linear ou superficial. O que não é problema de menos, pois, embora o problema tenha sido resolvido não parecemos(por nós digo os não matemáticos) ter compreendido. Há uma aritmetização da geometria que dá a matemática um caráter altamente formal e lógico. Antes geômetra era sinônimo de régua esquadro e compasso enquanto hoje só fazemos as contas e as figuras só servem para pretexto do exercício aritmético ou algébrico. É característica do homem massa não ter idéia do esforço feito para alcançar um bem, diria Ortega y Gasset.
Enfim, o que se postula quando se diz terem os objetos uma grandeza?
6- O homem é seu estilo
Falando do estilo exterior não creio existir algum matemático que tenha desbancado nosso homem. Ele é pai do método axiomático(na verdade quem inventou foi Aristóteles mas ocorre que ele nunca o usou) onde partindo de axiomas e noções comuns pode se construir uma série concatenda de proposições. Além disso, há uma espécie de ritual da demonstração que sempre é cumprido onde cada ciclo de demonstração dá origem a inferências que dão origem a novos ciclos.
Começa com a proposição que indica o que é dado no problema e o que é procurado para depois os dados serem designados por simbolos. Por conseguinte se diz o que falta aos dados para descobrir o que se procura. A demonstração estabelece as inferências que decorrem da conclusão e que serão dados para outras proposições e o ciclo é fechado iniciando com um novo problema.
Já falamos do método axiomático de Euclides mas é interessante notar que essa estrutura lógica é preenchida com conteúdo dialético. As figuras geométricas ainda não são totalmente abstraídas em razão de uma aritmética e são tratadas quase como objetos sensíveis. Muitas das proposições tem como fim a construção de figuras, elas são também sobrepostas, transferíveis e por assim dizer tangíveis. A semelhança com o modo dialético Socrático é conspícua e pode-se mesmo encontrar nos diálogos platônicos vários exemplos de demonstrações geométricas a ponto de dizer que as matemáticas e medicina são guias à filosofia. Tanto na dialética platônica quanto na geometria o guia do discurso está disposto a fazer seu interlocutor "ver" a verdade, é a dialética apofântica no dizer de Mário Ferreira. Granger que me parece ter mais bases no kantismo e uma base não muito boa na filosofia clássica tenta exprimir isso ao dizer acertadamente que "a maneira euclidiana consiste em dominar a intuição, em lhe explicitar as evidências, em dar um estatuto às mesmas". Euclides é o guia das intuições.
A filosofia clássica pode se fazer sentir em quase todos os níveis do edifício de nosso matemático, desde a polêmica definição de ponto(sobre isso recomendo a imbatível apostila do Olavo de Carvalho, "Sobre o simbolismo geométrico") até seu ápice conceitual na teoria das medidas.
7- Álgebra geométrica
O que causa espanto aos olhos do leitor moderno é que se permita, na "mais exata das ciências", encontrar algo como a noção comum IV: "coisas(figuras) que coincidem são iguais". Isto é, transportando as figuras de mesma forma e sobrepondo-as pode se postular a igualdade das mesmas. Claro que nisso há um forte toque de intuição geométrica, o que é bom, mas a equivalência entre congruência e igualdade estaria restringindo a extensão desse último que só seria predicado entre figuras iguais.
O percalço somente é superado na proposição 35 do livro I onde, sem nenhuma indicação explícita do autor(eu mesmo fiz o bendito exercício umas três vezes até perceber), o conceito de igualdade geométrica tem sua zona de predicação aumentada. Duas grandezas podem ser iguais independente de sua morfologia.
O teorema 35 diz que: "parelelogramos que têm a mesma base e estão compreendidos entre as mesma paralelas são iguais entre si". Euclides faz coincidir dois triângulos, ABE e DCF, por sobreposição e suprime a mesma superfície BGC deles e diz serem os dois paralelogramos iguais, sendo que, agora tacitamente, em sentido abstrato.

É importante notar que todos os procedimentos aparecem como transformação de figuras e manipulação de áreas. As áreas das superfícies não são construidas como composição de seus comprimentos como fazemos hoje. Ao enunciar o teorema de pitágoras dizemos ser o quadrado da hipotenusa igual a soma dos quadrados dos catetos. Euclides enunciaria serem a soma de quadrados construidos sobre as bases de um triângulo retângulo iguais ao quadrado construído sobre a hipotenusa. Sim, é a mesma coisa mas é isso que quero dizer quando falo de estilo, o Euclides tinha todas as bases para proceder da maneira que fazemos hoje como podemos ver nos seus livros aritméticos mas ele não poderia fazer isso sem uma teoria da medida. Assim no livro dois Euclides cria uma álgebra geométrica que causa espanto dado seu caráter redundante com as regras mais elementares do cálculo. As figuras aqui se tornam uma espécie de ferramenta para o cálculo o que dá uma impressão de que o procedimento é de todo fútil. Mas isso só demonstra o caráter insuficientemente abstrato da noção de grandeza usada até então. Parece que Euclides não quer misturar seus escritos aritméticos com sua algebra geométrica e deixar totalmente estanque a distinção aristotélica entre quantidade contínua e contígua.

