quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
Prefácio por José Perez dos Comentários à guerra Gálica
Com a reedição, agora, entre os famosos livros definitivos da humanidade, na série d“Os Mestres do Pensamento”, desta proverbial versão brasileira de Francisco Sotero dos Reis dos “Comentários à Guerra da Galia” — Commentarii de bello gallico — de Cesar, damos em cheio com um clássico dos pés à cabeça. Um inquestionável clássico que dois mil anos sagraram numa acrisolada admiração histórica e literária, arrolando-o, assim, entre os rarecentes escritores de todos os tempos libertos “à lei da morte” formulada, em famoso verso, por aquele que também pelo seu gênio portentoso a ela se forrou, Camões. Não para estes heróis, — heróis, muito mais do que Hitler com as suas vitórias devastadoras — evidente, o amargor pessimista que escorre dos versos do florentino que se lhes irmanou na glória:
É nossa fama qual matiz da planta,
que pouco dura, e o próprio sol desbota.
que a faz brotar da terra ingrata e dura.
(Dante — Purg. Cap. XI, trad. de Vila da Barra)
E já que também é, por inteiro, aproveitável, o prefácio de Sotero dos Reis para a edição de 1863 da sua preclara translação, e em cuja se plasmou perfeita síntese da silhueta de multivariadas facetas do imortal romano, nele, outrosim, se detendo a lhe mensurar o alcance da obra literária convergida para estes Comentários, então, em contrário ao que vimos até agora fazendo, de dar, em páginas prolegomenares, uma súmula do homem e da obra, pelas aludidas razões, não o fazemos nesta, aproveitando, entanto, este local, para uma falação breve sobre o título que o encima — assunto ao qual já temos dedicado alguma meditação.
Muito te hás de surprezar, leitor, se souberes que destas reedições clássicas se incumbiram sujeitos ainda mal entrados em sua madurez e que se alistaram, não faz muitos anos, numa série de rebeldias de toda ordem, anárquicas e desconjuntadoras, e cujo fito era, sempre, a sistemática e permanente oposição a tudo o que fosse passado, e, necessariamente, em arte, literatura e pensamento, àquilo que leva o nome de clássico. Levantaram-se contra isso e contra aquilo, somente porque rescendia a passado e a antigo numa fúria de iconoclastas, eis que os contaminara o morbus do investir e do desarticular. Borrascosamente irritabunda e demolitória, a triste geração do após 14 e que se funde, agora, no chão de brasas do Apocalipse de Hitler, acossada no mais íntimo da sua rede nervosa, revelou-se de uma turbulência irremovível que fê-la, às loucas, atirar-se contra todo o estabelecido e consagrado o mesmo é dizer-se que fê-la dar de cabeça ao muro... só que o muro ficou intacto — sorriria, se pudesse — e a cabeça ficou a lascas e a cacos o seu conteúdo. E agora nós, pobres homens modernos, sacrificados pela estupidez de uma velha mentalidade de ódios cegos que 1evou a humanidade ao braseiro, vesânica mentalidade que ao invés de intibiar após tantos anos de soprar virulento, como que mais se enturgece e ensancha ao cabo do mundo e aos extremos da vida, verificamos que da bulha insolente com que nos atrevemos contra tudo, querendo — aqui se enquadra o meu evangelho, o meu Quixote — “hacer nuevo mundo” — “no quieras hacer nuevo mundo” num lance de lucidez dizia a Sancho o bom do cavaleiro - não o fizemos de novo e esperdiçamos o tempo a investir o velho que... o vento não levou... O novo que construimos, esse, tão frágil era que, à nascença, já o vento levou... É que para construir algo de duradouro há-se de fazê-lo sobre o chão batido pelo esforço das velhas gerações a que, apenas, as subseguintes, levam o contributo do seu para enriquecê-lo... Não se deve, justo, dormir sobre o passado como um quichua... contemplando-o, imoto, como aquele corvo, “triste e só”, do poeta, à beira da corrente, e virando estátua com ele, aceitá-lo sem o acréscimo das gerações e da vida... Mas, também, renegá-lo por uma eliminação sem mais nem mais, é torpeza ou grandeza tamanha que só se compreenderia na onipotência de um bíblico demiurgo, capaz de tudo reduzir a nada e do nada tudo recompor.
Refletimos a alucinada decomposição do tempo. É esta a desculpa que lhe encontra ao baixo nível mental dos nossos dias. A fúria das iconoclastias bélicas determinou o desalento e a intranqüilidade que esterilizou e impossibilitou uma produção boa, segura e sistemática. Nunca o homem percorreu dias tão agitados, sobre um tablado instável, como aquelas escadas movediças que se inventou para não se fazer o esforço natural de subir meia dúzia de degraus... Mas, um desgaste maior de energia nervosa faz-se, ascendendo sobre o fugidio de uma escada a correr sob pés que só devem andar... A imagem, rápida, apressada e desnaturada da nossa vida se fixou, a meu juízo, nessas falsas escadas... E com tal impulso, como havíamos de bem produzir? Tudo vai de corrida, e logo nos cansamos, e caímos esfalfados... E se ainda voa sobre as nossas cabeças a ameaça permanente da destruição?!...
Sobre a nossa geração desabou a tormenta de duas guerras mundiais, a uma das quais assistimos em atitude de estupor; centenas de outras, aparentemente locais, mas, de verdade, furos de uma generalizada gangrena, ponteando, num giro universal da geografia política, da China ao Chaco, dos Balcãs a Marrocos; tumores revolucionários que abriram em chagas desumanas da Rússia à América sulina convulsionada a caudilhismos endêmicos.
Nunca faltou tanto a uma geração intelectual como à nossa, os dois plintos basilares sobre os quais se ergue a verdadeira cultura: a faculdade de investigar e a faculdade de meditar. Talvez ela tenha lido e mesmo lido muito, demais até, porém ineficazmente. Porque só leitura, sem calma, sem reflexão, sem observação, sem meditação, leitura apressada e perfuntória, não dá cultura... Esta, provém do estudo e até mesmo da pouca leitura - pauca sed bona — mas profundamente meditada. A grande sabedoria dos orientais, a dos chins, dos hindus, dos judeus, dos árabes, a profundidade de Descartes e de Spinoza — este dizia que “a filosofia é a meditação da vida” — promanaram mais do seu poder de meditação do que das suas meras e fáceis faculdades de ler. Olvidou-se a investigação das coisas naturais por meios naturais, e, apenas, em ciência, — coisa do nosso tempo — com uma aparelhagem complicada que esmaga o pensamento, tem-se investigado artificialmente. O grande aparelho de investigar e refletir — o cérebro — substituido por métodos mecânicos, parece que se vai embotando. Maldição dos inventos! Os produtos mecânicos do pensamento e das mãos, estão matando as mãos e o pensamento. Carell se alarma com o embotamento mental do homem contemporâneo.
Sobre um chão de tanta pressa e rapidez, como teríamos o tempo necessário para um cultivo perfeito do espírito? Cultivamos, sim, os males eufóricos e nos consumimos nas aras das coisas apressadas, como se o mundo se fosse a acabar... Triste geração de angústia, moldeada no cadinho de um mundo agônico: ossos despedaçados, carnes dilaceradas, alma em estilhas!
E não fomos nós que ateamos o braseiro a crepitar. Mas somos nós a expiação imbele e inocente das suas aras em fusão. Vai-se-nos a vida na pressa, sem tempo de conformar coisas que só com o tempo se assentam e ao madurarmos para a vida já vamos sentindo a inanidade dos nossos ideais. Pouco fizemos, se pouco é o nos havermos sacrificado e imolado à sanha dos ódios... dos outros... Somos uma geração sacrificada ao tumulto das iras e a nossa produção é seca e pêca. Assolados por uma infrene anarquia de prós e contra, de reformas e contra-reformas, que se precipitaram umas sobre outras, como cabeços de vagas, fomos mal educados e pior instruidos. No Brasil, as reformas da instrução pública, sempre experimentais e às cegas, nos fizeram de cobaia e nos tornaram exangues e quase inanidos. Somos uma geração que mirrou no berçário. Mal instruida, pensa mal e mal se expressa. É que os seus guias lhe inocularam o mal de tudo isso, que a sua ignorância catedralesca pompeava sem escrúpulo. Um jardim de infância ainda em experiência, um curso primário em eterna elaboração, um curso liceal reformado a cada passo, um curso superior sem bases firmes, sem preparação séria, uma vida intelectual leviana, fácil, facílima, com uns exemplos intelectuais sem cultura, modelos de trapaça e de embuste, sacrificaram as bases culturais da geração.
É de uso trivial a frase de que é esta uma geração de ignorantes. Não há de ser tanto. Deveria, isso sim, sê-lo pior do que é, dados os motivos que lhe reduziram as possibilidades mentais de estudo e meditação. Muito há de ficar devendo a nossa desgraça à estupidez política e à bruta estulticie dos que abriram a picada aos seus passos iniciais.
Mas, pior do que a atualidade, é o futuro sem esperanças. Porque, ao menos, a esta geração, coube-lhe a glória —?— do sacrifício. Mas para os que vêm, ainda não se abre a esteira das boas espectativas reabilitatórias. Houve um momento, depois de 14, em que ideais com eiva de boa fé, abriram à vida a fulgência dos grandes clarões. E parecia que, polarizada a dispersão dos homens descongregados pelo caos de uma burguesia em decomposição, os galvanizaria em novos entusiasmos. Mas logo se viu que nos sucessores dos grandes líderes daqueles momentos culminantes, rebrotavam os vícios que se procurava derruir. O fascismo, por sua parte, nunca constituiu um ideal, a não ser, especialmente na Alemanha, o ideal do desforço e da vingança, que conseguiu renuclear um povo para reproduzir outra catástrofe de conseqüências imprevisíveis. Formou-se, de novo, o vácuo e resurgiram as grandes ânsias, as decepções cruéis, as desilusões incicatrizáveis. Aos que dizem que nada sabemos, havemos de responder que já muito sabemos, eis que sabemos com certeza que fomos duramente defraudados e imolados...
