Terminei meu primeiro Dostoiewski e a leitura me pareceu maravilhosa. Tive mesmo vontade de lê-los todos ali, naquele instante. Mas isso seria palavrório vazio se não explicasse bem o caso. Comprei "o Duplo" recomendado pelo fer durante uma visita à Curitiba e trouxe para ler no navio e, ao final, senti aquela impressão somente causada pelo contato com literatura imaginativa. De início é um desconforto e, logo depois, uma vontade de entrar naquele mundo recém conhecido - aquela vontade da segunda frase. Ao final da leitura, me senti confuso, ofendido, desafiado em minha honra: eu tinha de dar uma resposta àquilo. Eu tinha um dever.
Contra mim pesa a inexperiência em literaturas que tem forte elemento psicológico. Não são minha praia. Prefiro as "literaturas pragmáticas" onde o elemento simbólico pesa mais que o alegórico e se tira com muito mais facilidade e precisão uma "lógica simbólica". Mas onde se pode efetivamente distinguir o alegórico do simbólico em um autor moderno? Mas não posso entender isso como uma justificativa e embora não preparado(o que requer, pelo menos, a leitura das obras completas), posso esboçar, a partir de meus atuais conhecimentos, um modo de entender a obra que, para fins de comparação quando ler as obras toda completas, me permita entender a contribuição do autor senão na literatura universal pelo menos na minha visão de literatura.
Problemas
Como meio interpretativo resolvi pensar em problemas que podem ser resolvidos, posto que não posso dar uma interpretação de conjunto. São todos, portanto, problemas que me vieram a mente e não, por assim dizer, uma descoberta de chave de abóboda interpretativa:
I- A cena do último baile me parece não ter lugar na realidade dos personagens, senão na do senhor Golyádkin, e, além disso, iverídica também parece ser a primeira aparição do duplo. Lembremos, no entanto, quando da aparição no trabalho que todos asseguraram a existência física do Golyádkin segundo. Onde começa e onde termina a realidade nessa história "absolutamente verídica"?
II- Qual é a função do duplo na história? E qual seu valor explicativo para que esta história seja, nas palavras do autor, "absolutamente verídica"?
III- No apêndice da edição da 34, Paulo Bezerra, diz ter sido a "falta de responsabilidade ética por suas palavras" durante a confissão com o duplo, a causa da ruína e por fim loucura de nosso herói. Honestamente, quem consegue ter essa responsabilidade em alto nível é, para mim, alguém de invejável grandeza moral. Quero dizer que ao expressarmos valores éticos estamos sempre de alguma forma sendo utópicos. Terá Dostoiewski nos passando uma lição de moral com seu livro? Qual a causa da loucura do senhor Golyádkin primeiro?
IV- É acima de qualquer dúvida que Golyádkin teve o fim trágico por não ter cumprido a ordem médica de "não se furtar a uma vida alegre; frequentar espetáculos e clubes e em todo o caso não ser inimigo da garrafa". Qual a dimensão desta sentença?
Uma explicação literária deveria ser capaz de explicar não só o todo mas também os episódios individuais e de harmonizá-los. Isso me parece fora de cogitação e a resposta aos problemas terá como resultado o alivio de minha estupefação ante essas aventuras, "a seu modo curiosas". Minhas explicações tiveram, no entanto, a feliz surpresa de descobrir o "Leitmotiv" destas aventuras, a saber, o duplo. Está de bom tamanho para um iniciante.
Golyádkin na Grécia arcaica
Se me permito uma volta à Grécia arcaica não é tanto por pensar que Dostoiewski estava pensando nisso, pois, me é claro que não, já que ele tinha em mente estudos psicológicos e de doenças mentais obtidos por fontes que são desconhecidas para mim(v. edição da 34). Faço o desvio pela Grécia por limitações pessoais já expostas e por saber ser o 'duplo' uma, nas palavras de Vernant, "categoria psicológica". A exposição seguinte tem por base o artigo de Vernant, "Figuração do invisível e categoria psicológica do duplo: o Kolossós", sobre psicologia histórica.
Foram encontradas em tumbas gregas vazias certas figuras esculpidas em forma de cubo com um apêndice que lembra um rosto masculino ou feminino. Esta mesma figura por vezes, aponta a pesquisa, era encontrada em áreas selvagens ou desérticas deseterrada. A escultura aludida se chama kolossós. É que os gregos acreditvam que na tumba ainda persistia a alma do morto em estado de repouso(donde, aliás, a expressão "descanse em paz") e que quando o morto não era enterrado propriamente(lembram o episódio de Antigona?) o referido defunto atormentava os vivos. Pois bem, quando o corpo era desaparecido se enterrava o kolosso ou o deixavam em lugar onde não pudesse fazer mal. O kolossós era, tal qual o corpo inanimado, o "duplo" do vivo.
Podemos chegar a conclusão de que o kolossós não é a imagem do vivo mas, por assim dizer, de sua vida no além; também tem a mesma função a psyché. Não entendamos essa expressão do modo que Platão e os cristãos a entendem mas no modo que Homero a entendia, como "sombra" no Hades. O kolosso e a psyquê são fenômenos da mesma instância, estão sob o mesmo signo que tem de estar por sua vez inserido num quadro de referência muito determinado. o Kolossós e a psiché entram para os gregos na mesma categoria que a aparição, a figura onírica e até estátuas sacras(o que explica o fato de os gregos, mestres das artes plásticas, não terem nome para estátua). Eles estão na categoria do duplo.
O duplo e "O Duplo"
A definição de duplo, que é o cerne de nossa interpretação da obra, é dada por Vernant da seguinte forma: "O duplo é uma coisa bem diferente da imagem. Não é um objeto "natural", mas não é um produto mental. O duplo é uma realidade exterior ao sujeito, mas que, em sua própria aparência, opõe-se pelo caráter insólito aos objetos familiares, ao cenário comum da vida. Move-se em dois planos ao mesmo tempo contrastados: no momento em que se mostra presente, revela-se como não pertencendo a este mundo, mas a um mundo inacessível" O kolossós realiza, na medida em que é um duplo, uma ligação do mundo dos mortos com os vivos; é como que a presença do outro mundo nesse mundo sob o sol.
Os senhores poderão se perguntar o porquê essa explicação tão distante de nosso mundo pós-cristão, pós-moderno, pós-pós-moderno etc, mas é que como categoria psicológica o duplo está mais perto de nós do que se pode suspeitar. Não como ponte entre o mundo divino ou infernal com o nosso mas entre mundos muito mais humanos. Por exemplo, estereótipos entram na mesma classificação. Longe de atrapalhar a comunicação, eles servem de ponte para as individualidades. O estereótipo se conhece de antemão, por exemplo, os gostos do povo alemão, e, ao compará-los com uma pessoa de verdade, se ultrapassa a barreira de cultura nacional para entrar efetivamente nas idiossincrasias individuais. O gringo comedor de chucrute é o duplo de uma pessoa real e verdadeira.
Colocando a questão dessa forma fica muito mais fácil decifrar o caso do nosso romance: o duplo é a tentativa de superar a subjetividade do sr. Golyádkin e o fracasso desta é a causa da loucura dele. Esta é minha tese. Mas objeções podem ser feitas; se nos perguntarmos sobre a causa da origem de uma alma tão hermeticamente fechada a ponto de se tornar incomunicável poderíamos tomar em consideração as observações de Voegelin sobre a segunda realidade. Contudo, se olharmos mais de perto veremos que a coisa se passa de modo um pouco diferente; Golyádkin não tem nada sequer comparável a furia demoníaca de um Raskólnikov ou com a ingenuidade anacrônica de um D. Quixote. Se é assim, como um sujeito tão medíocre pode ter uma história tão excêntrica?
Com efeito, Golyadkin é um burocrata de mente pequeno burquesa e, não fossem os cacoetes de escritório, nada o diferenciaria de um avaro e rabugento feirante. Não há entre ele e o resto dos personagens qualquer disparidade de poder, grandeza de alma ou ambição. Ele só sabe repetir poucas frases feitas, todas elas lugares comuns de seu próprio meio social. Golyádkin é um estereótipo encarnado. Tendo caracterizado nosso herói deste modo, podemos dar uma resposta à objeção sob a forma de um quadro geral dos episódios:
1- A rejeição do Sr. Olsufi Ivánovitch, patrono de Golyádkin, implica a exclusão social de nosso herói. Homens "comuns", estereotípicos como o sr. Golyadkin, são definidos pelo meio em que vivem(se quer mudar as idéias de um medíocre, troque-o de lugar"), pela sua função. Com a exclusão, ele entra em contato com a realidade e tem que viver "em si e por si", coisa de que é incapaz e, por despreparo, incorpora uma atitude de fechamento para a realidade, a "solidão" existencial.
2- No consultório de Créstian, ele é confrontado com essa "solidão" e entra em desespero. Ele tenta de verdade tenta seguir o conselho da "mudança radical de vida", de "não se furtar a uma vida alegre", afinal de contas, ele vai para um baile. O modo de acabar com ela é que é curioso, ele não tenta se abrir à realidade e superar o seu meio achando novas saidas, ao contrário, tenta forçar a barra no sentido material aparecendo sem ser convidado no baile. O resultado é o duplo e seu fracasso. Chamamos atenção aqui para a primeira aparição do duplo ainda sob a consciência de Golyadkin; em todo o livro vemos o duplo sob os olhos do personagem principal, aqui temos uma amostra do modo de operação dele.
3- A exclusão do baile é a segunda e definitiva exclusão da comunidade. O resto do livro é um progressivo afastamento que culminará na completa privação de convivência humana.
