A história da teoria da evolução desde seu ápice Darwiniano e apesar da atenção que recebe de seus admiradores e críticos não me parece ter passado por uma séria análise dialética. Pode-se mesmo dizer que a história da teoria da evolução e de um modo mais geral a questão da origem das espécies é uma luta de gigantes. São dois gigantes cegos, a nessecidade e o espontâneo.
Principio basilar da teoria da evolução é a seleção natural onde a necessidade aperfeiçoa os seres e os que não se adaptassem ao meio não sobreviveriam. Certo, se assim se explica como as espécies mudam não se explica como elas nascem. Antes mesmo de Darwin se explicou isso pela famosa tese "derivada" de Aristóteles, a geração espontânea. Nessa tese os seres, em parte, surgem a partir do "princípio ativo" em que o fator espontâneo é enfatizado e em parte por reprodução. Posteriormente se refuta essa tese e se afirma que o mecanismo de transformação das espécies era todinho a partir da adaptação das espécies ao meio e houve somente no início algo como a geração espontânea. Variações das duas teses abundam e pode-se sem erro dizer que a história da tese evolucionária pode ser contada como uma escala em que há uma variação destes dois termos sem nenhum conseguir suprimir totalmente o outro.
Agora, a necessidade em si não pode criar nada, é antes condição para que as coisas se criem. A condição é necessária não pode se confundir com a suficiente. Nenhum cientista disse que a vida teve necessariamente que surgir, ou que em um dado momento que uma espécie teve que evoluir sem mais. Antes dizem que as espécies mudam por tal ou qual variação no meio ambiente que fez uma espécie mudar ou mesmo surgirem. Para entendermos necessidade um exemplo: para um segmento de reta ser tal ele tem que, quando fizer parte de um triângulo, fazer com que a soma de seus ângulos internos seja 180 e a soma das dos quadrados 360. Isso está na definição dele? não. Agora, se isso não for verdadeiro uma reta não é uma reta ou seja é impossível exprimir todo o conjunto de necessidades mesmo de uma formiga e mesmo que para isso se gaste toda sua vida. Isso é o círculo de latência segundo Olavo de Carvalho, o conjunto de necessidades e relações de um objeto, isso é o que aristóteles chamava de necessidade.
Não se pode negar que os adeptos da geração espontânea tem em sua tese um trunfo maior do que eles mesmos crêem. Pois a evolução é geração espontânea. Ou a mudança climática que fez o pássaro mudar de bico ocorreu para que isso acontecesse? Ou o planeta primitivo teve que se adaptar para a criação da primeira ameba? Eles assumem que tudo isso ocorreu espontâneamente e que as espécies tiveram que se adaptar a isso. Agora é humanamente impossível ter em mente toda possível causa que determine uma mutação, pode ser em nível micro atômico, celular etc. E por isso tantas alterações e tantas contradições, mas isso advém da aceitação do modelo científico desde Galileu o que transforma a ciência de um conhecimento apodítico a meras opiniões.
O que é o modelo científico? pois bem, no modelo se concebe um tipo de universo fechado em que o cientista acha que pode controlar tudo. É O "plano inclinado sem atrito" ou algo no "completo vácuo". Mas ocorre que o cientista acha que controla tudo mas sempre há a chance de ele não ter todas as variáveis em mente como ocorreu no caso do Newton. Muito mais coisa entrava no modelo dele do que ele sabia como bem provou o Einstein. Mas a maior prova disso os evolucionistas dão: "Ah não! mas o Darwin não sabia da genética" ou "agora o mais razoável é a geração espontânea". Quer dizer, a ciência moderna e não somente a biologia não são explicações ou conhecimento, são meras opiniões sobre o assunto. Aqui já se vê o problema da teoria da evolução. Não é que é falsa é que não explica nada, não é ciência. Evolução é enrolação pomposa.
Explicar uma coisa é dizer de que propiedade todas as outras propriedades do ente dependem e é claro que aqui me refiro a causa mais próxima. A noção de explicação ou causa pode ser entendida em estrutura triádica que coincide com os três termos de um silogismo. O explanandum é a conclusão: a presença da propriedade A no sujeito C. Exemplifico: Todo homem é mortal; Sócrates é mortal; logo Sócrates é homem. A mortalidade de Sócrates é explicada por sua humanidade. Assim a biologia antiga e presente SEMPRE explicou assim o homem e suas caracteristicas como por exemplo a semelhança de seus ossos com as do chimpanzé é por causa de que os dois são primatas. A biologia se baseia nos sentidos? Sim. É empirica? sim. E no entanto é apodítica. Agora o sujeitinho vem explicar a semelhança do homem e chimpanzé por um ancestral comum é abaixar o nível.