Entanto, — especialmente antes de se desencadear a atual guerra — afigurava-se que para esta geração que agora passa, ainda esvoaçava alguma leve esperança. A visão da nossa triste realidade, talvez ainda nos pudesse salvar. Àqueles que a têm diante dos olhos desorbitados à contemplação da trágica paisagem, cumpre uma atitude tranqüila e honrada, intrépida e impávida, para reconhecer os erros e as falhas, os defeitos sanáveis, curando de os remediar sem desânimo. Façamos, então, o esforço tentacular da renovação... A geração dos trinta anos que passa, na acerbidade mesma da sua agonia, deve dar um passo atrás, tentar um exame de consciência implacável, fundamente austero e estóico, refluir a uma observação introspectiva severa, com os olhos também para a vida, e voltar aos fundamentos, reconstruindo-se a si própria. Visada de frente a realidade e conhecido o destroncamento de todos os conceitos e a desarticulação de todas as bases, tratemos de adaptar-nos às novas contingências. O poder de adaptação humana é muito maior do que em geral se acredita. Não nos demovam as dificuldades. Principalmente aos homens de clara inteligência, incumbe essa função. Um homem formidável dos nosos dias, que exorbitou de todas as craveiras da medição humana, define o homem inteligente como sendo “aquele que sobre a ponta de um prego é capaz não só de adaptar-se como de tirar partido dessa incômoda situação”. Estamos, de fato, sobre a incômoda ponta do prego. Vejamos, agora, já que não temos outro remédio, como nos havemos de amoldar o melhor possível.
E para começar, impõe-se uma volta ao passado, jamais para o imitar, jamais para o reerguer e nele nos modelarmos, mas, como quem carece de alicerces, para conhecê-lo. A esses vís cabotinos sem valor moral, proncipalmente, que nos antecederam, pensando mal e escrevendo pior, um cordial adeus de mão fechada. Foram um péssimo exemplo.
Sou contra o passado para, por um falso respeito, transformá-lo em rito intangível. Temos o direito de criticá-lo. Temos o direito de nos rebelar contra ele. Só não temos o direito de desconhecê-lo. E este conhecimento do passado só se pode fazer culturalmente e através dos bons escritores, abandonados pela geração. Daqueles escritores, tipo clássico. Clássicos porque, em formas superiores de bem exprimir-se, souberam focar o seu tempo, as suas tendências, os homens, os costumes, o bom e o mau que lhes passou pelos olhos, poderosos refletores testemunhais da vida que se foi. Como insuperáveis estetas, fixaram todos esses momentos, E o prêmio de tanta arte foi uma justa imortalidade. E por isso, resistem. Isto é um clássico: — um que resiste. Resistência que o tempo terrível e avassalador não consegue vencer. Que pôde o tempo contra Homero, a Bíblia, Cervantes? Pois esta inabalável resistência é que os tornou clássicos. Há uma observação certeira de Azorin que quero, aqui, por mim endossada, transcrever: “En el fondo, el problema de los clasicos es el mismo problema de la vida total de las sociedades, con sus instituciones y modalidades políticas.” Para mim, mais do que um valor estático de estética literária, vejo aflorar no clássico a imensa valia dinâmica de um documento não só histórico, mas, e principalmente, humano e psicológico. O clássico vale por um documento e um repositório de quanto vem ansiando a humanidade nas suas marchas e contra-marchas. Não acredito seja ele um manancial de lições, especialmente literárias. Aqui paro, para bem frisar, com a maior força de expressão que me seja possível: Não comprendo que o clássico seja um eterno motivo literário. Porisso, não posso comprender escritores dos nossos dias se plasmando, numa irritante e desprezível cópia servil, sobre os estilos dos velhos ecritores. Digo mais claro: não posso admitir, por exemplo, na língua portuguesa, reproduções do estilo de Vieira e outras sumidades da língua. E tão errado anda quem assim pratica, como quem, com a insânia modernista, anda a escrever segundo a fala — fala errada, pobre, mesquinha e vil — do pobre povo. Nunca, na verdadeira literatura, se escreveu consoante este falar. O pobre povo, a classe dos que não se educaram somente porque... porque, ora... porque não teve meios... porque é classe pobre... não pode nem deve ser imitada. Um escritor russo na Inglaterra, estudando Lenine pelo estilo, concluiu que esse revolucionário tinha um modo de escrever tão escorreito e correto que há de ficar clássico na língua russa. É que não se pode imitar o pior. Uma justa organização social deverá elevar o nível mental e social do pobre povo, fazendo-o escrever e falar bem. E jamais, haveremos de, por uma cretiníssima mística revolucionária, ou por uma visão estrábica da literatura, baixar até a miséria e à fala desengonçada e cassange do pobre povo... Errados estão estes senhores, imitadores de mau modelo, como aqueles outros, mata-borrões de clássicos. O que menos se deve procurar num clássico é o estudo de formas literárias para imitá-las: o seu grande valor deles, é um valor histórico, documentário, humano e psicológico, de altas conclusões filosóficas e políticas, sem que, entanto, para o estudo da evolução de uma língua, se despreze o seu aspecto literário. Entre clássicos e modernos interpõe-se uma natural evolução gramatical e estilística, e uma naturalíssima evolução de temas e de assuntos. E aqui bate a nota das diferenças: os temas diferem, como a vida, e trazem para o estilo um novo carregamento de palavras, de frases vivas que devem figurar no acervo da lingua renovada, acrescida e evolvida.
Contra a servil imitação puramente literária do clássico está a moderna insurreição daqueles que não poderiam ficar imóveis à sua contemplação. Mas caminham os modernos em extremo oposto: abandonaram, desprezaram, relegaram os velhos e bons clássicos. Destruir, eliminar, está bem, o velho inútil que teima em perpetuar a sua esterilidade. Mas fazer ruir, como vândalos, o testemunho do passado, pelo qual este se nos liga, sem o qual é impossível conhecê-lo e até conhecermos-nos, numa renegação estúpida, é demência... Delírio é, de fato, o desses literatos que, no Brasil especialmente, nestes últimos vinte anos, pretenderam em palmar o leme da inteligência, erguendo-se contra o bom velho clássico. Mas parece que já estão bem castigados. São verdadeiros “muertos vivos”, desorados a plena juventude. Poucos ficarão. E, esses poucos, serão talvez amostras de sólida incultura e estrambótica falta de gosto e de talento. Produziram inviavelmente. É que lhes faltou estudo e caráter intelectual. Que longe andou, no Brasil, esta geração chamada modernista, daquela tão rudemente atacada que, de verdade, teve os seus graves defeitos, — escrava da forma, fascinada pelas imitações clássicas — mas teve a honestidade dos estudos sérios! Refiro-me àquela plêiade que, especialmente, se congregou nos anos iniciais da Academia de Letras, com Rui, Nabuco, Euclides, Machado, Laet, João Ribeiro e outros. (É verdade que, posteriormente, nela se aninharam tipos de pouco ou nenhum valor, entre os quais se deve destacar a desse falsário, o sr. Gustavo Barroso).
Mas, se quisermos renovar-nos temos de começar pelos alicerces. Estes, estão no passado. E o passado deve ser reestudado para conhecimento, como fonte, Muitas vezes até ele pode instruir pela sua face negativa. Dizem que um grande político aconselhava o estudo da Comuna de 70 para se aprender como não se deve fazer uma revolução. O estudo do passado está nos velhos clássicos. E estes nos fazem falta.
Mas, como fazer-se a leitura clássica? Aqui, o cordial da questão. That is question. Para todas as interrogações, sempre a frase do solilóquio tenebroso da boca pressága de Hamlet. Lê-los, aos clássicos, no original, coisa impossível ao homem mais culto. Então, temos de recorrer às traduções, e, principalmente àquelas que se consagraram pela sua fidelidade e por outras virtudes, como sejam, clareza, estilo, etc.
Não podemos ler, entanto, do velho ou do novo, o que está traduzido recentemente no Brasil. O bas-fond dos dicionários ainda não registra o adjetivo que deveria qualificar os tradutores e as traduções feitas nestes últimos anos entre nós. Qualquer palavrão, daqueles, tipo estampido, que jogam para longe com o melhor da honra, ainda não serviria para imprimir sobre tais tradutores e tais editores a marca do desprezo e da justa infâmia. Uma polícia literária — que já se faz mister, com urgência, entre nós — deveria mandar incinerar o montão desses desprestígios intelectuais e riscar da nossa vida mental esses livros e esses autores, além de outras penas que poderiam caber aos bárbaros comerciantes de livros que, por justiça, deveriam ir às galés.
Diante, pois, da impossibilidade de ler-se o velho em novas traduções, impõe-se o aproveitamento dos antigos textos. Este é fenômeno que se observa nos grandes centros culturais do mundo. Primeiro, a faina das reedições da básica produção cultural da humanidade. Depois, em textos nus ou anotados, de excelentes edições críticas, o reaproveitamento de velhas e magníficas traduções, cuidadosamente revistas e modernizadas. Exemplifiquemos: clássicos nacionais e estrangeiros são ressuscitados e reeditados em língua inglesa. nessas duas estupendas publicações: A Modern Library Giant, New York e a Everyman’s Library e estas últimas já vão por mil e tantos volumes. Primores editoriais, gráfica, tipográfica, literária e criticamente, são os clássicos franceses e internacionais da Bibliothèque de La Pléiade, editados pela Librairie Gallimard, Paris. Ainda em França, além destes, há a vasta biblioteca dos clássicos Garnier. Os italianos se saem com aquela finura florentina das edições clássicas de A. Mondadori. Em Espanha, antes da catastrófica vitória de Franco, o cuidado retilíneo das edições de Aguilar, e as mais antigas, de Perlado. Edições dc grande alcance fazem-se, embora sem luxo, no México, com a Editorial Seneca, no Chile, com a Tor, e na Argentina, com a Espasa e o trabalho formidável da Losada. Em Portugal, reedições bem cuidadas e populares, são as da Livraria Sá da Costa.
E o que se verifica nestas ultra-modernas e cuidadosas edições? A honestidade mais intransigente dirige a orientação dos seus organizadores. Antigas traduções clássicas estão sendo reestampadas. A Gallimard reedita Plutarco na velha tradução — 1559 — de Amyot e, entre as muitas, antigas e modernas, preferiu a tradução francesa do Quixote, a cargo de Oudoul — 1615 — cuidadosamente revista por Jean Cassou. A Losada, de Buenos Aires, reedita Kant — A Crítica da Razão Pura — na tradução, de 1883, do cubano José del Perojo. O Plutarco da sua edição é a tradução de Antonio Rans Romanillos, de 1821 e as Tragédias de Sófocles se reeditam na versão de 1880, de Fernando Segundo Brieva Salvatierra.