4- A conversa entre os dois Golyadkins também nos é essencial. Golyádkin primeiro em sua maior demonstração de humanidade, "programa" o duplo como a uma máquina; este tem o papel de absorver tudo. Golyádkin se comove e o abraça, é sua última chance de comunicação com o mundo. Já sabemos porque vai dar errado, mesmo que a sociedade o abrace novamente(o que, de fato, acontece), por ter tido um pouco de contato com a realidade, ele não se entregará de verdade à sociedade; oscilará entre cinismo e a despeito.
5- Cinismo e despeito, é nessa tensão que se dá a narrativa, entre o duplo e o primo. A chave de interpretação está no que Golyádkin considera como sua tábua de salvação para sair da miséria em que se encontra; ele, com efeito, diz que vencerá seus inimigos usando "artimanhas". Artimanha, esperteza ou malícia se dizem em grego methis que também é uma deusa. A deusa da malícia(Methis) teve dois filhos, Prometeu e Epimeteu, que significam respectivamente, "o que sabe antes" e "o que sabe depois". Eles são duplos e unos, ambíguos como são os deuses, mostram que usar a malícia para enganar a ordem(inteligencia de Zeus) tem dois lados e nunca a empresa é bem sucedida. A dupla Prometeu/Epimeteu corresponde a dupla Golyádkin segundo/primeiro; a troco de voltar a uma sociedade fútil, por meio de um duplo ele sacrifica as ligações reais: a alemã que lhe servia comida, o amigo que lhe emprestou dinheiro, o criado que lhe ajudava.
6-Por fim a tensão cinismo/despeito fica insuportável e a vitória social do duplo é o seu fracasso funcional e existencial. Golyádkin enlouquece.
Conclusão
A maioria dos problemas propostos deve ter ficado clara e só queria reforçar o ponto de que não foi propriamente a "falta de responsabilidade ética por suas palavras" que causou a loucura mas a tensão insuportável entre o cinismo e despeito causada pelo fechamento à realidade. Também nos cabe elogiar o artifício poético do duplo. Separar a categoria da imagem da do duplo por um personagem e uma realidade nunca totalmente presentes e nunca totalmente ausentes é genial; O duplo, como o kolossós, nem está totalmente dentro da realidade nem totalmente fora. Talvez seja essa presença do ausente o que mais chama atenção nessa grande obra de arte.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
Em defesa das Idéias
A discussão sobre a teoria das Idéias é de importância inegável em toda a história da filosofia, e aqui tomamos uma posição diante dela de maneira mais completa possível. Devo advertir que para mim isso tem sido um verdadeiro deleite e já consigo entrever as consequências na filosofia aristotélica. Os argumentos de Aristóteles contra a teoria, até onde sei, se dividem em duas classes:
a) Provar a incoerência intrínseca da teoria das Idéias;
b) A teoria das Idéias é, em si, desnecessária
Dentro de cada uma dessas classes existem vários argumentos e dou um exemplo de cada uma dessas classes para mostrar até onde ele tinha consciência da profundidade da teoria.
A)Provar a incoerência intrínseca da teoria das Idéias
A.i- Exposição
Aristóteles diz que "Se as formas existem, e se o Animal[Idéia de Animal] encontra-se no homem e no cavalo, então ele (a)será um só e o mesmo quanto ao número OU, (b)será diferente num e noutro". É claro que a resposta é a "A" mas Ar. objeta o seguinte 1- se a Animal(a Idéia) é una como ela estaria no cavalo e no homem e permaneceria una? e por que o animal não é separado de si mesmo? ; 2- Se o Animal(a Idéia) deve participar tanto de bípede e quadrupede como pode ele ser determinado e uno com atributos opostos?(um animal ao mesmo tempo bípede e quadrúpede).
A.ii- Unidade da Idéia, matéria inteligível
A maioria das pessoas não entende o caráter unitário da Idéia platônica, geralmente a confundindo com um conceito ou então indentificando-a com a forma. No entanto prefiro escutar o velho Platão e afirmar que a Idéia também é feita de Matéria + Forma.O próprio Aristóteles diz que há uma materia inteligível e uma initeligível: "Existe uma matéria sensível e uma inteligível: a sensível é, por exemplo, o bronze, a madeira ou tudo o que é suscetível de movimento; a inteligível é, ao contrário, a que está presente nos sensíveis, não enquanto sensíveis mas como entes matemáticos"(Met. Z 10, 1036 A 9-12). E ainda nos textos Met. H 6, 1045 a 33-35 e Met. K 1, 1059 b 14-21.
No texto está escrito que as duas matérias estão nos sensíveis mas temos aí uma deformação na doutrina platônica. Reale nos diz sobre o texto supra citado: "Aqui recordamos, particularmente, a destacada dificuldade que Ar. demonstra ante a 'matéria inteligível', justamente no que concerne a explicação dos entes matemáticos, as suas notáveis incertezas e as suas notáveis incertezas e as suas tendências a admiti-la embora a seu modo". Isto é, a confusão de Aristóteles de atribuir duas matérias a uma forma é na verdade um resquício de uma doutrina herdada do Platão. Nessa doutrina uma forma corresponde a uma matéria, ou seja, os entes sensíveis tem uma forma e uma matéria e os entes ideais também tem uma forma e uma matéria.
Então se assume que os sensíveis tem como matéria aquela substância amorfa e initeligível e como forma as próprias Idéias enquanto que as Idéias tem por sua vez uma matéria inteligível que se identifica com certos entes matemáticos e uma forma que é a própria Idéia de Bem. Mas o que é número? segundo o próprio Aristóteles número é "o que é divisível em partes indivisíveis". Se trata de uma estrutura de certos conjuntos de unidades como "um par", "uma díade", "uma tríade" etc.... Um número é sobretudo uma estrutura, um agrupamento. Tomemos então uma Idéia como Música, ora, a música é harmonia, melodia e ritmo. Isto é a música é feita por partes indivisas, ela é um número e do mesmo modo todas as Idéias são assim. Tanto que método platônico mais famoso é o da divisão ou o das espécies indivisas.
A.iii- Defesa da teoria das Idéias
Dito isso voltamos ao argumento e veremos o seguinte, para refutar uma tese temos que aceitar a tese tal qual o opositor disse e ver se daí geram-se absurdos como no caso do Reductio ad absurdum e é o que mais ou menos Aristóteles tenta fazer não fosse pelo seguinte: ele cria para si um Platão para refutar. Sim, estou dizendo que Aristóteles está sendo desonesto. Isto é, ele teria que aceitar o argumento de Platão tal qual Platão disse, mas é justamente o que ele não faz. Especificamente tanto o argumento aristotélico supracitado 1 como o 2 se baseiam na premissa que Platão considerava as Idéias do seguinte modo descrito em Met., B-12, 997 b 5-12: "Com efeito, os Deuses que eles[os vulgos] admitem não são mais do que homens eternos, enquanto as Formas que eles[Platônicos] afirmam não são mais do que sensíveis eternos".
Isso é não compreender a teoria de Platão porque, como eu disse, as Idéias não são sensíveis pois tem matéria e forma diferentes. Os sensíveis tem como forma a Idéia e tem como matéria a matéria initeligível(descrever a matéria initeligível e sua initeligibilidade também daria um trabalhão!), ao passo que as Idéias tem, para Platão, como forma o Uno e como matéria os tais entes matemáticos(números intermediários). O argumento de Aristóteles é inválido pois ele não toma a Idéia platônica tal qual o Platâo disse mas tal qual ele quis que a tese parecesse. Isso não só acontece na Metafísica como na física tal como está escrito no número 4 e 5 de nosso anexo espertezas aristotélicas.
A refutação deste trecho é também e mais compactamente dada por nosso Mário na Introdução de sua tradução do De generatione et corruptione: "Estas digressões mais comezinhas a dialectica platônica que a aristotelica, levar-nos-iam a afirmacão de que um ser que atingisse a perfeição da forma essencial do eidos platônico, por exemplo, ou do arithmós pleithos (o numero de conjunto) pitagorico, seria materialmente inalcançável. No segundo caso, seria incompreensível porque o número da harmornia pitagorica, os arithmoi harmonikoi são sempre indefinidos, portanto nunca alcançáveis materialmente, na sua perfeição extensista e definiVamente acabada como a relação entre o diâmetro e a circunferência ou a hipotenusa e o quadrado, dão sempre um número indefinido. A forma essencial na ordem ontológica é perfeita e jamais alcançada pela materialidade, que dela pode potencialmente aproximar-se sempre, como o numero de ouro pitagórico, que jamais alcança um termo finito."
Ademais, além do caso citado(aqui me baseio em Reale), Aristóteles faz várias reduções confundindo Idéia, Idéia-número, numeros ideais e número. Reale ainda diz: "... e sobretudo para compreender as reduções sistemáticas a que ele[Aristóteles] submete a essa doutrina[teoria das Idéias], justamente para poder refutá-la com facilidade".