Toda ciência está em um quadro metafísico determinado seja ele platônico, aristotélico, kantiano, Comteano e assim vai. Ora, quais os pressupostos metafísicos da teoria da evolução? não é uma pergunta apropriada? Vamos aplicar o método do paragrafo anterior aqui, Queremos saber a propriedade de que dependem as outras propriedades da girafa. Porque a girafa tem um longo pescoço? porque é girafa? Não. Porque em um dado momento histórico do qual "Sobrevivendo apenas os portadores da mutação que os permitiu sobreviver à adversidade natural, serão passados adiante os genes desta mutação, portanto, as gerações seguintes a carregarão." Isso para Darwin é explicar uma girafa. Quer dizer a evolução é uma evolução das propriedades. Um dia nascerá um "homo superus" que não morrera e se perguntarem a causa da sua imortalidade responderão que ele era homo sapiens e por tal razão ele virou "homo superus". Ora, as propriedades não sobrevivem sem um subjacente tal como sua cor não existiria sem seu corpo. Então Darwin supôs um subjacente que é a natureza. É SOMENTE sobre essa base metafísica que se pode entender a evoluçao como uma explicação. E por isso se percebe que mesmo após a física provar a invalidade do modelo científico os biólogos ainda acreditam na total veracidade do evolucionismo. Eles pensam isso por ter uma base metafísica diversa da dos físicos. Por fim, ouçamos da voz do próprio Darwin:
"Man can act only on external and visible characters: nature cares nothing for appearances, except in so far as they may be useful to any being. She can act on every internal organ, on every shade of constitutional difference, on the whole machinery of life. Man selects only for his own good; Nature only for that of the being which she tends. . . . It may be said that natural selection is daily and hourly scrutinizing, throughout the world, every variation, even the slightest; rejecting that which is bad, preserving and adding up all that is good; silently and insensibly working whenever and wherever opportunity offers, as the improvements of each organic being in relation to its organic and inorganic conditions of life."
Charles Darwin, On the Origin of Species (London: Murray, 1859), pp. 83-84
Mas então de que modo a biologia pode se validar? De modo algum se pode dispensar a adaptação dos seres físicos. Para que se seja ser é necessário passar pelo crivo Platônico da polaridade do Ser e isso vale para todo o ser, inclusive os físicos. O ser é produto de dois princípios e é uma síntese de unidade e multiplicidade e de determinado e indeterminado. Assim nada é algo se não é "um" algo, mas isso só acontece se ele participa da unidade e de seu oposto. Eu sou homem e a negação do não-homem, me defino pelo que sou e pelo oposto de tudo que não sou. O que é adaptação? é uma relação adequada entre os elementos de um sistema complexo de um lado, e o meio ambiente (o outro) do outro. Algo só é se suas partes constituintes permaneçam exata e estreitamente ligadas entre si e com as condições exteriores que é exatamente a idéia de justiça para Platão. Sendo que ele não aplicou isso para os seres físicos tarefa que coube ao magnânimo Aristóteles.
Mas se a evolução nos desaponta como ciência ela e a teoria do big bang são como mitos fundadores de nossa era. Não posso aqui dar uma análise cultural do caso mas a coisa se esclarece se percebemos que Darwin durante a famosíssima viagem no Beagle estava completamente absorto na leitura de Humboldt e de poetas do romantismo alemão e como para estes vigorava a máxima de Spinoza "Deus sive natura" - Deus é o mesmo que a natureza - é natural que Darwin tivesse os mesmos pensamentos. É como se cada ser, cada espécie e entidade natural fosse órgão de um só corpo e a evolução é como diversas mudanças naturais dentro da mesma idéia. No fim, para Darwin, a mudança climática ocorreu para que o bico do passarinho mudasse e as condições climáticas da terra primitiva ocorreram para a criação da vida.
Agora, a ciência e o mito esbarram em um ponto, mesmo que se trabalhasse em um modelo científico absolutamente correto a espontaneidade teria de ser explicada pois se algo ocorreu ao acaso é porque havia uma intenção original que deu origem espontaneamente a algo e também havia a condição material da natureza. Aqui descobrimos a necessidade da existência do fator escolha que em algum momento deveria girar as rodas da máquina da espontaneidade e da necessidade, uma Inteligência, uma alma do mundo como quiserem chamar. Agora, é claro que a natureza não é Deus pois, se ela é como um só ente que tende à um fim é porque ela teve um começo sendo em algum momento criada e direcionada ao fim. Mas de qualquer modo aí está o Deus de Darwin. Não tem jeito, se o querem livrar do ateísmo ele cai na idolatria da natureza.
Nota: Agradeço ao Rodrigo, este texto não existiria sem ele.
Nenhum comentário:
Postar um comentário