Anos e anos passei-os na pesquisa bibliográfica de diferentes matérias. Entre as por mim aprofundadas, está a das velhas traduções boas e clássicas da língua. Um dia contarei o meu trabalho e publicarei, entre outras, esta bibliografia. E ao encetar estas edições recorri a elas. São primores que desentranho ao arquivo do esquecimento. Se têm contra si uma língua velha — dona Carolina demonstrou, aliás, que no século XII as palavras mais comuns da nossa língua já estavam formadas e em uso — é perfeitamente inteligível e sempre, além de saborosa, documental, tendo a seu favor o ativo formidável da fidelidade, do cuidado e da clareza. Naturalmente precisam de uma revisão, que não lhes sacrifique o texto, que não lhes prejudique a língua, mesmo prisca. Em tradução exige-se, antes de tudo e sobretudo, fidelidade e mais fidelidade, e esta, têm-na as velhas versões no seu maior grau. Como apurar isto? Facilmente: confrontando os textos. (Em geral, essas traduções vêm acompanhadas do texto original).
Ademais, se a nossa época está dominada pela preocupação de ordem científica, — chegando aos exageros do cientificismo, — os séculos passados foram dominados pela preocupação literária e histórica. Com muito acerto dizia Lord Lytton: “Das letras, os antigos; das ciências, os modernos”. Muito ao justo vem a citação, eis que, de fato, sem as preocupações de ordem científica que nos absorvem, eram os velhos mais cuidosos da expressão literal e literária do seu pensamento no que diz respeito à propriedade, ajuste das palavras e meneio das frases. Pode-se mesmo dizer que a língua se formou com eles. Intelectualmente, era essa a sua função. E sobre o conhecimento do próprio idioma, ainda se agregava o conhecimento da língua e da literatura ditas clássicas, especialmente da grega, latina e hebraica. Com efeito, eram eles apuradamente sabidos nesses idiomas, quando não mesmo eméritos latinistas, helenistas e hebraizantes. Montanhas de documentos literários, em escritos originais, traduções, versões, textos, dicionários, léxicos, gramáticas, nos ficaram. Tinham lazeres e propósitos nessas humanidades e, com o estudo das matemáticas, da teologia e da filosofia, eram essas, quase exclusivamente, as suas atividades. Daí, as linhas perfeitas dos seus escritos, que se refletem, também, nas suas ótimas traduções. As recentes descobertas históricas que podem modificar os antigos textos, não os modificam de tal modo que as velhas traduções fiquem inaproveitadas.
Em contraposição formal a este honesto proceder tivemos, nos recentes tradutores, analfabetos até a medula dos ossos, o aviltamento da língua, o rebaixamento criminoso do sentido, o desfazimento do conteúdo ideológico, a ignorância do idioma a traduzir e a fúria mercantil dos editores. Levados de todas estas razões foi que resolvemos reaproveitar os velhos textos em velhas traduções... Perdoe-se-nos o irônico recuo...
Já nestas nossas edições demos um pano de amostra do quanto valem as traduções reaproveitadas. Todas, primorosas. E aqui te damos, leitor, esta outra, na língua fiel e cristalina do gramático e historiador da nossa literatura, de Francisco Sotero dos Reis, dos Comentários de Cesar.* É mais uma jóia que engastamos na nossa série clássica “Os Mestres do Pensamento”.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
Dois Trechos Memoráveis do Sertillanges
-O trabalhador que no esforço novo encontra a recompensa do esforço antigo, que dele faz o
seu tesouro, é de ordinário um apaixonado; não há meio de o desapegar do que assim é
consagrado pelo sacrifício. O seu andar, na aparência mais lento, dispõe de recursos para ir
por diante. Pobre tartaruga laboriosa, não perde o tempo em ninharias, porfia, e ao fim de
poucos anos, ultrapassa a lebre indolente, cuja marcha desimpedida lhe causava inveja,
enquanto se arrastava lentamente.
****
-A humanidade cristã compõe-se de personalidades diversas, e nenhuma destas pode abdicar
daquela sem empobrecer o grupo e privar o eterno Cristo de parte do seu reino. Jesus Cristo
reina pelo seu desdobramento. A vida de qualquer dos seus <<membros>> é um instante
qualificado da sua duração; qualquer caso humano e cristão é um caso incomunicável, único e,
por conseguinte, necessário, da extensão do <<corpo espiritual>>. Se sois porta-luz, não
escondais, debaixo do alqueire, o brilho pequeno ou grande que de vós se espera na casa do
Pai de família. Amai a verdade e os seus frutos de vida, para bem vosso e dos outros;
consagrai ao estudo e à sua utilização o principal do vosso tempo e do vosso coração.
Todos os caminhos, excepto um, são maus para vós, visto que todos se apartam da direcção
onde se espera e se requer a vossa acção. Não sejais infiel a Deus, nem a vossos irmãos, nem
a vós próprios, rejeitando um apelo sagrado.
seu tesouro, é de ordinário um apaixonado; não há meio de o desapegar do que assim é
consagrado pelo sacrifício. O seu andar, na aparência mais lento, dispõe de recursos para ir
por diante. Pobre tartaruga laboriosa, não perde o tempo em ninharias, porfia, e ao fim de
poucos anos, ultrapassa a lebre indolente, cuja marcha desimpedida lhe causava inveja,
enquanto se arrastava lentamente.
****
-A humanidade cristã compõe-se de personalidades diversas, e nenhuma destas pode abdicar
daquela sem empobrecer o grupo e privar o eterno Cristo de parte do seu reino. Jesus Cristo
reina pelo seu desdobramento. A vida de qualquer dos seus <<membros>> é um instante
qualificado da sua duração; qualquer caso humano e cristão é um caso incomunicável, único e,
por conseguinte, necessário, da extensão do <<corpo espiritual>>. Se sois porta-luz, não
escondais, debaixo do alqueire, o brilho pequeno ou grande que de vós se espera na casa do
Pai de família. Amai a verdade e os seus frutos de vida, para bem vosso e dos outros;
consagrai ao estudo e à sua utilização o principal do vosso tempo e do vosso coração.
Todos os caminhos, excepto um, são maus para vós, visto que todos se apartam da direcção
onde se espera e se requer a vossa acção. Não sejais infiel a Deus, nem a vossos irmãos, nem
a vós próprios, rejeitando um apelo sagrado.
Platão, Carta VI
"Esta carta vós deveis ler; o melhor seria que lessem juntos, caso contrário ao menos dois; tão em comunhão quanto possível. Deveis reconhecê-la como um contrato e uma lei obrigatória, pois ela é justa. E deveis jurá-la com uma sobriedade não desprovida de música, assim como uma uma alegria que é irmã da sobriedade. Deveis jurá-la pelo Deus que é o guia em todas as coisas, presentes e futuras, e pelo nobre pai do guia e autor; o qual devemos ver em sua clareza, se formos verdadeiramente filósofos, na medida em que é possível para homens que são abençoados."
Machado de Assis Sobre Típico Intelectual Brasileiro
"ouve a Tupã e escuta a Momo
sem controversia,
e tanto adora o estudo, como
adora a inércia"
sem controversia,
e tanto adora o estudo, como
adora a inércia"
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
Bukowski Sobre as Mulheres:
"Estavam transformando nossa graduação em uma maldita comédia. A banda tocou o hino do colégio. Ficamos alinhados, cada um esperando sua hora de marchar pelo palco. Na platéia estavam nossos pais e amigos.
- Estou quase vomitando - disse um dos caras.
- Saímos de uma merda para nos metermos em outra - disse outro.
As garotas pareciam encarar as coisas com a maior seriedade. Era por isso que não se podia confiar nelas. Pareciam compactuar com as coisas erradas. Elas e o colégio pareciam cantar em uníssolo o mesmo hino."
- Estou quase vomitando - disse um dos caras.
- Saímos de uma merda para nos metermos em outra - disse outro.
As garotas pareciam encarar as coisas com a maior seriedade. Era por isso que não se podia confiar nelas. Pareciam compactuar com as coisas erradas. Elas e o colégio pareciam cantar em uníssolo o mesmo hino."
Análise do Tema da Analogia - Mário Ferreira dos Santos
Os que defendem a analogia no ser, alegam a seu favor que o ser finito é tão dissemelhante do infinito, que entre o ser do homem e do de Deus, há apenas uma analogia de proporção.
Não é de admirar que se afirme haver uma incomensu-rabilidade entre nós e Deus, pois há incomensurabilidade até entre o que se dá aqui, como entre o diâmetro e a circunferência, e nas proporções dos números de ouro dos pita-góricos.
O infinito não tem medida; o infinito é medida qualitativa do finito.
Essas medidas não são unívocas, mas análogas (de participação), afirmam os que defendem a analogia do ser.
Na analogia, há a participação do analogado pelos ana-logantes, e tal participação indicia a identificação mais remota ou próxima, segundo o nosso esquema.
Na ordem noética, a participação chama-se analogia; na ordem ontológica, a analogia chama-se participação.
Os esquemas noéticos, que, por abstracção, construímos, participam dos esquemas concretos dos factos, que os captamos apenas como quididades noéticas, reduzidas a esquemas eidético-noéticos. Nesta maçã, por sua vez, o seu esquema concreto participa do esquema essencial da maçã, pois ela não esgota as possibilidades desta, mas apenas um sector dessas possibilidades, da mesma forma que esses três livros não esgotam, enquanto três, no esquema concreto de três, aqui e agora, hic et mine, as possibilidades concretas do esquema essencial três, que é um pensamento do ser, e que pode, concretamente, surgir em três cadeiras, três mesas, etc. Portanto, o esquema essencial (o arithmós, no sentido pitagórico, já por nós estudado em "Teoria do Conhecimento") é do ser, subsistente no ser, e um poder do ser, cuja existen-cialização (para empregarmos uma expressão bem avice-niana) se faz por participação. Esses livros são três, o três há neles, concretamente, não está neles, porque o arithmós três, neles concrecionado, é participante de três como arithmós essencial (esquema essencial).
Portanto, há nesses três livros uma analogia com três, e uma analogia com três mesas, três cadeiras. E são eles análogos porque participam do mesmo esquema três; por isso, na ordem ontológica, a analogia chama-se participação.
Ora, todo o ente finito participa do Ser, esse parte ca-perem, de São Tomás, pois o Ser Supremo inclui todas as perfeições em sua mais elevada e acabada realização; ou seja, segundo suas completas possibilidades, pois tudo quanto há, há no Ser, e como nada se dá fora dele, éle contém todas, as perfeições, de que uma perfeição parcial, este ente finito, hic et mine, é apenas participante. Por isso, entre o ser finito, ou melhor entre o ser criado e o Ser Supremo, criador, há apenas uma analogia de proporção. Cada ente reflecte parte dessa perfeição, na sua perfeição, no seu acto, pois, como sabemos, na escolástica, o acto é a perfeição da potência; o que é acto é a actualização de uma aptidão, que, enquanto tal, é imperfeita.