B)A teoria das Idéias é, em si, desnecessária
O tópico A é um desdobramento do argumento principal do meu último texto que ficou mal escrito(também exclui posteriores desenvolvimentos dele), mas aqui me ocorreu uma nova forma de defesa. No texto anterior a defesa consistia na reexposição do mecanismo de relacionamento Idéia-sensíveis de modo a tornar o argumento do terceiro homem inutilizável. Agora me parece claro o seguinte: a noção que Aristóteles tem da Idéia é a de que "as Formas que eles[Platônicos] afirmam não são mais do que sensíveis eternos", isto é, tal qual descrito no número 7 do anexo espertezas aristotélicas, as Idéias segundo Ar. são entidades físicas duplicadas. Ora, não é esse de modo algum o modo que Platão acreditava serem suas Idéias de modo que o argumento de Ar. é invalidado desde as bases. De qualquer modo desde o diálogo Parmênides de Platão que sabemos ser o argumento do terceiro homem conhecido pelo mestre ateniense o que mais uma vez prova a superioridade da concepção platônica ante o argumento antes mesmo de Aristóteles o criar(v. notas sobre O que NÃO é uma idéia, n°4)
ANEXO - Espertezas aristotélicas
São basicamente alguns testemunhos de abalizados tradutores e comentadores do estagirita mostrando eventuais deformações e reduções de outros pensadores (especialmente de Platão) para que se pudessem ressaltar qualidades da filosofia aristotélica. Simplesmente não o julgo, sou eternamente grato pela filosofia que ele criou.
1- "É a Amizade que os une, enquanto esta domina, separando-se, porém,
quando o ódio domina. A espera de Empédocles é eterna e
imutável, e a crítica que Aristóteles lhe fêz, neste parágrafo,
é TENDENCIOSA para Joachim, e com razão, pois todo o processo
do mundo se verifica segundo um ciclo imutável, dentro
dessa espera imóvel."
Mário ferreira dos Santos in Aristóteles e as mutações
2- "Mas é preciso considerar (o que não o fêz Aristóteles),
que os poros não são vazios para Empédocles, e sim cheios.
Dai todo argumento de Ar. ser improcedente, o qual pode
ser lido no texto."
Mário ferreira dos Santos in Aristóteles e as mutações
3- "La crítica del infinito como continente y delimitante parece dirigida contra Platón. Aunque en Met. 987b18-22 se dice que para Platón el Infinito es lo Grande y lo Pequeño como materia, la cual recibe del Uno su delimitación, pero no que el Infinito fuese lo que contiene (periéchein) y delimita (horízein). Para ápeiros en Platón véase Parm. 143a-145a, 158d-e;Fil. 16c, 27b."
Guilhermo R. de Echandía nas notas ao tratado da física de Aristóteles publicado pela Gredos
4- "Lo que parece injustificado es afirmar que Platón identificó chôra con hýle. Si se la entendiese como «materia inteligible» habría cierta equivalencia, como indica Hussey, pero sería algo enteramente distinto de la «materia» aristotélica, pues la hypodoché del Timeo parece una entidad independiente de los cuerpos."
Guilhermo R. de Echandía nas notas ao tratado da física de Aristóteles publicado pela Gredos
5- "Ahora se afirma que para Platón tò methektikón (= tò metalêptikón de b14) es el «receptáculo» (hypodochê) de las Ideas y los Números. Pero Platón nunca habla de la hypodochê como recibiendo las Ideas, sino como la phýsis que recibe todos los cuerpos (Tim. 50b6). Por tanto, la objeción que se le hace a Platón no tiene sentido. La hypodochê no es un hypokeí-menon. Aristóteles parece proyectar una vez más sobre Platón su propia concepción de la materia."
Guilhermo R. de Echandía nas notas ao tratado da física de Aristóteles publicado pela Gredos
6- "As teorias platônicas que Aristóteles tende de modo mais desconcertante a 'deformar' são as Idéias e princípios primeiros"
Giovanni Reale no volume introdutório do metafísica
7- "a teoria das Idéias é apresentada, a nosso ver da maneira mais decepcionante, porque Aristóteles, interpretando as Idéias como indevidas hipóstases dos universais, tende a 'dar-lhes um caráter físico' e, portanto, a fazer com que se a entenda como duplicação das coisas"
Giovanni Reale no volume introdutório do metafísica
a) Provar a incoerência intrínseca da teoria das Idéias;
b) A teoria das Idéias é, em si, desnecessária
Dentro de cada uma dessas classes existem vários argumentos e dou um exemplo de cada uma dessas classes para mostrar até onde ele tinha consciência da profundidade da teoria.
A)Provar a incoerência intrínseca da teoria das Idéias
A.i- Exposição
Aristóteles diz que "Se as formas existem, e se o Animal[Idéia de Animal] encontra-se no homem e no cavalo, então ele (a)será um só e o mesmo quanto ao número OU, (b)será diferente num e noutro". É claro que a resposta é a "A" mas Ar. objeta o seguinte 1- se a Animal(a Idéia) é una como ela estaria no cavalo e no homem e permaneceria una? e por que o animal não é separado de si mesmo? ; 2- Se o Animal(a Idéia) deve participar tanto de bípede e quadrupede como pode ele ser determinado e uno com atributos opostos?(um animal ao mesmo tempo bípede e quadrúpede).
A.ii- Unidade da Idéia, matéria inteligível
A maioria das pessoas não entende o caráter unitário da Idéia platônica, geralmente a confundindo com um conceito ou então indentificando-a com a forma. No entanto prefiro escutar o velho Platão e afirmar que a Idéia também é feita de Matéria + Forma.O próprio Aristóteles diz que há uma materia inteligível e uma initeligível: "Existe uma matéria sensível e uma inteligível: a sensível é, por exemplo, o bronze, a madeira ou tudo o que é suscetível de movimento; a inteligível é, ao contrário, a que está presente nos sensíveis, não enquanto sensíveis mas como entes matemáticos"(Met. Z 10, 1036 A 9-12). E ainda nos textos Met. H 6, 1045 a 33-35 e Met. K 1, 1059 b 14-21.
No texto está escrito que as duas matérias estão nos sensíveis mas temos aí uma deformação na doutrina platônica. Reale nos diz sobre o texto supra citado: "Aqui recordamos, particularmente, a destacada dificuldade que Ar. demonstra ante a 'matéria inteligível', justamente no que concerne a explicação dos entes matemáticos, as suas notáveis incertezas e as suas notáveis incertezas e as suas tendências a admiti-la embora a seu modo". Isto é, a confusão de Aristóteles de atribuir duas matérias a uma forma é na verdade um resquício de uma doutrina herdada do Platão. Nessa doutrina uma forma corresponde a uma matéria, ou seja, os entes sensíveis tem uma forma e uma matéria e os entes ideais também tem uma forma e uma matéria.
Então se assume que os sensíveis tem como matéria aquela substância amorfa e initeligível e como forma as próprias Idéias enquanto que as Idéias tem por sua vez uma matéria inteligível que se identifica com certos entes matemáticos e uma forma que é a própria Idéia de Bem. Mas o que é número? segundo o próprio Aristóteles número é "o que é divisível em partes indivisíveis". Se trata de uma estrutura de certos conjuntos de unidades como "um par", "uma díade", "uma tríade" etc.... Um número é sobretudo uma estrutura, um agrupamento. Tomemos então uma Idéia como Música, ora, a música é harmonia, melodia e ritmo. Isto é a música é feita por partes indivisas, ela é um número e do mesmo modo todas as Idéias são assim. Tanto que método platônico mais famoso é o da divisão ou o das espécies indivisas.
A.iii- Defesa da teoria das Idéias
Dito isso voltamos ao argumento e veremos o seguinte, para refutar uma tese temos que aceitar a tese tal qual o opositor disse e ver se daí geram-se absurdos como no caso do Reductio ad absurdum e é o que mais ou menos Aristóteles tenta fazer não fosse pelo seguinte: ele cria para si um Platão para refutar. Sim, estou dizendo que Aristóteles está sendo desonesto. Isto é, ele teria que aceitar o argumento de Platão tal qual Platão disse, mas é justamente o que ele não faz. Especificamente tanto o argumento aristotélico supracitado 1 como o 2 se baseiam na premissa que Platão considerava as Idéias do seguinte modo descrito em Met., B-12, 997 b 5-12: "Com efeito, os Deuses que eles[os vulgos] admitem não são mais do que homens eternos, enquanto as Formas que eles[Platônicos] afirmam não são mais do que sensíveis eternos".
Isso é não compreender a teoria de Platão porque, como eu disse, as Idéias não são sensíveis pois tem matéria e forma diferentes. Os sensíveis tem como forma a Idéia e tem como matéria a matéria initeligível(descrever a matéria initeligível e sua initeligibilidade também daria um trabalhão!), ao passo que as Idéias tem, para Platão, como forma o Uno e como matéria os tais entes matemáticos(números intermediários). O argumento de Aristóteles é inválido pois ele não toma a Idéia platônica tal qual o Platâo disse mas tal qual ele quis que a tese parecesse. Isso não só acontece na Metafísica como na física tal como está escrito no número 4 e 5 de nosso anexo espertezas aristotélicas.
A refutação deste trecho é também e mais compactamente dada por nosso Mário na Introdução de sua tradução do De generatione et corruptione: "Estas digressões mais comezinhas a dialectica platônica que a aristotelica, levar-nos-iam a afirmacão de que um ser que atingisse a perfeição da forma essencial do eidos platônico, por exemplo, ou do arithmós pleithos (o numero de conjunto) pitagorico, seria materialmente inalcançável. No segundo caso, seria incompreensível porque o número da harmornia pitagorica, os arithmoi harmonikoi são sempre indefinidos, portanto nunca alcançáveis materialmente, na sua perfeição extensista e definiVamente acabada como a relação entre o diâmetro e a circunferência ou a hipotenusa e o quadrado, dão sempre um número indefinido. A forma essencial na ordem ontológica é perfeita e jamais alcançada pela materialidade, que dela pode potencialmente aproximar-se sempre, como o numero de ouro pitagórico, que jamais alcança um termo finito."