8- Teoria da Medida
Estamos em pleno processo de abstração e as grandezas antes manejáveis e quase físicas são consideradas como instrumento de cálculo, sendo que os números não apareciam e Euclides parece se recusar a usá-los. Há ainda o problema dos números racionais que não foi solucionado.
No livro VII, porém, a coisa muda com a definição de grandeza: "uma grandeza é parte alíquota de uma outra grandeza, se a menor mede a maior, isto é, se ela está contida um NÚMERO EXATO de vezes". E Euclides evita qualquer ambiguidade pois ele opõe parte alíquota à "partes", já no plural para indicar que este último não mede a grandeza de modo exato. Só é uma grandeza se for proporcional(logos) à outra, se lhe for um múltiplo. O próprio adjetivo múltiplo remete à mesma idéia de iteração de uma grandeza determinado número de vezes. Euclides reduz a intuição aos limites de um esquema operatório que é a de múltiplo de uma grandeza, que combina esta última com o número inteiro. Isso se dá em três tempos:
i) abstração qualitativa - trata de encontrar um critério, uma pedra de medida e lhe denominar como o um;
ii) condição de possibilidade(necessária e suficiente) da existência de uma relação: quando encontrar um múltiplo da outra que a ultrapasse. Aqui podemos ter duas situações, uma positiva e outra negativa, pois pode-se ou não haver comensurabilidade. Como no caso do infinito em que não há comensurabilidade alguma;
iii) igualdade das relações - a relação entre os duas grandezas não-inteiras tiver igual relação com as grandezas inteiras, isto é, igualdade de relações que se pode expressar assim: sejam dois pares de grandeza; a, b e c, d. As relações a/b e c/d são iguais se, quaisquer que sejam os inteiros p e q, p x a é superior, igual, ou menor que p x b se e somente se p x c é superior, igual ou menor que p x d.
Para Euclides o logos de duas grandezas é um número inteiro. Um número inteiro é a medida de uma grandeza em relação a uma outra grandeza tomada como unidade. Como salientou Granger: "É seguindo a insistência ou não sobre as propriedades intrínsecas da grandeza, unidade escolhida, que a relação será assimilada ao número(racional) medindo uma grandeza será identificada ao número(inteiro) de unidades que mede."
9- Às portas da Álgebra
Mas a unificação não vale somente para os objetos geométricos como vimos mas também para o objeto da aritmética. Para notar isso basta olharmos a definição de número dada por Euclides: uma multiplicidade composta de unidades. É de conhecimento geral a algebra ter sido descoberta pelos Árabes na Pérsia. Mas não se pode negar que Euclides deu todas as condições para a descoberta, e seus pressupostos podem ser todos encontrados nos Elementos. Na verdade quando a academia platônica teve seu fim por meio de decreto é para a Pérsia que foram os remanescentes.
10- Deus
Granger escreve: "a unidade é tomada aqui em sua indeterminação de medida minimal o número da aritmética é o resultado da operação de repetição do número intuitivo que é base da noção de medida. Percebe-se a razão de Euclides não sinta necessidade de precisar que o número é uma grandeza; ele é a grandeza por excelência". Aqui de fato está a raiz do aspecto educativo da geometria a ponto de Platão por na entrada de sua academia o "Não entre quem não for geômetra". Percebemos o dano irreversível causado ao neófito pelo contato direto com os números, pois ele é privado de experimentar as sucessivas fases de abstração para chegar ao logos das figuras. Podemos entender a crítica platônica à Protagoras por este não ter treinamento em geometria, sem isso é muito fácil cair em banalidades do tipo o homem é a medida. Medida, sendo termo propriamente matemático, foi posteriormente usada como idéia tendo sido o processo matemático para achar o logos aplicado a coisas da física e, por sua vez a idéia foi unificada pelo mesmo processo no descobrimento do Uno, Deus. A geometria nos ajuda a perceber que Deus é a medida de todas as coisas.