Agora, se considerarmos o conteúdo conceituai, veremos que há nele uma analogia, quando aplicada a vários entes. Se considero a cadeira um "móvel composto de assento, encosto e pernas, com a função de permitir que uma pessoa nela se assente", entre esta cadeira e aquela, o conceito, que nelas é comum, porque nelas considera apenas aquelas notas que têm em comum, é unívoco. Ou em outras palavras, há univocidade conceituai entre essas duas cadeiras. Nelas, desprezamos tudo o mais que as pode diferenciar, como o ser esta de madeira, aquela de metal, etc. Há, deste modo, uma certa identidade entre esses objectos, identidade parcial, pois desconsidero o que nelas é heterogéneo.
Mas, o conceito de ser apresenta uma particularidade que o diferencia dos outros. Tudo quanto é heterogéneo é ainda ser, e não apenas o que há de homogéneo, o que não se verificava no exemplo anterior. Não há, aí, portanto, identidade no que expressa, porque se considerarmos que ser apenas expressa uma parte dos objectos (isto é, se admitimos que o conceito de ser tem uma representação parcial), as notas heterogéneas seriam extrínsecas ao ser, e neste caso seriam idênticas ao não-ser, o que nos colocaria num verdadeiro contra-senso.
Portanto, concluem os tomistas, o conceito de ser é ape-nos proporcional entre os seres, não é unívoco, mas apenas análogo.
Mostram-nos os tomistas que todo conceito unívoco pode ser expresso por um termo abstracto e por um termo concreto. O termo abstracto expressa uma abstracção "formal", por ex.: dureza. Expressa êle certa forma ou qualidade, isolada do seu sujeito (cxprimit subjectum sed non to-tum). Mas, quando digo que esta casa é verde, considero-a dotada da côr verde. Indica o sujeito integralmente (a casa), mas qualifica-o por uma de suas determinações (ex-prímit subjectum totum, sed non totaliter = expressa todo o objecto, não porém totalmente). É o termo concreto. O termo concreto expressa o próprio sujeito afectado de uma determinação particular. É o resultado de uma abstracção "total", isto é, efectuada sobre o todo. Quando digo "negro", refiro-me a um certo sujeito dotado da "negrura".
Posso predicar o termo concreto do sujeito, mas o termo abstracto não pode ser predicado do sujeito. Posso dizer que este homem é negro, não posso dizer porém que êle é negrura, pois não posso considerar a parte como idêntica ao todo.
O termo ser empregado expressa sempre o sujeito totalmente e sob todos os aspectos e relações (exprimit sub-jectu totum et totaliter — expressa todo e totalmente o sujeito). O ser, por abstracto que se queira tornar, não exclui, não separa, não isola um aspecto parcial do sujeito; desta forma, no ser, a abstracção total e a abstracção formal se equivalem. Se digo que este livro existe ou que este livro é sua existência, é indiferente, porque existe e existência são equivalentes.
Fazem deste modo os tomistas questão de salientar que o ser não é nunca um aspecto, um elemento, uma determinação dissociável, mesmo quando considerado logicamente, dos outros, pois quaisquer das outras determinações são intrínseca e formalmente o ser.
Esse o aspecto misterioso do real, unidade na diversidade e diversidade na unidade. Quando conceptualizamos a ideia de ser, temos uma ideia, mas confusa (de confundere, de fundir com, misturada), por isso analógica do ser, que na sua essência nos escapa; isto é, temos um sabor quiditativo do ser não quidditative, exaustivo até à sua essência, o que fronèticamente se o tivéssemos, por fusão com êle, nos poria em estado de beatitude, o que pelos tomistas, nos é negado nesta vida" ("Ontologia e Cosmologia" págs. 75-85).
Um mais aprofundado estudo da gnosiologia e da noolo-gia, do funcionar do nosso conhecimento e da mente humana, mostra-nos que há validez nos esquemas noéticos que construímos, pois, desde que sejam rigorosamente estructu-rados, correspondem a fundamentos reais.
Se prestar-se atenção a conceituação lógica, já escorreita da capa experimental, purificando-a do que é da nossa pragmática, para considerar o conceito na sua estructura ei-dético-noética, formal portanto, ver-se-á que os conceitos se entrosam em nexos rigorosos, que não permitem entre eles, enquanto tais,outra distinção que a meramente real-formal, e não real-física. O mesmo nexo unitivo que, ontologicamente, sentimos dar-se no ser que, em sua essência, é um, e não múltiplo, revela-se aqui, analogando as formalidades uma às outras, como os seres se analogam existencialmente uns aos outros.
Entre aquela estrela e nós, há alguma coisa em comum, sentia-o Goethe, porque, do contrário, como poderíamos conhecê-la de qualquer modo? Entre os seres há sempre uma relação de semelhança e de diferença, porque do contrário teríamos de aceitar um abismo entre os seres, o que nos colocaria, de chofre, nas aporias do pluralismo.
O diferente absoluto, que estabelecemos no estudo da analogia, refere-se à haecceitas, ao arithmós individual na linguagem pitagórica, à unicidade da singularidade que, como tal, não se confunde com outra, pois é apenas ela mesma, numericamente distinta, como também o é ônticamente distinta. Mas, esse absoluto não é algo que se separa fisicamente do ser, pois o que individualiza, singulariza, e dá unicidade ao ente não é um ser fora do ser, mas no ser. É apenas o arithmós, o conjunto, o arithmós plethos de uma unidade, que é o arithmós tonos, o arithmós tensão, que o distingue de tudo o mais. O que um homem, como existente, é, em sua unicidade, é o arithmós, que é, que é só êle (singularidade), que constitui a sua forma individual. Mas a com-ponência desse ser é do ser.
Assim como a matemática nos mostra que são possíveis combinações potencialmente infinitas, o arithmós individual é próprio de cada um, sem necessidade de afirmar uma identidade com outro quanto ao conjunto (plethós) de uma unidade, que se identifica no ser, por ser apenas ser (1). Consequentemente, entre todas as coisas há uma analogia mais próxima ou mais remota, pois o indivíduo, quando se unívoca na espécie e esta no género, conserva a sua diferença individual ou específica.
A participação por hierarquia formal nos permite compreender desse modo a via symbolica, o itinerarium mysti-cum que podemos seguir, pois, partindo das qíiididades que compõem o arithmós plethós de um ser (há aqui um arithmós tomado no conjunto das qíiididades), podemos ver que Considerm-se, ainda, como virtudes anexas da prudência as seguintes: a eubulia, o hábito" recto de consultar; a synesis, o hábito recto de julgar segundo regras comuns; a gnome, o hábito recto de julgar segundo os princípios superiores, sobretudo jurídicos.
Não é de admirar que se afirme haver uma incomensu-rabilidade entre nós e Deus, pois há incomensurabilidade até entre o que se dá aqui, como entre o diâmetro e a circunferência, e nas proporções dos números de ouro dos pita-góricos.
O infinito não tem medida; o infinito é medida qualitativa do finito.
Essas medidas não são unívocas, mas análogas (de participação), afirmam os que defendem a analogia do ser.
Na analogia, há a participação do analogado pelos ana-logantes, e tal participação indicia a identificação mais remota ou próxima, segundo o nosso esquema.
Na ordem noética, a participação chama-se analogia; na ordem ontológica, a analogia chama-se participação.
Os esquemas noéticos, que, por abstracção, construímos, participam dos esquemas concretos dos factos, que os captamos apenas como quididades noéticas, reduzidas a esquemas eidético-noéticos. Nesta maçã, por sua vez, o seu esquema concreto participa do esquema essencial da maçã, pois ela não esgota as possibilidades desta, mas apenas um sector dessas possibilidades, da mesma forma que esses três livros não esgotam, enquanto três, no esquema concreto de três, aqui e agora, hic et mine, as possibilidades concretas do esquema essencial três, que é um pensamento do ser, e que pode, concretamente, surgir em três cadeiras, três mesas, etc. Portanto, o esquema essencial (o arithmós, no sentido pitagórico, já por nós estudado em "Teoria do Conhecimento") é do ser, subsistente no ser, e um poder do ser, cuja existen-cialização (para empregarmos uma expressão bem avice-niana) se faz por participação. Esses livros são três, o três há neles, concretamente, não está neles, porque o arithmós três, neles concrecionado, é participante de três como arithmós essencial (esquema essencial).
Portanto, há nesses três livros uma analogia com três, e uma analogia com três mesas, três cadeiras. E são eles análogos porque participam do mesmo esquema três; por isso, na ordem ontológica, a analogia chama-se participação.
Ora, todo o ente finito participa do Ser, esse parte ca-perem, de São Tomás, pois o Ser Supremo inclui todas as perfeições em sua mais elevada e acabada realização; ou seja, segundo suas completas possibilidades, pois tudo quanto há, há no Ser, e como nada se dá fora dele, éle contém todas, as perfeições, de que uma perfeição parcial, este ente finito, hic et mine, é apenas participante. Por isso, entre o ser finito, ou melhor entre o ser criado e o Ser Supremo, criador, há apenas uma analogia de proporção. Cada ente reflecte parte dessa perfeição, na sua perfeição, no seu acto, pois, como sabemos, na escolástica, o acto é a perfeição da potência; o que é acto é a actualização de uma aptidão, que, enquanto tal, é imperfeita.
Agora, se considerarmos o conteúdo conceituai, veremos que há nele uma analogia, quando aplicada a vários entes. Se considero a cadeira um "móvel composto de assento, encosto e pernas, com a função de permitir que uma pessoa nela se assente", entre esta cadeira e aquela, o conceito, que nelas é comum, porque nelas considera apenas aquelas notas que têm em comum, é unívoco. Ou em outras palavras, há univocidade conceituai entre essas duas cadeiras. Nelas, desprezamos tudo o mais que as pode diferenciar, como o ser esta de madeira, aquela de metal, etc. Há, deste modo, uma certa identidade entre esses objectos, identidade parcial, pois desconsidero o que nelas é heterogéneo.