Ademais, além do caso citado(aqui me baseio em Reale), Aristóteles faz várias reduções confundindo Idéia, Idéia-número, numeros ideais e número. Reale ainda diz: "... e sobretudo para compreender as reduções sistemáticas a que ele[Aristóteles] submete a essa doutrina[teoria das Idéias], justamente para poder refutá-la com facilidade".
B)A teoria das Idéias é, em si, desnecessária
O tópico A é um desdobramento do argumento principal do meu último texto que ficou mal escrito(também exclui posteriores desenvolvimentos dele), mas aqui me ocorreu uma nova forma de defesa. No texto anterior a defesa consistia na reexposição do mecanismo de relacionamento Idéia-sensíveis de modo a tornar o argumento do terceiro homem inutilizável. Agora me parece claro o seguinte: a noção que Aristóteles tem da Idéia é a de que "as Formas que eles[Platônicos] afirmam não são mais do que sensíveis eternos", isto é, tal qual descrito no número 7 do anexo espertezas aristotélicas, as Idéias segundo Ar. são entidades físicas duplicadas. Ora, não é esse de modo algum o modo que Platão acreditava serem suas Idéias de modo que o argumento de Ar. é invalidado desde as bases. De qualquer modo desde o diálogo Parmênides de Platão que sabemos ser o argumento do terceiro homem conhecido pelo mestre ateniense o que mais uma vez prova a superioridade da concepção platônica ante o argumento antes mesmo de Aristóteles o criar(v. notas sobre O que NÃO é uma idéia, n°4)
ANEXO - Espertezas aristotélicas
São basicamente alguns testemunhos de abalizados tradutores e comentadores do estagirita mostrando eventuais deformações e reduções de outros pensadores (especialmente de Platão) para que se pudessem ressaltar qualidades da filosofia aristotélica. Simplesmente não o julgo, sou eternamente grato pela filosofia que ele criou.
1- "É a Amizade que os une, enquanto esta domina, separando-se, porém,
quando o ódio domina. A espera de Empédocles é eterna e
imutável, e a crítica que Aristóteles lhe fêz, neste parágrafo,
é TENDENCIOSA para Joachim, e com razão, pois todo o processo
do mundo se verifica segundo um ciclo imutável, dentro
dessa espera imóvel."
Mário ferreira dos Santos in Aristóteles e as mutações
2- "Mas é preciso considerar (o que não o fêz Aristóteles),
que os poros não são vazios para Empédocles, e sim cheios.
Dai todo argumento de Ar. ser improcedente, o qual pode
ser lido no texto."
Mário ferreira dos Santos in Aristóteles e as mutações
3- "La crítica del infinito como continente y delimitante parece dirigida contra Platón. Aunque en Met. 987b18-22 se dice que para Platón el Infinito es lo Grande y lo Pequeño como materia, la cual recibe del Uno su delimitación, pero no que el Infinito fuese lo que contiene (periéchein) y delimita (horízein). Para ápeiros en Platón véase Parm. 143a-145a, 158d-e;Fil. 16c, 27b."
Guilhermo R. de Echandía nas notas ao tratado da física de Aristóteles publicado pela Gredos
4- "Lo que parece injustificado es afirmar que Platón identificó chôra con hýle. Si se la entendiese como «materia inteligible» habría cierta equivalencia, como indica Hussey, pero sería algo enteramente distinto de la «materia» aristotélica, pues la hypodoché del Timeo parece una entidad independiente de los cuerpos."
Guilhermo R. de Echandía nas notas ao tratado da física de Aristóteles publicado pela Gredos
5- "Ahora se afirma que para Platón tò methektikón (= tò metalêptikón de b14) es el «receptáculo» (hypodochê) de las Ideas y los Números. Pero Platón nunca habla de la hypodochê como recibiendo las Ideas, sino como la phýsis que recibe todos los cuerpos (Tim. 50b6). Por tanto, la objeción que se le hace a Platón no tiene sentido. La hypodochê no es un hypokeí-menon. Aristóteles parece proyectar una vez más sobre Platón su propia concepción de la materia."
Guilhermo R. de Echandía nas notas ao tratado da física de Aristóteles publicado pela Gredos
6- "As teorias platônicas que Aristóteles tende de modo mais desconcertante a 'deformar' são as Idéias e princípios primeiros"
Giovanni Reale no volume introdutório do metafísica
7- "a teoria das Idéias é apresentada, a nosso ver da maneira mais decepcionante, porque Aristóteles, interpretando as Idéias como indevidas hipóstases dos universais, tende a 'dar-lhes um caráter físico' e, portanto, a fazer com que se a entenda como duplicação das coisas"
Giovanni Reale no volume introdutório do metafísica
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
Matemática marxista
Segundo Marx as leis da dialética governam a natureza toda, nosso pensar é dialético. A terceira lei da dialética exposta por Engels na dialética da natureza nos diz que como a mudança dialética advém das contradições, podemos observar que estas contradições seguem um movimento típico: a afirmação, a negação e a negação da negação. Esta última terá que superar dialeticamente a primeira.
Engels exemplifica: "Assim também na matemática: tomemos uma grandeza algébrica qualquer, por exemplo, a. Neguemo-la, teremos -a. Neguemos esta negação multiplicando -a por -a, teremos a², isto é, a grandeza positiva primitiva mas em um grau superior"
Agora apliquemos a regra aprendida: tomemos o número 0,5; sua negação será -0,5 cuja negação da negação obtida pela multiplicação por -0,5 será 0,25, isto é, a grandeza positiva em um grau su... ops!
Engels exemplifica: "Assim também na matemática: tomemos uma grandeza algébrica qualquer, por exemplo, a. Neguemo-la, teremos -a. Neguemos esta negação multiplicando -a por -a, teremos a², isto é, a grandeza positiva primitiva mas em um grau superior"
Agora apliquemos a regra aprendida: tomemos o número 0,5; sua negação será -0,5 cuja negação da negação obtida pela multiplicação por -0,5 será 0,25, isto é, a grandeza positiva em um grau su... ops!
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Os demônios
52° Congresso da UNE
"Um velho careca com cara de Ney Matogrosso doente se aproxima e pergunta se estou anotando o nome de todo mundo que passa por mim. Digo que não. Ele parece aliviado. Pergunto quem é ele. Enigmático ele responde: 'Eu sou nada'.
Nos próximos 5 minutos, sempre cuspindo perdigotos no meu rosto, ele conta que recebeu da Unesco o título de sportsman for peace por ter pedalado por dois anos em defesa dos direitos humanos. Ele ainda reproduz uma conversa que supostamente foi travada entre o papa João Paulo II, a política irlandesa Iris Robinson e o antigo secretário-geral da ONU Kofi Annan a respeito dele. Em Italiano. Compreendo que o sujeito é completamente louco. Ele só sossega quando aceito fazer parte da produção do filme sobre ele mesmo que, afirma, realizará com 10 milhões de dólares que lavantou graças a lei rouanet.
Mal me livro do maluco e um hippie para ao meu lado, olha para meu bloco de notas e grasna(não ri, grasna). 'Deve ser estranho ser observado observando os outros...', diz. Respondo que não, não é. Ele vai embora.
Sou então interpelado outra vez. Agora por um homem de 56 anos que pergunta pela fila de chope. Ele se diz defensor público do estado de Goiás e antigo filiado do PCB. 'Isso aqui é uma vergonha. A UNE faz eleições indiretas e senta do lado do presidente e fala em democracia e independência? No congresso de 1982 não era assim! Era 60% política e 40% putaria. Hoje no máximo é 12% de política', protesta. 'O foda é que naqueles tempos só tinha baranga no PC do B e PCB. No PT, não. Elas bebiam, fumavam um e no final todo mundo metia!', conclui"
Playboy, Agosto 2011.
Nota: O custo do congresso foi de 4 milhões, bancados pela Petrobras, Eletrobras e por mais quatro ministérios
É errado dizer que estes indivíduos estão em um nível abaixo do humano? Que foram reduzidos a condição bestial? E tendo em vista que da UNE sai boa parte de nossos politicos, será que temos futuro?
"Um velho careca com cara de Ney Matogrosso doente se aproxima e pergunta se estou anotando o nome de todo mundo que passa por mim. Digo que não. Ele parece aliviado. Pergunto quem é ele. Enigmático ele responde: 'Eu sou nada'.
Nos próximos 5 minutos, sempre cuspindo perdigotos no meu rosto, ele conta que recebeu da Unesco o título de sportsman for peace por ter pedalado por dois anos em defesa dos direitos humanos. Ele ainda reproduz uma conversa que supostamente foi travada entre o papa João Paulo II, a política irlandesa Iris Robinson e o antigo secretário-geral da ONU Kofi Annan a respeito dele. Em Italiano. Compreendo que o sujeito é completamente louco. Ele só sossega quando aceito fazer parte da produção do filme sobre ele mesmo que, afirma, realizará com 10 milhões de dólares que lavantou graças a lei rouanet.
Mal me livro do maluco e um hippie para ao meu lado, olha para meu bloco de notas e grasna(não ri, grasna). 'Deve ser estranho ser observado observando os outros...', diz. Respondo que não, não é. Ele vai embora.
Sou então interpelado outra vez. Agora por um homem de 56 anos que pergunta pela fila de chope. Ele se diz defensor público do estado de Goiás e antigo filiado do PCB. 'Isso aqui é uma vergonha. A UNE faz eleições indiretas e senta do lado do presidente e fala em democracia e independência? No congresso de 1982 não era assim! Era 60% política e 40% putaria. Hoje no máximo é 12% de política', protesta. 'O foda é que naqueles tempos só tinha baranga no PC do B e PCB. No PT, não. Elas bebiam, fumavam um e no final todo mundo metia!', conclui"
Playboy, Agosto 2011.
Nota: O custo do congresso foi de 4 milhões, bancados pela Petrobras, Eletrobras e por mais quatro ministérios
É errado dizer que estes indivíduos estão em um nível abaixo do humano? Que foram reduzidos a condição bestial? E tendo em vista que da UNE sai boa parte de nossos politicos, será que temos futuro?
Atualidades Sádicas
por: Otto Maria Carpeaux
(Nota: Não sou de ficar publicando texto alheio mas esse me pareceu raro. O Carpeaux disse que "tinha publicado na imprensa brasileira entre 1941 e 1966, mais ou menos 1500 artigos sôbre artigos literários. Dêstes, duas centenas foram enfeixados em livros, hoje esgotados e dificilmente acessíveis. E o resto?". Bem, o resto tratemos de juntar. Minha pequena contribuição ao imenso trabalho a ser realizado.)
Assim como em Paris também há no Rio de Jeniro e em São Paulo devotos do Marquês de Sade e dosa seus romances que a censura do regime De Gaulle condenou novamente a serem vendidos clandestinamente: Justine e Juliette e os outros todos em que sempre se repete a combinação de orgias sexuais e torturas sangrentas, às vezes degenerando em hecatombas: bondouir e necrotério. Sade é hoje o santo de um culto literário-filosófico-místico. Espero que não lhe esqueçam o sesquicentenário: morreu em 2 de Dezembro de 1814 e é hoje, 150 anos depois, mais atual que então. Dupla atualidade: uma literária e outra.
Desde 1945 saíram várias edições de suas principais obras. Mais lidos que as próprias obras foram os ensaios sobre Sade, de escritores e pensadores tão sérios e hermáticamente profundos como George Bataille e Maurice Blanchot. A grande biografia de Maurice Heine, interrompida pela morte do autor, foi completada por Gilbert Lely, que compara Sade a Bocaccio e Cervantes, mas fala mais da filosofia do marquês do que seus enredos e do seu estilo. Pois do estilo de Sade não vale a pena falar e seus enredos são de uma insipidez que confirma a frase de Baudelaire, grande especialista na matéria: "o pecado é monótono".
Como escritor, Sade não se pode comparar com Rétif de la Bretonne nom com Laclos, seus contemporâneos. Rétif, realista crasso e inculto, conhece todas as ruas, bairros, casas, classes de Paris antes da revolução: dá um apnorama completo da sociedade do seu tempo, não menos "pecaminoso" que o panorama de Sade, que se limita, por sua vez a mostrar o intérieour de um bordel e porão, bem fechado para ninguém ouvir os gritos das vítimas. Rétif, um realista; Sade, um visionário. Mas sua visão só penetra corpos e não as almas. Desafio a quem me possa mostrar uma única obra de Sade que valha a análise de uma página de Laclos. Mas como se explica, então, a fama literária do pai do Sadismo?
É muito conhecida, até em várias traduções, a obra em que o crítico italiano Mário Paz estudou as correntes de ateísmo, diabolismo etc. no romantismo europeu, especialmente no francês. Mas por volta de 1850, os não-românticos Rétif e Laclos estavam esquecidos. Consideráva-se Sade como grande satanista. É palavra que, com razão, não se usa mais. Mas tampouco se usa o conceito. O que ontem passava satânico, é hoje exaltado como místico. Os "sadianos"(é necessário o neologismo para não confundí-los com sádicos) elevaram seu santo para o autar da "liberdade absoluta". E por mais que repugne certo palavrório místico-filosófico em torno de Sade, não se pode negar que a "liberdade absoluta" de Sade á coisa muito séria.
Resta escrever uma história do ateísmo europeu. Seria livro menos volumoso que se pensa. Muitos dos ateus anatemizados do passado seriam hoje panteístas; como Spinoza. Outros foram budistas disfarçados como Schopenhauer, ou mesmo cristãos às avessas como Nietzsche. Não é a negação de Deus que faz o ateu. Existe uma definição, a melhor do ateísmo que exclui ateus idealistas(como Fichte), ou ateus pan-logistas(como Hegel) e até os ateus por paixão de justiça, como Marx. A definição é do próprio mestre de Marx: Ludwing Feuerbach; e diz: "Só aquele é verdadeiro ateu para o qual não significam nada os atributos próprios da divindade, a Onipotência, a Sabedoria, a Justiça, a Bondade, o Amor; não é ateu aquele para o qual não significa nada só o sujeito desses atributos". Esse falso ateu ele atribui-os a um outro ser qualquer, digamos o Homem ou Estado ou à História e adora o Homem, caso da Sabedoria, o Estado, instrumento da Justiça, ou a História onipotente, como se fossem Deus; não é ateu autêntico. Conforme essas definições, é Sade um dos raros ateus autênticos. Negou Deus e um dos principais atributos de Deus: o Amor. É propriamente o destruidor da religião do Amor.
Estava especialmente autorizado apara tanto. O autor de Justine e Juliette era descendente do sieur Hugo de Sade, nobre provençal que viveu no século XIV, casado com Laura de Noves: Laura, bitetravó do marquês de Sade; Laura, a "amada imortal" de Patrarca, pai de toda a literatura amorosa e da própria religião do amor poético.
Sade destruiu o mito de Laura e Patrarca. Demonstrou que o amor é sinônimo de egoísmo e que amor radical é egoísmo radical e que a conclusão última do egoísmo radical é a destruição do outro, de todos os outros, destruição que é a expressão da literatura da liberdade absoluta do Destruidor. O culto, a religião dessa liberdade Absoluta leva modestamente o nome de sadismo.
Quem já leu pelo menos algumas páginas de Sade, sabe que sua maneira de praticar sua religião não se parece com o sadismo comum. Em Sade, as orgias sexuais são requintadas de vítimas escolhidas e com mortandade em massa de comparsas. Teoricamente, a liberdade Absoluta de Sade poderia ser uma variante da liberdade existencialista; e pelo Boulevard At. Grermain reentreou Sade, em 1945, na atualidade literária. Mas praticamente o sadismo radical de Sade parece a todos não-sádicos expresssão de loucura. Não se diz isso para desprezar ou insultar. Só se pensa no fato que Sade passou mais da metade da vida em manicômios judiciais, onde ficou preso, mas menos como inimigo da moralidade pública e, sim, por ter torturado e assassinado moças. O manicômio seria lugar conveniente para comemorar o sesquicentenário da morte de Sade. É o que fez o dramaturgo alemão Peter Weiss, em peça cuja representação berlinense, em maio desse ano, fez sensação.
A peça, que também já existe impressa chamará a atenção do mundo. Esse Peter Weiss é dramaturgo de extraordinária força inventiva. A elementos de Brecht, de Ionesco e do expressionismo soube acrescentar um frisson autenticamente pirandelliano. Mas é originalíssimo e, pelo anti-realismo do estilo dramático, moderno up to date. No entanto o título da peça é longo e pomposo como o de uma tragédia histórica barroca: "A perseguição e assassinato de Jean-Paul Marat, representado pela companhia teatral do manicômio de Charenton, sob a direção de sieur de Sade".
Afirma a lenda, álias duvidosa, que Sade, quando em Cherenton, último manicômio em que esteve preso, teria escrito peças de teatro. Weiss imagina que uma dessas peças tivesse comemorado um acontecimento histórico bem ao gosto de Sade: o assassinato do tribuno revolucionário Marat, em 1793, na sua banheira, pela heróica Charlotte Condey. Quinze anos depois, os loucos encerrados em Charenton representam na grande sala de banheiros da casa a peça que Sade escreveu sobre aquele acontecimento, representação dirigida pelo próprio Sade. Teatro no teatro. Na platéia dentro do palco, o diretor do estabelecimento, Dr. Coulmier, outros médicos, outros loucos. Um speaker anuncia, gritando, as cenas e comenta o enredo. Não há um coro como na tragédia grega mas dois coros: um Chorus mysticus e um coro de quatro palhaços que representam o povo parisiense. Os atores, empolgados pelos seus papéis, têm de vez em quando acessos de loucura furiosa, e então o Dr. Coulmier dá aos enfermeiros sinal para dominá-los. Cena culminante é um diálogo filosófico entre Sade e Marat. Depois do assassinato do tribuno aparece Bonaparte, como Anjo de morte, e todos saem atrás dele em ritmo de marcha. É a História.
É uma peça estranha como não há outra igual: o realismo cru e visões oníricas, danças e pantomimas dos loucos, gíria ordinária, frases altamente poéticas e o grande diálogo filosófico em que Marat defende a revolução, ao passo que Sade não acredita em revoluções: não libertam realmente ninguém; matam, sim mas enfim terminam e as matanças acabam e para que foi bom? Para Sade, o ponto mais alto da revolução francesa foi o assassinato de Marat, não porque Marat foi vítima, mas porque ele é assassinado sem motivo imediato e em circunstâncias tão extraordinárias, na banheira que inspiram a imaginação do marquês: lembra como em 1744 foi em Paris executado Damiens, que tinha feito um atentado contra a pessoa sagrada do rei Luis XV; execução em praça pública perante uma multidão que acompanhou estarrecida e (talvez deliciada) a tortura inefável - Damiens foi esquartejado vivo.