Mas, o conceito de ser apresenta uma particularidade que o diferencia dos outros. Tudo quanto é heterogéneo é ainda ser, e não apenas o que há de homogéneo, o que não se verificava no exemplo anterior. Não há, aí, portanto, identidade no que expressa, porque se considerarmos que ser apenas expressa uma parte dos objectos (isto é, se admitimos que o conceito de ser tem uma representação parcial), as notas heterogéneas seriam extrínsecas ao ser, e neste caso seriam idênticas ao não-ser, o que nos colocaria num verdadeiro contra-senso.
Portanto, concluem os tomistas, o conceito de ser é ape-nos proporcional entre os seres, não é unívoco, mas apenas análogo.
Mostram-nos os tomistas que todo conceito unívoco pode ser expresso por um termo abstracto e por um termo concreto. O termo abstracto expressa uma abstracção "formal", por ex.: dureza. Expressa êle certa forma ou qualidade, isolada do seu sujeito (cxprimit subjectum sed non to-tum). Mas, quando digo que esta casa é verde, considero-a dotada da côr verde. Indica o sujeito integralmente (a casa), mas qualifica-o por uma de suas determinações (ex-prímit subjectum totum, sed non totaliter = expressa todo o objecto, não porém totalmente). É o termo concreto. O termo concreto expressa o próprio sujeito afectado de uma determinação particular. É o resultado de uma abstracção "total", isto é, efectuada sobre o todo. Quando digo "negro", refiro-me a um certo sujeito dotado da "negrura".
Posso predicar o termo concreto do sujeito, mas o termo abstracto não pode ser predicado do sujeito. Posso dizer que este homem é negro, não posso dizer porém que êle é negrura, pois não posso considerar a parte como idêntica ao todo.
O termo ser empregado expressa sempre o sujeito totalmente e sob todos os aspectos e relações (exprimit sub-jectu totum et totaliter — expressa todo e totalmente o sujeito). O ser, por abstracto que se queira tornar, não exclui, não separa, não isola um aspecto parcial do sujeito; desta forma, no ser, a abstracção total e a abstracção formal se equivalem. Se digo que este livro existe ou que este livro é sua existência, é indiferente, porque existe e existência são equivalentes.
Fazem deste modo os tomistas questão de salientar que o ser não é nunca um aspecto, um elemento, uma determinação dissociável, mesmo quando considerado logicamente, dos outros, pois quaisquer das outras determinações são intrínseca e formalmente o ser.
Esse o aspecto misterioso do real, unidade na diversidade e diversidade na unidade. Quando conceptualizamos a ideia de ser, temos uma ideia, mas confusa (de confundere, de fundir com, misturada), por isso analógica do ser, que na sua essência nos escapa; isto é, temos um sabor quiditativo do ser não quidditative, exaustivo até à sua essência, o que fronèticamente se o tivéssemos, por fusão com êle, nos poria em estado de beatitude, o que pelos tomistas, nos é negado nesta vida" ("Ontologia e Cosmologia" págs. 75-85).
Um mais aprofundado estudo da gnosiologia e da noolo-gia, do funcionar do nosso conhecimento e da mente humana, mostra-nos que há validez nos esquemas noéticos que construímos, pois, desde que sejam rigorosamente estructu-rados, correspondem a fundamentos reais.
Se prestar-se atenção a conceituação lógica, já escorreita da capa experimental, purificando-a do que é da nossa pragmática, para considerar o conceito na sua estructura ei-dético-noética, formal portanto, ver-se-á que os conceitos se entrosam em nexos rigorosos, que não permitem entre eles, enquanto tais,outra distinção que a meramente real-formal, e não real-física. O mesmo nexo unitivo que, ontologicamente, sentimos dar-se no ser que, em sua essência, é um, e não múltiplo, revela-se aqui, analogando as formalidades uma às outras, como os seres se analogam existencialmente uns aos outros.
Entre aquela estrela e nós, há alguma coisa em comum, sentia-o Goethe, porque, do contrário, como poderíamos conhecê-la de qualquer modo? Entre os seres há sempre uma relação de semelhança e de diferença, porque do contrário teríamos de aceitar um abismo entre os seres, o que nos colocaria, de chofre, nas aporias do pluralismo.
O diferente absoluto, que estabelecemos no estudo da analogia, refere-se à haecceitas, ao arithmós individual na linguagem pitagórica, à unicidade da singularidade que, como tal, não se confunde com outra, pois é apenas ela mesma, numericamente distinta, como também o é ônticamente distinta. Mas, esse absoluto não é algo que se separa fisicamente do ser, pois o que individualiza, singulariza, e dá unicidade ao ente não é um ser fora do ser, mas no ser. É apenas o arithmós, o conjunto, o arithmós plethos de uma unidade, que é o arithmós tonos, o arithmós tensão, que o distingue de tudo o mais. O que um homem, como existente, é, em sua unicidade, é o arithmós, que é, que é só êle (singularidade), que constitui a sua forma individual. Mas a com-ponência desse ser é do ser.
Assim como a matemática nos mostra que são possíveis combinações potencialmente infinitas, o arithmós individual é próprio de cada um, sem necessidade de afirmar uma identidade com outro quanto ao conjunto (plethós) de uma unidade, que se identifica no ser, por ser apenas ser (1). Consequentemente, entre todas as coisas há uma analogia mais próxima ou mais remota, pois o indivíduo, quando se unívoca na espécie e esta no género, conserva a sua diferença individual ou específica.
A participação por hierarquia formal nos permite compreender desse modo a via symbolica, o itinerarium mysti-cum que podemos seguir, pois, partindo das qíiididades que compõem o arithmós plethós de um ser (há aqui um arithmós tomado no conjunto das qíiididades), podemos ver que Considerm-se, ainda, como virtudes anexas da prudência as seguintes: a eubulia, o hábito" recto de consultar; a synesis, o hábito recto de julgar segundo regras comuns; a gnome, o hábito recto de julgar segundo os princípios superiores, sobretudo jurídicos.
Voegelin em Hitler e os alemães
"Permiti-me informar-vos da reação a Hitler de um homem de qualidade, de reconhecida qualidade. Pode ser encontrada nos diários de Thomas Mann para os anos de 1933 e seguintes. Aqui, Mann fala das observações de Wasserman acerca de Max Planck:
'que estava fazendo relatos a Hitler concernentes às demissões de professores semitas e teve de ouvir uma resposta de 45 minutos, da qual retornou para casa completamente arrasado. Era como a fofoca de uma velha camponesa acerca de matemática - no nível de uma pessoa semi-analfabeta com idéias fixas, como nada que o famoso cientista jamais ouvira na vida. Dois mundos entraram encontato quando da ascensão estúpida e demagógica deste indivíduo ao poder: o conhecimento, a erudição, o pensamento rigoroso ouve a insolência de expectorações professorais, e se curva, afastando-se.'
Aí tendes a tragédia do caráter alemão. Quando essa ralé abjeta chega ao poder, terminou a cultura. Aí só se pode curvar-se e ir embora."
O Verdadeiro Segredo do Sucesso
"At Pepsi we like Cola Wars. We know they are good for business - for ALL soft drinks brands. You see, when public gets interested in the Pepsi-Cola competition, often Pepsi doesn't win at Coke's expense and Coke doesn't win at Pepsi's. Everybody in the business wins. Consumer interest swells at market. The more fun we provide, the more people buy our products - ALL our products."
Roger E. Enrico, chief executive of Pepsi
Roger E. Enrico, chief executive of Pepsi
Um trecho de Tucídides
"Nor was this the only form of lawless extravagance wich owed its origin to the plague. Men now coolly ventured in what they had formerly done in a corner, and not just as they pleased, seeing the rapid transition produced by persons in prosperity suddenly dying and those who before had nothing succeding to their property. So they resolved to spend quickly and enjoy themselves, regarding their lives and riches as alike things of a day. Preserverance in what men called honour was popular with none(...). Fear of gods or law of man there are none to restrain them . As for the first, they judged it to be the same wether they worshipped or not, as they saw all alike perishing; and for the last, no one expect to live to be brought to trial for his offences, but each felt that a far severer sentence had been already passed upon them all and hung ever over their heads, and before this fell it was only reasonable to enjoy life a little"
Johan Huizinga em Homo ludens
Para os gregos os tesouros do espírito eram frutos do ócio - skole - e para o homem livre durante todo o tempo durante o qual não lhe era exigida qualquer prestação de serviço ao Estado, à guerra ou ao rito era tempo livre, de modo que dispunha mesmo de bastante lazer. A palavra escola tem por trás dela uma história curiosa. Originalmente significava "ócio", adquirindo depois o sentido completamente oposto de trabalho e preparação sistemática, à medida que a civilização foi restringindo cada vez mais a liberdade que os jovens tinham de dispor do seu tempo, e levando estratos cada vez mais amplo de jovens para uma vida cotidiana de rigorosa aplicação, da infância em diante
A Camões - Manuel Bandeira
Quando n'alma pesardes tua raça
A névoa da pagada e vil tristeza,
Busque ela sempre a glória que não passa
Em teu poema de heroísmo e de beleza.
Gênio purificado na desgraça,
tu resumiste em ti toda a grandeza,
poeta e soldado, em ti brilhou sem jaça
o amor da grande pátria portuguesa.