Estabelecer uma relação entre a doutrina de Sade e o caso de Damiens (Otto Flake, em livro sobre Sade, já o lembrou também há 40 anos atrás) parece-me idéia feliz e profunda do dramaturgo Peter Weiss: colocou Sade no seu momento histórico. Pensemos no século XVIII como na época em que foi, nos países principais da Europa, abolida a tortura judicial e em que Beccaria começou a luta contra a pena capital. Mas o séc. XVIII também é a época de execuções, com torturas requintadas, em praça pública. Inventou a guilhotina. E Sade restabeleceu, pelo menos para seu uso particular, a tortura. É homem de seu tempo mas não da época da revolução quando Sade tinha já 49 anos de idade. É contemporâneo de Casanova, libertin como ele, mas não um aventureiro, como o veneziano, e sim um grande senhor aristocrático; um daqueles aristocratas aos quais a França do Ancien Régime tudo parecia lícito e impunemente permitido. As vítimas de Sade não eram aquelas mulheres licensiosas que teriam participado dos seus prazeres. Eram moças pobre, do povo e foram remuneradas a servirem aos desejos do marquês; mas no momento em recebiam o dinheiro ignoravam que sairiam do bordoir do marquês multiladas ou mortas. Por esses "casos", a famosa affaire de Marseille e outras semelhantes, Sade foi tantas vezes preso, e em uma carta ao Garde des Sceaux ele se queixa amargamente: ele, um homem da nobreza, preso durante anos, pour une poutaine.
Na mesma carta anuncia ao dignatário do Reino uma vingança histórica: un jour de la liberté. Mas quando a Revolução veio não tratou de forma melhor - pour une poutaine - o defensor da liberdade Absoluta. Nenhum regime teve uso para ele: passou mais que metade da vida em prisões e manicômios, sob Luís XVI, sob a Gironde, sob Robespierre e sob Napoleão, que no entanto também eram especialistas em derramar sangue. A vida e a obra de Sade são a atualidade entre a tortura judicial e a execução de Damiens, de um lado e, por outro lado, a guilhotina e as primeiras guerras do século XIX. E essa atualidade não é histórica. Ainda não acabou. Mais viva e pungente que a atualidade literária de Sade é esta outra: Auschwitz e Belsen, os tiros na nuca na prisão de Luianka, os comunistas chineses queixosos em locomotivas da China de 1972(testemunha Malraux), as execuções de Katin e as de Via Ardeatina(Roma, città aperta) e o garote vil na Espanha e os torturados da Argélia, e aos devotos do marquês de Sade se pede: menos atualidade.
publicado no Correio da Manhã, em 10/04/1967.
(Nota: Não sou de ficar publicando texto alheio mas esse me pareceu raro. O Carpeaux disse que "tinha publicado na imprensa brasileira entre 1941 e 1966, mais ou menos 1500 artigos sôbre artigos literários. Dêstes, duas centenas foram enfeixados em livros, hoje esgotados e dificilmente acessíveis. E o resto?". Bem, o resto tratemos de juntar. Minha pequena contribuição ao imenso trabalho a ser realizado.)
Assim como em Paris também há no Rio de Jeniro e em São Paulo devotos do Marquês de Sade e dosa seus romances que a censura do regime De Gaulle condenou novamente a serem vendidos clandestinamente: Justine e Juliette e os outros todos em que sempre se repete a combinação de orgias sexuais e torturas sangrentas, às vezes degenerando em hecatombas: bondouir e necrotério. Sade é hoje o santo de um culto literário-filosófico-místico. Espero que não lhe esqueçam o sesquicentenário: morreu em 2 de Dezembro de 1814 e é hoje, 150 anos depois, mais atual que então. Dupla atualidade: uma literária e outra.
Desde 1945 saíram várias edições de suas principais obras. Mais lidos que as próprias obras foram os ensaios sobre Sade, de escritores e pensadores tão sérios e hermáticamente profundos como George Bataille e Maurice Blanchot. A grande biografia de Maurice Heine, interrompida pela morte do autor, foi completada por Gilbert Lely, que compara Sade a Bocaccio e Cervantes, mas fala mais da filosofia do marquês do que seus enredos e do seu estilo. Pois do estilo de Sade não vale a pena falar e seus enredos são de uma insipidez que confirma a frase de Baudelaire, grande especialista na matéria: "o pecado é monótono".
Como escritor, Sade não se pode comparar com Rétif de la Bretonne nom com Laclos, seus contemporâneos. Rétif, realista crasso e inculto, conhece todas as ruas, bairros, casas, classes de Paris antes da revolução: dá um apnorama completo da sociedade do seu tempo, não menos "pecaminoso" que o panorama de Sade, que se limita, por sua vez a mostrar o intérieour de um bordel e porão, bem fechado para ninguém ouvir os gritos das vítimas. Rétif, um realista; Sade, um visionário. Mas sua visão só penetra corpos e não as almas. Desafio a quem me possa mostrar uma única obra de Sade que valha a análise de uma página de Laclos. Mas como se explica, então, a fama literária do pai do Sadismo?
É muito conhecida, até em várias traduções, a obra em que o crítico italiano Mário Paz estudou as correntes de ateísmo, diabolismo etc. no romantismo europeu, especialmente no francês. Mas por volta de 1850, os não-românticos Rétif e Laclos estavam esquecidos. Consideráva-se Sade como grande satanista. É palavra que, com razão, não se usa mais. Mas tampouco se usa o conceito. O que ontem passava satânico, é hoje exaltado como místico. Os "sadianos"(é necessário o neologismo para não confundí-los com sádicos) elevaram seu santo para o autar da "liberdade absoluta". E por mais que repugne certo palavrório místico-filosófico em torno de Sade, não se pode negar que a "liberdade absoluta" de Sade á coisa muito séria.
Resta escrever uma história do ateísmo europeu. Seria livro menos volumoso que se pensa. Muitos dos ateus anatemizados do passado seriam hoje panteístas; como Spinoza. Outros foram budistas disfarçados como Schopenhauer, ou mesmo cristãos às avessas como Nietzsche. Não é a negação de Deus que faz o ateu. Existe uma definição, a melhor do ateísmo que exclui ateus idealistas(como Fichte), ou ateus pan-logistas(como Hegel) e até os ateus por paixão de justiça, como Marx. A definição é do próprio mestre de Marx: Ludwing Feuerbach; e diz: "Só aquele é verdadeiro ateu para o qual não significam nada os atributos próprios da divindade, a Onipotência, a Sabedoria, a Justiça, a Bondade, o Amor; não é ateu aquele para o qual não significa nada só o sujeito desses atributos". Esse falso ateu ele atribui-os a um outro ser qualquer, digamos o Homem ou Estado ou à História e adora o Homem, caso da Sabedoria, o Estado, instrumento da Justiça, ou a História onipotente, como se fossem Deus; não é ateu autêntico. Conforme essas definições, é Sade um dos raros ateus autênticos. Negou Deus e um dos principais atributos de Deus: o Amor. É propriamente o destruidor da religião do Amor.
Estava especialmente autorizado apara tanto. O autor de Justine e Juliette era descendente do sieur Hugo de Sade, nobre provençal que viveu no século XIV, casado com Laura de Noves: Laura, bitetravó do marquês de Sade; Laura, a "amada imortal" de Patrarca, pai de toda a literatura amorosa e da própria religião do amor poético.
Sade destruiu o mito de Laura e Patrarca. Demonstrou que o amor é sinônimo de egoísmo e que amor radical é egoísmo radical e que a conclusão última do egoísmo radical é a destruição do outro, de todos os outros, destruição que é a expressão da literatura da liberdade absoluta do Destruidor. O culto, a religião dessa liberdade Absoluta leva modestamente o nome de sadismo.
Quem já leu pelo menos algumas páginas de Sade, sabe que sua maneira de praticar sua religião não se parece com o sadismo comum. Em Sade, as orgias sexuais são requintadas de vítimas escolhidas e com mortandade em massa de comparsas. Teoricamente, a liberdade Absoluta de Sade poderia ser uma variante da liberdade existencialista; e pelo Boulevard At. Grermain reentreou Sade, em 1945, na atualidade literária. Mas praticamente o sadismo radical de Sade parece a todos não-sádicos expresssão de loucura. Não se diz isso para desprezar ou insultar. Só se pensa no fato que Sade passou mais da metade da vida em manicômios judiciais, onde ficou preso, mas menos como inimigo da moralidade pública e, sim, por ter torturado e assassinado moças. O manicômio seria lugar conveniente para comemorar o sesquicentenário da morte de Sade. É o que fez o dramaturgo alemão Peter Weiss, em peça cuja representação berlinense, em maio desse ano, fez sensação.
A peça, que também já existe impressa chamará a atenção do mundo. Esse Peter Weiss é dramaturgo de extraordinária força inventiva. A elementos de Brecht, de Ionesco e do expressionismo soube acrescentar um frisson autenticamente pirandelliano. Mas é originalíssimo e, pelo anti-realismo do estilo dramático, moderno up to date. No entanto o título da peça é longo e pomposo como o de uma tragédia histórica barroca: "A perseguição e assassinato de Jean-Paul Marat, representado pela companhia teatral do manicômio de Charenton, sob a direção de sieur de Sade".
Afirma a lenda, álias duvidosa, que Sade, quando em Cherenton, último manicômio em que esteve preso, teria escrito peças de teatro. Weiss imagina que uma dessas peças tivesse comemorado um acontecimento histórico bem ao gosto de Sade: o assassinato do tribuno revolucionário Marat, em 1793, na sua banheira, pela heróica Charlotte Condey. Quinze anos depois, os loucos encerrados em Charenton representam na grande sala de banheiros da casa a peça que Sade escreveu sobre aquele acontecimento, representação dirigida pelo próprio Sade. Teatro no teatro. Na platéia dentro do palco, o diretor do estabelecimento, Dr. Coulmier, outros médicos, outros loucos. Um speaker anuncia, gritando, as cenas e comenta o enredo. Não há um coro como na tragédia grega mas dois coros: um Chorus mysticus e um coro de quatro palhaços que representam o povo parisiense. Os atores, empolgados pelos seus papéis, têm de vez em quando acessos de loucura furiosa, e então o Dr. Coulmier dá aos enfermeiros sinal para dominá-los. Cena culminante é um diálogo filosófico entre Sade e Marat. Depois do assassinato do tribuno aparece Bonaparte, como Anjo de morte, e todos saem atrás dele em ritmo de marcha. É a História.