E enquanto o fero canto ecoar na mente
da estirpe que em perigos sublimados
plantou a cruz em cada continente,
Não morrerá sem poetas nem soldados
a lingua em que cantaste rudemente
as armas e os barões assinalados
Quantos copos o terremoto quebrou - Olavo de Carvalho
Para ir adiante no estado de filosofia, o sujeito precisa ter tolerância para com o estado de dúvida. Esta tolerância é alimentada numa espécie de fé que nós temos. Fé, que é baseada na experiência, de que a impressão de caos que você está tendo é passageira. Lembrar que o caos está em você, na sua mente e não na ordem da realidade. A segunda guerra mundial, por exemplo, durou 5 anos, matouno total 40 milhões de pessoas. Mas e as outras pessoas? O que estavam fazendo? Será que a vida cotidiana parou? As pessoas não tomavam mais banho, não comiam, não conversavam, não namoravam? Não iam à praia? Será que isto não acontecia? Mesmo dentro de uma situação de caos histórico-social extremo, a ordem profusa continua lá. O número de pessoas que é afetado diretamente pela situação de caos, as vítimas diretas são em número pequeno se você tomar a totalidade da população envolvida. Teve um terremoto no Chile. Quantos copos o terremoto quebrou? E quantos copos existem no Chile? A experiência humana do mundo real é
experiência de uma profunda estabilidade que se prolonga no tempo e de uma sucessão imensa de
processos e transformações absolutamente pacíficos: o crescimento de uma árvore, o germinar de uma planta, o crescimento do feto na barriga da mãe, a lenta acumulação de bens pelo trabalho, o seu próprio crescimento, o desenvolvimento humano,os movimentos dos planetas no céu, os processos de erosão que estãoalisando as montanhas, mudando o perfil das pedras. São processos lentíssimos. Este é o fundo da nossa experiência. O ato mais elementar de percepção, ao qual me referi no começo, de captar um ente singular e apreender nele a forma inteira da espécie que se manifesta integralmente nele - embora não revelando toda suas potencialidades e variação – revela uma estabilidade real. Mesmo que você seja um evolucionista radical, terá de concordar que se as espécies mudam, elas levam um tempo desgraçado para fazer isso. Não dá para ser evolucionista sem reconhecer espécies. Se não há espécies, não há evolução das espécies. Você pode tentar me provar que uma lagartixa virou um orangotango, mas é porque você sabe o que é uma lagartixa e o que é um orangotango. Portanto, o tempo de duração das espécies não muda o que eu estou falando, e o tempo de duração do universo, também não afeta em nada o que estou falando. Nós temos o senso do caos, da desordem do susto, do espanto; porque nós vivemos num mundo que é feito de processos regulares e lentos e entre-mesclados de tal maneira que um não atrapalha o outro. Não é incrível? Porque veja se olhar pra cima os planetas estão girando em torno do sol, fazendo isso há um tempão e ao mesmo tempo aqui as árvores estão crescendo, os ventos sopram, os rios correm; é porque nós vivemos num fundo de estabilidade móvel. Se fosse uma coisa totalmente parada nós não poderíamos chamar de estabilidade, porque se nada acontece você nada percebe. Se não há alteração, não há percepção. Então nós vivemos num mundo que é feito de alterações. E estas alterações são lentas, por assim dizer, orgânicas.
experiência de uma profunda estabilidade que se prolonga no tempo e de uma sucessão imensa de
processos e transformações absolutamente pacíficos: o crescimento de uma árvore, o germinar de uma planta, o crescimento do feto na barriga da mãe, a lenta acumulação de bens pelo trabalho, o seu próprio crescimento, o desenvolvimento humano,os movimentos dos planetas no céu, os processos de erosão que estãoalisando as montanhas, mudando o perfil das pedras. São processos lentíssimos. Este é o fundo da nossa experiência. O ato mais elementar de percepção, ao qual me referi no começo, de captar um ente singular e apreender nele a forma inteira da espécie que se manifesta integralmente nele - embora não revelando toda suas potencialidades e variação – revela uma estabilidade real. Mesmo que você seja um evolucionista radical, terá de concordar que se as espécies mudam, elas levam um tempo desgraçado para fazer isso. Não dá para ser evolucionista sem reconhecer espécies. Se não há espécies, não há evolução das espécies. Você pode tentar me provar que uma lagartixa virou um orangotango, mas é porque você sabe o que é uma lagartixa e o que é um orangotango. Portanto, o tempo de duração das espécies não muda o que eu estou falando, e o tempo de duração do universo, também não afeta em nada o que estou falando. Nós temos o senso do caos, da desordem do susto, do espanto; porque nós vivemos num mundo que é feito de processos regulares e lentos e entre-mesclados de tal maneira que um não atrapalha o outro. Não é incrível? Porque veja se olhar pra cima os planetas estão girando em torno do sol, fazendo isso há um tempão e ao mesmo tempo aqui as árvores estão crescendo, os ventos sopram, os rios correm; é porque nós vivemos num fundo de estabilidade móvel. Se fosse uma coisa totalmente parada nós não poderíamos chamar de estabilidade, porque se nada acontece você nada percebe. Se não há alteração, não há percepção. Então nós vivemos num mundo que é feito de alterações. E estas alterações são lentas, por assim dizer, orgânicas.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Ensaio sobre O Duplo - Dostoiewski
Terminei meu primeiro Dostoiewski e a leitura me pareceu maravilhosa. Tive mesmo vontade de lê-los todos ali, naquele instante. Mas isso seria palavrório vazio se não explicasse bem o caso. Comprei "o Duplo" recomendado pelo fer durante uma visita à Curitiba e trouxe para ler no navio e, ao final, senti aquela impressão somente causada pelo contato com literatura imaginativa. De início é um desconforto e, logo depois, uma vontade de entrar naquele mundo recém conhecido - aquela vontade da segunda frase. Ao final da leitura, me senti confuso, ofendido, desafiado em minha honra: eu tinha de dar uma resposta àquilo. Eu tinha um dever.
Contra mim pesa a inexperiência em literaturas que tem forte elemento psicológico. Não são minha praia. Prefiro as "literaturas pragmáticas" onde o elemento simbólico pesa mais que o alegórico e se tira com muito mais facilidade e precisão uma "lógica simbólica". Mas onde se pode efetivamente distinguir o alegórico do simbólico em um autor moderno? Mas não posso entender isso como uma justificativa e embora não preparado(o que requer, pelo menos, a leitura das obras completas), posso esboçar, a partir de meus atuais conhecimentos, um modo de entender a obra que, para fins de comparação quando ler as obras toda completas, me permita entender a contribuição do autor senão na literatura universal pelo menos na minha visão de literatura.
Problemas
Como meio interpretativo resolvi pensar em problemas que podem ser resolvidos, posto que não posso dar uma interpretação de conjunto. São todos, portanto, problemas que me vieram a mente e não, por assim dizer, uma descoberta de chave de abóboda interpretativa:
I- A cena do último baile me parece não ter lugar na realidade dos personagens, senão na do senhor Golyádkin, e, além disso, iverídica também parece ser a primeira aparição do duplo. Lembremos, no entanto, quando da aparição no trabalho que todos asseguraram a existência física do Golyádkin segundo. Onde começa e onde termina a realidade nessa história "absolutamente verídica"?
II- Qual é a função do duplo na história? E qual seu valor explicativo para que esta história seja, nas palavras do autor, "absolutamente verídica"?
III- No apêndice da edição da 34, Paulo Bezerra, diz ter sido a "falta de responsabilidade ética por suas palavras" durante a confissão com o duplo, a causa da ruína e por fim loucura de nosso herói. Honestamente, quem consegue ter essa responsabilidade em alto nível é, para mim, alguém de invejável grandeza moral. Quero dizer que ao expressarmos valores éticos estamos sempre de alguma forma sendo utópicos. Terá Dostoiewski nos passando uma lição de moral com seu livro? Qual a causa da loucura do senhor Golyádkin primeiro?
IV- É acima de qualquer dúvida que Golyádkin teve o fim trágico por não ter cumprido a ordem médica de "não se furtar a uma vida alegre; frequentar espetáculos e clubes e em todo o caso não ser inimigo da garrafa". Qual a dimensão desta sentença?
Uma explicação literária deveria ser capaz de explicar não só o todo mas também os episódios individuais e de harmonizá-los. Isso me parece fora de cogitação e a resposta aos problemas terá como resultado o alivio de minha estupefação ante essas aventuras, "a seu modo curiosas". Minhas explicações tiveram, no entanto, a feliz surpresa de descobrir o "Leitmotiv" destas aventuras, a saber, o duplo. Está de bom tamanho para um iniciante.
Golyádkin na Grécia arcaica
Se me permito uma volta à Grécia arcaica não é tanto por pensar que Dostoiewski estava pensando nisso, pois, me é claro que não, já que ele tinha em mente estudos psicológicos e de doenças mentais obtidos por fontes que são desconhecidas para mim(v. edição da 34). Faço o desvio pela Grécia por limitações pessoais já expostas e por saber ser o 'duplo' uma, nas palavras de Vernant, "categoria psicológica". A exposição seguinte tem por base o artigo de Vernant, "Figuração do invisível e categoria psicológica do duplo: o Kolossós", sobre psicologia histórica.
Foram encontradas em tumbas gregas vazias certas figuras esculpidas em forma de cubo com um apêndice que lembra um rosto masculino ou feminino. Esta mesma figura por vezes, aponta a pesquisa, era encontrada em áreas selvagens ou desérticas deseterrada. A escultura aludida se chama kolossós. É que os gregos acreditvam que na tumba ainda persistia a alma do morto em estado de repouso(donde, aliás, a expressão "descanse em paz") e que quando o morto não era enterrado propriamente(lembram o episódio de Antigona?) o referido defunto atormentava os vivos. Pois bem, quando o corpo era desaparecido se enterrava o kolosso ou o deixavam em lugar onde não pudesse fazer mal. O kolossós era, tal qual o corpo inanimado, o "duplo" do vivo.
Podemos chegar a conclusão de que o kolossós não é a imagem do vivo mas, por assim dizer, de sua vida no além; também tem a mesma função a psyché. Não entendamos essa expressão do modo que Platão e os cristãos a entendem mas no modo que Homero a entendia, como "sombra" no Hades. O kolosso e a psyquê são fenômenos da mesma instância, estão sob o mesmo signo que tem de estar por sua vez inserido num quadro de referência muito determinado. o Kolossós e a psiché entram para os gregos na mesma categoria que a aparição, a figura onírica e até estátuas sacras(o que explica o fato de os gregos, mestres das artes plásticas, não terem nome para estátua). Eles estão na categoria do duplo.
O duplo e "O Duplo"
A definição de duplo, que é o cerne de nossa interpretação da obra, é dada por Vernant da seguinte forma: "O duplo é uma coisa bem diferente da imagem. Não é um objeto "natural", mas não é um produto mental. O duplo é uma realidade exterior ao sujeito, mas que, em sua própria aparência, opõe-se pelo caráter insólito aos objetos familiares, ao cenário comum da vida. Move-se em dois planos ao mesmo tempo contrastados: no momento em que se mostra presente, revela-se como não pertencendo a este mundo, mas a um mundo inacessível" O kolossós realiza, na medida em que é um duplo, uma ligação do mundo dos mortos com os vivos; é como que a presença do outro mundo nesse mundo sob o sol.
Os senhores poderão se perguntar o porquê essa explicação tão distante de nosso mundo pós-cristão, pós-moderno, pós-pós-moderno etc, mas é que como categoria psicológica o duplo está mais perto de nós do que se pode suspeitar. Não como ponte entre o mundo divino ou infernal com o nosso mas entre mundos muito mais humanos. Por exemplo, estereótipos entram na mesma classificação. Longe de atrapalhar a comunicação, eles servem de ponte para as individualidades. O estereótipo se conhece de antemão, por exemplo, os gostos do povo alemão, e, ao compará-los com uma pessoa de verdade, se ultrapassa a barreira de cultura nacional para entrar efetivamente nas idiossincrasias individuais. O gringo comedor de chucrute é o duplo de uma pessoa real e verdadeira.
Colocando a questão dessa forma fica muito mais fácil decifrar o caso do nosso romance: o duplo é a tentativa de superar a subjetividade do sr. Golyádkin e o fracasso desta é a causa da loucura dele. Esta é minha tese. Mas objeções podem ser feitas; se nos perguntarmos sobre a causa da origem de uma alma tão hermeticamente fechada a ponto de se tornar incomunicável poderíamos tomar em consideração as observações de Voegelin sobre a segunda realidade. Contudo, se olharmos mais de perto veremos que a coisa se passa de modo um pouco diferente; Golyádkin não tem nada sequer comparável a furia demoníaca de um Raskólnikov ou com a ingenuidade anacrônica de um D. Quixote. Se é assim, como um sujeito tão medíocre pode ter uma história tão excêntrica?
Com efeito, Golyadkin é um burocrata de mente pequeno burquesa e, não fossem os cacoetes de escritório, nada o diferenciaria de um avaro e rabugento feirante. Não há entre ele e o resto dos personagens qualquer disparidade de poder, grandeza de alma ou ambição. Ele só sabe repetir poucas frases feitas, todas elas lugares comuns de seu próprio meio social. Golyádkin é um estereótipo encarnado. Tendo caracterizado nosso herói deste modo, podemos dar uma resposta à objeção sob a forma de um quadro geral dos episódios:
1- A rejeição do Sr. Olsufi Ivánovitch, patrono de Golyádkin, implica a exclusão social de nosso herói. Homens "comuns", estereotípicos como o sr. Golyadkin, são definidos pelo meio em que vivem(se quer mudar as idéias de um medíocre, troque-o de lugar"), pela sua função. Com a exclusão, ele entra em contato com a realidade e tem que viver "em si e por si", coisa de que é incapaz e, por despreparo, incorpora uma atitude de fechamento para a realidade, a "solidão" existencial.
2- No consultório de Créstian, ele é confrontado com essa "solidão" e entra em desespero. Ele tenta de verdade tenta seguir o conselho da "mudança radical de vida", de "não se furtar a uma vida alegre", afinal de contas, ele vai para um baile. O modo de acabar com ela é que é curioso, ele não tenta se abrir à realidade e superar o seu meio achando novas saidas, ao contrário, tenta forçar a barra no sentido material aparecendo sem ser convidado no baile. O resultado é o duplo e seu fracasso. Chamamos atenção aqui para a primeira aparição do duplo ainda sob a consciência de Golyadkin; em todo o livro vemos o duplo sob os olhos do personagem principal, aqui temos uma amostra do modo de operação dele.
3- A exclusão do baile é a segunda e definitiva exclusão da comunidade. O resto do livro é um progressivo afastamento que culminará na completa privação de convivência humana.
4- A conversa entre os dois Golyadkins também nos é essencial. Golyádkin primeiro em sua maior demonstração de humanidade, "programa" o duplo como a uma máquina; este tem o papel de absorver tudo. Golyádkin se comove e o abraça, é sua última chance de comunicação com o mundo. Já sabemos porque vai dar errado, mesmo que a sociedade o abrace novamente(o que, de fato, acontece), por ter tido um pouco de contato com a realidade, ele não se entregará de verdade à sociedade; oscilará entre cinismo e a despeito.
5- Cinismo e despeito, é nessa tensão que se dá a narrativa, entre o duplo e o primo. A chave de interpretação está no que Golyádkin considera como sua tábua de salvação para sair da miséria em que se encontra; ele, com efeito, diz que vencerá seus inimigos usando "artimanhas". Artimanha, esperteza ou malícia se dizem em grego methis que também é uma deusa. A deusa da malícia(Methis) teve dois filhos, Prometeu e Epimeteu, que significam respectivamente, "o que sabe antes" e "o que sabe depois". Eles são duplos e unos, ambíguos como são os deuses, mostram que usar a malícia para enganar a ordem(inteligencia de Zeus) tem dois lados e nunca a empresa é bem sucedida. A dupla Prometeu/Epimeteu corresponde a dupla Golyádkin segundo/primeiro; a troco de voltar a uma sociedade fútil, por meio de um duplo ele sacrifica as ligações reais: a alemã que lhe servia comida, o amigo que lhe emprestou dinheiro, o criado que lhe ajudava.
6-Por fim a tensão cinismo/despeito fica insuportável e a vitória social do duplo é o seu fracasso funcional e existencial. Golyádkin enlouquece.
Conclusão
A maioria dos problemas propostos deve ter ficado clara e só queria reforçar o ponto de que não foi propriamente a "falta de responsabilidade ética por suas palavras" que causou a loucura mas a tensão insuportável entre o cinismo e despeito causada pelo fechamento à realidade. Também nos cabe elogiar o artifício poético do duplo. Separar a categoria da imagem da do duplo por um personagem e uma realidade nunca totalmente presentes e nunca totalmente ausentes é genial; O duplo, como o kolossós, nem está totalmente dentro da realidade nem totalmente fora. Talvez seja essa presença do ausente o que mais chama atenção nessa grande obra de arte.
Contra mim pesa a inexperiência em literaturas que tem forte elemento psicológico. Não são minha praia. Prefiro as "literaturas pragmáticas" onde o elemento simbólico pesa mais que o alegórico e se tira com muito mais facilidade e precisão uma "lógica simbólica". Mas onde se pode efetivamente distinguir o alegórico do simbólico em um autor moderno? Mas não posso entender isso como uma justificativa e embora não preparado(o que requer, pelo menos, a leitura das obras completas), posso esboçar, a partir de meus atuais conhecimentos, um modo de entender a obra que, para fins de comparação quando ler as obras toda completas, me permita entender a contribuição do autor senão na literatura universal pelo menos na minha visão de literatura.
Problemas
Como meio interpretativo resolvi pensar em problemas que podem ser resolvidos, posto que não posso dar uma interpretação de conjunto. São todos, portanto, problemas que me vieram a mente e não, por assim dizer, uma descoberta de chave de abóboda interpretativa:
I- A cena do último baile me parece não ter lugar na realidade dos personagens, senão na do senhor Golyádkin, e, além disso, iverídica também parece ser a primeira aparição do duplo. Lembremos, no entanto, quando da aparição no trabalho que todos asseguraram a existência física do Golyádkin segundo. Onde começa e onde termina a realidade nessa história "absolutamente verídica"?
II- Qual é a função do duplo na história? E qual seu valor explicativo para que esta história seja, nas palavras do autor, "absolutamente verídica"?
III- No apêndice da edição da 34, Paulo Bezerra, diz ter sido a "falta de responsabilidade ética por suas palavras" durante a confissão com o duplo, a causa da ruína e por fim loucura de nosso herói. Honestamente, quem consegue ter essa responsabilidade em alto nível é, para mim, alguém de invejável grandeza moral. Quero dizer que ao expressarmos valores éticos estamos sempre de alguma forma sendo utópicos. Terá Dostoiewski nos passando uma lição de moral com seu livro? Qual a causa da loucura do senhor Golyádkin primeiro?
IV- É acima de qualquer dúvida que Golyádkin teve o fim trágico por não ter cumprido a ordem médica de "não se furtar a uma vida alegre; frequentar espetáculos e clubes e em todo o caso não ser inimigo da garrafa". Qual a dimensão desta sentença?
Uma explicação literária deveria ser capaz de explicar não só o todo mas também os episódios individuais e de harmonizá-los. Isso me parece fora de cogitação e a resposta aos problemas terá como resultado o alivio de minha estupefação ante essas aventuras, "a seu modo curiosas". Minhas explicações tiveram, no entanto, a feliz surpresa de descobrir o "Leitmotiv" destas aventuras, a saber, o duplo. Está de bom tamanho para um iniciante.
Golyádkin na Grécia arcaica
Se me permito uma volta à Grécia arcaica não é tanto por pensar que Dostoiewski estava pensando nisso, pois, me é claro que não, já que ele tinha em mente estudos psicológicos e de doenças mentais obtidos por fontes que são desconhecidas para mim(v. edição da 34). Faço o desvio pela Grécia por limitações pessoais já expostas e por saber ser o 'duplo' uma, nas palavras de Vernant, "categoria psicológica". A exposição seguinte tem por base o artigo de Vernant, "Figuração do invisível e categoria psicológica do duplo: o Kolossós", sobre psicologia histórica.
Foram encontradas em tumbas gregas vazias certas figuras esculpidas em forma de cubo com um apêndice que lembra um rosto masculino ou feminino. Esta mesma figura por vezes, aponta a pesquisa, era encontrada em áreas selvagens ou desérticas deseterrada. A escultura aludida se chama kolossós. É que os gregos acreditvam que na tumba ainda persistia a alma do morto em estado de repouso(donde, aliás, a expressão "descanse em paz") e que quando o morto não era enterrado propriamente(lembram o episódio de Antigona?) o referido defunto atormentava os vivos. Pois bem, quando o corpo era desaparecido se enterrava o kolosso ou o deixavam em lugar onde não pudesse fazer mal. O kolossós era, tal qual o corpo inanimado, o "duplo" do vivo.
Podemos chegar a conclusão de que o kolossós não é a imagem do vivo mas, por assim dizer, de sua vida no além; também tem a mesma função a psyché. Não entendamos essa expressão do modo que Platão e os cristãos a entendem mas no modo que Homero a entendia, como "sombra" no Hades. O kolosso e a psyquê são fenômenos da mesma instância, estão sob o mesmo signo que tem de estar por sua vez inserido num quadro de referência muito determinado. o Kolossós e a psiché entram para os gregos na mesma categoria que a aparição, a figura onírica e até estátuas sacras(o que explica o fato de os gregos, mestres das artes plásticas, não terem nome para estátua). Eles estão na categoria do duplo.
O duplo e "O Duplo"
A definição de duplo, que é o cerne de nossa interpretação da obra, é dada por Vernant da seguinte forma: "O duplo é uma coisa bem diferente da imagem. Não é um objeto "natural", mas não é um produto mental. O duplo é uma realidade exterior ao sujeito, mas que, em sua própria aparência, opõe-se pelo caráter insólito aos objetos familiares, ao cenário comum da vida. Move-se em dois planos ao mesmo tempo contrastados: no momento em que se mostra presente, revela-se como não pertencendo a este mundo, mas a um mundo inacessível" O kolossós realiza, na medida em que é um duplo, uma ligação do mundo dos mortos com os vivos; é como que a presença do outro mundo nesse mundo sob o sol.