É uma peça estranha como não há outra igual: o realismo cru e visões oníricas, danças e pantomimas dos loucos, gíria ordinária, frases altamente poéticas e o grande diálogo filosófico em que Marat defende a revolução, ao passo que Sade não acredita em revoluções: não libertam realmente ninguém; matam, sim mas enfim terminam e as matanças acabam e para que foi bom? Para Sade, o ponto mais alto da revolução francesa foi o assassinato de Marat, não porque Marat foi vítima, mas porque ele é assassinado sem motivo imediato e em circunstâncias tão extraordinárias, na banheira que inspiram a imaginação do marquês: lembra como em 1744 foi em Paris executado Damiens, que tinha feito um atentado contra a pessoa sagrada do rei Luis XV; execução em praça pública perante uma multidão que acompanhou estarrecida e (talvez deliciada) a tortura inefável - Damiens foi esquartejado vivo.
Estabelecer uma relação entre a doutrina de Sade e o caso de Damiens (Otto Flake, em livro sobre Sade, já o lembrou também há 40 anos atrás) parece-me idéia feliz e profunda do dramaturgo Peter Weiss: colocou Sade no seu momento histórico. Pensemos no século XVIII como na época em que foi, nos países principais da Europa, abolida a tortura judicial e em que Beccaria começou a luta contra a pena capital. Mas o séc. XVIII também é a época de execuções, com torturas requintadas, em praça pública. Inventou a guilhotina. E Sade restabeleceu, pelo menos para seu uso particular, a tortura. É homem de seu tempo mas não da época da revolução quando Sade tinha já 49 anos de idade. É contemporâneo de Casanova, libertin como ele, mas não um aventureiro, como o veneziano, e sim um grande senhor aristocrático; um daqueles aristocratas aos quais a França do Ancien Régime tudo parecia lícito e impunemente permitido. As vítimas de Sade não eram aquelas mulheres licensiosas que teriam participado dos seus prazeres. Eram moças pobre, do povo e foram remuneradas a servirem aos desejos do marquês; mas no momento em recebiam o dinheiro ignoravam que sairiam do bordoir do marquês multiladas ou mortas. Por esses "casos", a famosa affaire de Marseille e outras semelhantes, Sade foi tantas vezes preso, e em uma carta ao Garde des Sceaux ele se queixa amargamente: ele, um homem da nobreza, preso durante anos, pour une poutaine.
Na mesma carta anuncia ao dignatário do Reino uma vingança histórica: un jour de la liberté. Mas quando a Revolução veio não tratou de forma melhor - pour une poutaine - o defensor da liberdade Absoluta. Nenhum regime teve uso para ele: passou mais que metade da vida em prisões e manicômios, sob Luís XVI, sob a Gironde, sob Robespierre e sob Napoleão, que no entanto também eram especialistas em derramar sangue. A vida e a obra de Sade são a atualidade entre a tortura judicial e a execução de Damiens, de um lado e, por outro lado, a guilhotina e as primeiras guerras do século XIX. E essa atualidade não é histórica. Ainda não acabou. Mais viva e pungente que a atualidade literária de Sade é esta outra: Auschwitz e Belsen, os tiros na nuca na prisão de Luianka, os comunistas chineses queixosos em locomotivas da China de 1972(testemunha Malraux), as execuções de Katin e as de Via Ardeatina(Roma, città aperta) e o garote vil na Espanha e os torturados da Argélia, e aos devotos do marquês de Sade se pede: menos atualidade.
publicado no Correio da Manhã, em 10/04/1967.
Quem quer ser rei?
1- As árvores em busca de um rei(Jz 9, 8-15)
As árvores se tinham posto a caminho
para ungir aquele que seria seu rei.
Disseram à oliveira: "reina sobre nós".
A oliveira lhes disse:
"Renunciarei a meu óleo,
que deuses e homens em mim apreciam,
para ir me agitar-me em cima das árvores?"
As árvores disseram à figueira:
"vem tu reinar sobre nós!"
A figueira lhes disse:
"Renunciarei à minha doçura
e a meu bom fruto
para ir me agitar-me em cima das árvores?"
Então as árvores disseram à vinha:
"vem tu reinar sobre nós!"
A vinha lhes disse:
"Renunciarei a meu vinho,
que alegra deuses e homens,
para agitar-me sobre as árvores?"
As árvores disseram ao espinheiro:
"vem tu reinar sobre nós!"
Mas o espinheiro disse às árvores:
"Se é com lealdade que me dão a unção
para que eu seja vosso rei,
então vinde abrigar-vos sob a minha sombra!"
Mas se não for assim, um fogo sairá do espinheiro
e devorará os cedros do Líbano.
2- República (trecho do livro A)
"Por este motivo, por conseguinte, os homens de bem não querem governar nem por causa das riquezas, nem das honrarias, porquanto não querem ser tratados como mercenários, exigindo abertamente a recompensa por seu cargo, nem de ladrões, tirando a vantagem de sua posição.... Ora, o maior dos castigos é ser governado por quem é pior de nós, se não quisermos governar nós mesmos. É com receio disso, me parece, que os bons ocupam a magistratura, quando governam; e então vão para o poder, não como quem vai tomar conta de qualquer benefício, nem para com ele gozar, mas como quem vai para uma necessidade, sem ter pessoas melhores que eles, nem mesmo iguais, para que possam relegá-lo"
As árvores se tinham posto a caminho
para ungir aquele que seria seu rei.
Disseram à oliveira: "reina sobre nós".
A oliveira lhes disse:
"Renunciarei a meu óleo,
que deuses e homens em mim apreciam,
para ir me agitar-me em cima das árvores?"
As árvores disseram à figueira:
"vem tu reinar sobre nós!"
A figueira lhes disse:
"Renunciarei à minha doçura
e a meu bom fruto
para ir me agitar-me em cima das árvores?"
Então as árvores disseram à vinha:
"vem tu reinar sobre nós!"
A vinha lhes disse:
"Renunciarei a meu vinho,
que alegra deuses e homens,
para agitar-me sobre as árvores?"
As árvores disseram ao espinheiro:
"vem tu reinar sobre nós!"
Mas o espinheiro disse às árvores:
"Se é com lealdade que me dão a unção
para que eu seja vosso rei,
então vinde abrigar-vos sob a minha sombra!"
Mas se não for assim, um fogo sairá do espinheiro
e devorará os cedros do Líbano.
2- República (trecho do livro A)
"Por este motivo, por conseguinte, os homens de bem não querem governar nem por causa das riquezas, nem das honrarias, porquanto não querem ser tratados como mercenários, exigindo abertamente a recompensa por seu cargo, nem de ladrões, tirando a vantagem de sua posição.... Ora, o maior dos castigos é ser governado por quem é pior de nós, se não quisermos governar nós mesmos. É com receio disso, me parece, que os bons ocupam a magistratura, quando governam; e então vão para o poder, não como quem vai tomar conta de qualquer benefício, nem para com ele gozar, mas como quem vai para uma necessidade, sem ter pessoas melhores que eles, nem mesmo iguais, para que possam relegá-lo"
Explicação filosófica e ontologia
Pressuposto fundante e regra fundamental do método filosófico foi enunciada por Heráclito com precisão profética: "Os homens despertos estão todos no mesmo mundo, quando dormem cada um vai para seu mundo". Máxima de extrema concisão que revela dois lados da consciência humana. O homem não é só aquele que tem contato simbólico com o que "todos, sempre e em toda parte conhecem" por meio da leitura da Bíblia, cultos pagões públicos e sua religião(ões) como é o que tem seu trabalho, sua arte, e cuida de seus interesses pragmatistas. Em períodos de forte sentimentos religiosos essa divisão é imperceptível mas nos crepúsculos da consciência da luminosidade divina um abismo toma conta do espírito humano e novas espiritualidades tentam preenchê-lo.
Cada uma das artes e a própria ciência tem uma lógica e modus operandi próprios(agora, lógica menor) mas que, como diz a máxima, são "mundos separados". Porém, transpostos esses limites, nenhuma delas aguenta a prova de fogo da dialética. Na matemática, e.g., se diz 1+1=2, mas é esse um que se ajunta ao outro ou o outro ao um? É só pela contiguidade que se forma o dois? E mais: se o 10 é maior que o 8 pelo 2 então a grandeza do dez é a pequenez do dois? É pela pequenez que é a grandeza? Semelhantemente na estética se dirá algo ser belo pelo brilho, ou forma ou pelo que for ou pela beleza? Embora sejam lógicas em si as consequências dos postulados não se harmonizam com o todo do conhecimento e da linguagem humana. Em suma, não há razão.
Não podemos seguir esse caminho. Admitir isso é negar racionalidade ao homem e também a existência de conhecimento, pois, conhecimento não pode ser válido só às vezes. Ou o conhecimento é válido erga omnes ou não é de modo algum. Não pode ser só para os que dormem. Se é verdade que a natureza não frustra e que Deus nos fez racionais então é porque tem que haver razão e devemos superar essa explicação pelos contrários por uma pelo si mesmo, i.e, o dois é dois pela dualidade, o 10 é maior que o 8 pela grandeza e o belo pela beleza. Ou seja, pela Idéia de dualidade, grandeza e beleza(não me vá confundir com conceito, que é um universal).
Isso é explicar uma coisa. Pois explicar vem de ex-plicare donde plicare é fazer rugas, dobras e explicare é portanto desenrugar, desembrulhar e foi precisamente o que fiz. Entendeste minhas afirmativas em outra clave, na de demonstração, mas o que fiz foi mostração, i. e, tentei desembrulhar o conceito por meio de símbolos e exemplos dar toda a dimensão das assertivas platônicas no que tange a idéia de modo que toda a rede de necessidades(incluso perguntas) ficasse clara.
A importância da teoria é conspícua pois dela depende nossa cognoscibilidade. Historicamente(e não tornarei mais a falar de história) de duas fontes provém a Idéia: da matemática e da medicina. O logos matemático busca um critérion, uma pedra de medida, onde se pode reduzir uma multiplicidade a uma unidade. Você pode formar qualquer número pela forma, expressa até por Aristóteles, de número numerante e numerado, por exemplo: sabemos que qualquer número natural, exceto o 1, pode ser gerado pela multiplicação de números primos então o número 531 é formado pelo número primo 59 e pelo número 9. O 59 é o número numerado ou numeroso e o número 9 o número numerante então qualquer número ou GRANDEZA(v. Euclides, quia de intuições) pode ser formado assim. O 59 é o Um do 531. Então pensou-se com acerto que o mesmo se poderia fazer com os sensíveis e encontrar a mônada que para mim é o mesmo que Idéia. Já na medicina o logos é o diagnóstico. O médico grego encontrou similaridade de sintomas entre dois doentes e fez o discernimento entre sintoma e doença. O desgosto para com coisa que antes se gostava, a dor de cabeça, a febre e as manchas no corpo não são autonomas e emboras devam ser tratadas elas não são seu problema: você está com dengue, meu filho, esse é o problema! A aplicação desta descoberta trouxe similares resultados que a da matemática.
Na verdade o logos da medicina é muito mais extenso e compraz não só a Idéia mas a metaidéia e o universal(embora nem sempre este último). A Idéia é um particular e tem existência tal qual um sensível e o sensível tem dependência ontológica do Ideal tal qual o 531 tem do 59 embora ambos sejam igualmente números(ou substância no caso da Idéia e sensível). O logos da medicina se aplica ao da Idéia na medida em que esta tem analogia para com o sensível. A metaidéia é algo que existe mas não tem substância. Perplexo? Exemplifico: o movimento sempre se dá ou substantivamente ou qualitativamente ou quantitativamente ou localmente e não existe fora ou além do ser. A metaidéia é o logos da medicina por excelência(strico sensu). O universal é um conjunto de coisas com as mesmas notas e que não existe em si, por exemplo o conjunto de múltiplos de 59. O logos da medicina, para não se confundir com o da matemática(idéia) foi cunhado como forma(lato sensu).
Sobre a diferença entre lógica e ontologia temos outra dica de Heráclito: "O caminho de subida e o de descida é o mesmo". Na lógica menor há sempre uma operação, por exemplo, 1+1=2 na matemática e as premissas e as conclusões de modo geral na lógica. Isso é algo próprio da lógica menor, o problema conceitual do antes e do depois. Pensamos "1+1" e "animal racional" como uma coisa e "2" e "homem" outra que "por sobreposição de imagens"(espécies de speculum que é espelho então são duas coisas, a imagem e a coisas que se dizem iguais quando sobrepostos"), no caso da lógica são iguais e pela união e separação de unidades no da matemática. A lógica menor é predominantemente psicológica(noológica se quisermos ser precisos). Somente com a teoria das Idéias e com a admissão da imutabilidade destas superaremos essa dualidade. Existe uma Lógica onde não existam duas coisas, mas mesmo com a dualidade de conceitos há unidade no ser. Essa Lógica não há demonstração e essa matemática onde não há operação se chama Metafísica ou Ontologia. Essa Lógica maior é o logos, o Pensamento, cujo objeto não é o conceito mais o Ser. LÓGICA É ONTOLOGIA sendo que ontologia é lógica aplicada e lógica é ontologia formal ou conceitual.
Cada uma das artes e a própria ciência tem uma lógica e modus operandi próprios(agora, lógica menor) mas que, como diz a máxima, são "mundos separados". Porém, transpostos esses limites, nenhuma delas aguenta a prova de fogo da dialética. Na matemática, e.g., se diz 1+1=2, mas é esse um que se ajunta ao outro ou o outro ao um? É só pela contiguidade que se forma o dois? E mais: se o 10 é maior que o 8 pelo 2 então a grandeza do dez é a pequenez do dois? É pela pequenez que é a grandeza? Semelhantemente na estética se dirá algo ser belo pelo brilho, ou forma ou pelo que for ou pela beleza? Embora sejam lógicas em si as consequências dos postulados não se harmonizam com o todo do conhecimento e da linguagem humana. Em suma, não há razão.
Não podemos seguir esse caminho. Admitir isso é negar racionalidade ao homem e também a existência de conhecimento, pois, conhecimento não pode ser válido só às vezes. Ou o conhecimento é válido erga omnes ou não é de modo algum. Não pode ser só para os que dormem. Se é verdade que a natureza não frustra e que Deus nos fez racionais então é porque tem que haver razão e devemos superar essa explicação pelos contrários por uma pelo si mesmo, i.e, o dois é dois pela dualidade, o 10 é maior que o 8 pela grandeza e o belo pela beleza. Ou seja, pela Idéia de dualidade, grandeza e beleza(não me vá confundir com conceito, que é um universal).
Isso é explicar uma coisa. Pois explicar vem de ex-plicare donde plicare é fazer rugas, dobras e explicare é portanto desenrugar, desembrulhar e foi precisamente o que fiz. Entendeste minhas afirmativas em outra clave, na de demonstração, mas o que fiz foi mostração, i. e, tentei desembrulhar o conceito por meio de símbolos e exemplos dar toda a dimensão das assertivas platônicas no que tange a idéia de modo que toda a rede de necessidades(incluso perguntas) ficasse clara.
A importância da teoria é conspícua pois dela depende nossa cognoscibilidade. Historicamente(e não tornarei mais a falar de história) de duas fontes provém a Idéia: da matemática e da medicina. O logos matemático busca um critérion, uma pedra de medida, onde se pode reduzir uma multiplicidade a uma unidade. Você pode formar qualquer número pela forma, expressa até por Aristóteles, de número numerante e numerado, por exemplo: sabemos que qualquer número natural, exceto o 1, pode ser gerado pela multiplicação de números primos então o número 531 é formado pelo número primo 59 e pelo número 9. O 59 é o número numerado ou numeroso e o número 9 o número numerante então qualquer número ou GRANDEZA(v. Euclides, quia de intuições) pode ser formado assim. O 59 é o Um do 531. Então pensou-se com acerto que o mesmo se poderia fazer com os sensíveis e encontrar a mônada que para mim é o mesmo que Idéia. Já na medicina o logos é o diagnóstico. O médico grego encontrou similaridade de sintomas entre dois doentes e fez o discernimento entre sintoma e doença. O desgosto para com coisa que antes se gostava, a dor de cabeça, a febre e as manchas no corpo não são autonomas e emboras devam ser tratadas elas não são seu problema: você está com dengue, meu filho, esse é o problema! A aplicação desta descoberta trouxe similares resultados que a da matemática.
Na verdade o logos da medicina é muito mais extenso e compraz não só a Idéia mas a metaidéia e o universal(embora nem sempre este último). A Idéia é um particular e tem existência tal qual um sensível e o sensível tem dependência ontológica do Ideal tal qual o 531 tem do 59 embora ambos sejam igualmente números(ou substância no caso da Idéia e sensível). O logos da medicina se aplica ao da Idéia na medida em que esta tem analogia para com o sensível. A metaidéia é algo que existe mas não tem substância. Perplexo? Exemplifico: o movimento sempre se dá ou substantivamente ou qualitativamente ou quantitativamente ou localmente e não existe fora ou além do ser. A metaidéia é o logos da medicina por excelência(strico sensu). O universal é um conjunto de coisas com as mesmas notas e que não existe em si, por exemplo o conjunto de múltiplos de 59. O logos da medicina, para não se confundir com o da matemática(idéia) foi cunhado como forma(lato sensu).
Sobre a diferença entre lógica e ontologia temos outra dica de Heráclito: "O caminho de subida e o de descida é o mesmo". Na lógica menor há sempre uma operação, por exemplo, 1+1=2 na matemática e as premissas e as conclusões de modo geral na lógica. Isso é algo próprio da lógica menor, o problema conceitual do antes e do depois. Pensamos "1+1" e "animal racional" como uma coisa e "2" e "homem" outra que "por sobreposição de imagens"(espécies de speculum que é espelho então são duas coisas, a imagem e a coisas que se dizem iguais quando sobrepostos"), no caso da lógica são iguais e pela união e separação de unidades no da matemática. A lógica menor é predominantemente psicológica(noológica se quisermos ser precisos). Somente com a teoria das Idéias e com a admissão da imutabilidade destas superaremos essa dualidade. Existe uma Lógica onde não existam duas coisas, mas mesmo com a dualidade de conceitos há unidade no ser. Essa Lógica não há demonstração e essa matemática onde não há operação se chama Metafísica ou Ontologia. Essa Lógica maior é o logos, o Pensamento, cujo objeto não é o conceito mais o Ser. LÓGICA É ONTOLOGIA sendo que ontologia é lógica aplicada e lógica é ontologia formal ou conceitual.
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