Os senhores poderão se perguntar o porquê essa explicação tão distante de nosso mundo pós-cristão, pós-moderno, pós-pós-moderno etc, mas é que como categoria psicológica o duplo está mais perto de nós do que se pode suspeitar. Não como ponte entre o mundo divino ou infernal com o nosso mas entre mundos muito mais humanos. Por exemplo, estereótipos entram na mesma classificação. Longe de atrapalhar a comunicação, eles servem de ponte para as individualidades. O estereótipo se conhece de antemão, por exemplo, os gostos do povo alemão, e, ao compará-los com uma pessoa de verdade, se ultrapassa a barreira de cultura nacional para entrar efetivamente nas idiossincrasias individuais. O gringo comedor de chucrute é o duplo de uma pessoa real e verdadeira.
Colocando a questão dessa forma fica muito mais fácil decifrar o caso do nosso romance: o duplo é a tentativa de superar a subjetividade do sr. Golyádkin e o fracasso desta é a causa da loucura dele. Esta é minha tese. Mas objeções podem ser feitas; se nos perguntarmos sobre a causa da origem de uma alma tão hermeticamente fechada a ponto de se tornar incomunicável poderíamos tomar em consideração as observações de Voegelin sobre a segunda realidade. Contudo, se olharmos mais de perto veremos que a coisa se passa de modo um pouco diferente; Golyádkin não tem nada sequer comparável a furia demoníaca de um Raskólnikov ou com a ingenuidade anacrônica de um D. Quixote. Se é assim, como um sujeito tão medíocre pode ter uma história tão excêntrica?
Com efeito, Golyadkin é um burocrata de mente pequeno burquesa e, não fossem os cacoetes de escritório, nada o diferenciaria de um avaro e rabugento feirante. Não há entre ele e o resto dos personagens qualquer disparidade de poder, grandeza de alma ou ambição. Ele só sabe repetir poucas frases feitas, todas elas lugares comuns de seu próprio meio social. Golyádkin é um estereótipo encarnado. Tendo caracterizado nosso herói deste modo, podemos dar uma resposta à objeção sob a forma de um quadro geral dos episódios:
1- A rejeição do Sr. Olsufi Ivánovitch, patrono de Golyádkin, implica a exclusão social de nosso herói. Homens "comuns", estereotípicos como o sr. Golyadkin, são definidos pelo meio em que vivem(se quer mudar as idéias de um medíocre, troque-o de lugar"), pela sua função. Com a exclusão, ele entra em contato com a realidade e tem que viver "em si e por si", coisa de que é incapaz e, por despreparo, incorpora uma atitude de fechamento para a realidade, a "solidão" existencial.
2- No consultório de Créstian, ele é confrontado com essa "solidão" e entra em desespero. Ele tenta de verdade tenta seguir o conselho da "mudança radical de vida", de "não se furtar a uma vida alegre", afinal de contas, ele vai para um baile. O modo de acabar com ela é que é curioso, ele não tenta se abrir à realidade e superar o seu meio achando novas saidas, ao contrário, tenta forçar a barra no sentido material aparecendo sem ser convidado no baile. O resultado é o duplo e seu fracasso. Chamamos atenção aqui para a primeira aparição do duplo ainda sob a consciência de Golyadkin; em todo o livro vemos o duplo sob os olhos do personagem principal, aqui temos uma amostra do modo de operação dele.
3- A exclusão do baile é a segunda e definitiva exclusão da comunidade. O resto do livro é um progressivo afastamento que culminará na completa privação de convivência humana.
4- A conversa entre os dois Golyadkins também nos é essencial. Golyádkin primeiro em sua maior demonstração de humanidade, "programa" o duplo como a uma máquina; este tem o papel de absorver tudo. Golyádkin se comove e o abraça, é sua última chance de comunicação com o mundo. Já sabemos porque vai dar errado, mesmo que a sociedade o abrace novamente(o que, de fato, acontece), por ter tido um pouco de contato com a realidade, ele não se entregará de verdade à sociedade; oscilará entre cinismo e a despeito.
5- Cinismo e despeito, é nessa tensão que se dá a narrativa, entre o duplo e o primo. A chave de interpretação está no que Golyádkin considera como sua tábua de salvação para sair da miséria em que se encontra; ele, com efeito, diz que vencerá seus inimigos usando "artimanhas". Artimanha, esperteza ou malícia se dizem em grego methis que também é uma deusa. A deusa da malícia(Methis) teve dois filhos, Prometeu e Epimeteu, que significam respectivamente, "o que sabe antes" e "o que sabe depois". Eles são duplos e unos, ambíguos como são os deuses, mostram que usar a malícia para enganar a ordem(inteligencia de Zeus) tem dois lados e nunca a empresa é bem sucedida. A dupla Prometeu/Epimeteu corresponde a dupla Golyádkin segundo/primeiro; a troco de voltar a uma sociedade fútil, por meio de um duplo ele sacrifica as ligações reais: a alemã que lhe servia comida, o amigo que lhe emprestou dinheiro, o criado que lhe ajudava.
6-Por fim a tensão cinismo/despeito fica insuportável e a vitória social do duplo é o seu fracasso funcional e existencial. Golyádkin enlouquece.
Conclusão
A maioria dos problemas propostos deve ter ficado clara e só queria reforçar o ponto de que não foi propriamente a "falta de responsabilidade ética por suas palavras" que causou a loucura mas a tensão insuportável entre o cinismo e despeito causada pelo fechamento à realidade. Também nos cabe elogiar o artifício poético do duplo. Separar a categoria da imagem da do duplo por um personagem e uma realidade nunca totalmente presentes e nunca totalmente ausentes é genial; O duplo, como o kolossós, nem está totalmente dentro da realidade nem totalmente fora. Talvez seja essa presença do ausente o que mais chama atenção nessa grande obra de arte.
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
Em defesa das Idéias
A discussão sobre a teoria das Idéias é de importância inegável em toda a história da filosofia, e aqui tomamos uma posição diante dela de maneira mais completa possível. Devo advertir que para mim isso tem sido um verdadeiro deleite e já consigo entrever as consequências na filosofia aristotélica. Os argumentos de Aristóteles contra a teoria, até onde sei, se dividem em duas classes:
a) Provar a incoerência intrínseca da teoria das Idéias;
b) A teoria das Idéias é, em si, desnecessária
Dentro de cada uma dessas classes existem vários argumentos e dou um exemplo de cada uma dessas classes para mostrar até onde ele tinha consciência da profundidade da teoria.
A)Provar a incoerência intrínseca da teoria das Idéias
A.i- Exposição
Aristóteles diz que "Se as formas existem, e se o Animal[Idéia de Animal] encontra-se no homem e no cavalo, então ele (a)será um só e o mesmo quanto ao número OU, (b)será diferente num e noutro". É claro que a resposta é a "A" mas Ar. objeta o seguinte 1- se a Animal(a Idéia) é una como ela estaria no cavalo e no homem e permaneceria una? e por que o animal não é separado de si mesmo? ; 2- Se o Animal(a Idéia) deve participar tanto de bípede e quadrupede como pode ele ser determinado e uno com atributos opostos?(um animal ao mesmo tempo bípede e quadrúpede).
A.ii- Unidade da Idéia, matéria inteligível
A maioria das pessoas não entende o caráter unitário da Idéia platônica, geralmente a confundindo com um conceito ou então indentificando-a com a forma. No entanto prefiro escutar o velho Platão e afirmar que a Idéia também é feita de Matéria + Forma.O próprio Aristóteles diz que há uma materia inteligível e uma initeligível: "Existe uma matéria sensível e uma inteligível: a sensível é, por exemplo, o bronze, a madeira ou tudo o que é suscetível de movimento; a inteligível é, ao contrário, a que está presente nos sensíveis, não enquanto sensíveis mas como entes matemáticos"(Met. Z 10, 1036 A 9-12). E ainda nos textos Met. H 6, 1045 a 33-35 e Met. K 1, 1059 b 14-21.
No texto está escrito que as duas matérias estão nos sensíveis mas temos aí uma deformação na doutrina platônica. Reale nos diz sobre o texto supra citado: "Aqui recordamos, particularmente, a destacada dificuldade que Ar. demonstra ante a 'matéria inteligível', justamente no que concerne a explicação dos entes matemáticos, as suas notáveis incertezas e as suas notáveis incertezas e as suas tendências a admiti-la embora a seu modo". Isto é, a confusão de Aristóteles de atribuir duas matérias a uma forma é na verdade um resquício de uma doutrina herdada do Platão. Nessa doutrina uma forma corresponde a uma matéria, ou seja, os entes sensíveis tem uma forma e uma matéria e os entes ideais também tem uma forma e uma matéria.
Então se assume que os sensíveis tem como matéria aquela substância amorfa e initeligível e como forma as próprias Idéias enquanto que as Idéias tem por sua vez uma matéria inteligível que se identifica com certos entes matemáticos e uma forma que é a própria Idéia de Bem. Mas o que é número? segundo o próprio Aristóteles número é "o que é divisível em partes indivisíveis". Se trata de uma estrutura de certos conjuntos de unidades como "um par", "uma díade", "uma tríade" etc.... Um número é sobretudo uma estrutura, um agrupamento. Tomemos então uma Idéia como Música, ora, a música é harmonia, melodia e ritmo. Isto é a música é feita por partes indivisas, ela é um número e do mesmo modo todas as Idéias são assim. Tanto que método platônico mais famoso é o da divisão ou o das espécies indivisas.
A.iii- Defesa da teoria das Idéias
Dito isso voltamos ao argumento e veremos o seguinte, para refutar uma tese temos que aceitar a tese tal qual o opositor disse e ver se daí geram-se absurdos como no caso do Reductio ad absurdum e é o que mais ou menos Aristóteles tenta fazer não fosse pelo seguinte: ele cria para si um Platão para refutar. Sim, estou dizendo que Aristóteles está sendo desonesto. Isto é, ele teria que aceitar o argumento de Platão tal qual Platão disse, mas é justamente o que ele não faz. Especificamente tanto o argumento aristotélico supracitado 1 como o 2 se baseiam na premissa que Platão considerava as Idéias do seguinte modo descrito em Met., B-12, 997 b 5-12: "Com efeito, os Deuses que eles[os vulgos] admitem não são mais do que homens eternos, enquanto as Formas que eles[Platônicos] afirmam não são mais do que sensíveis eternos".
Isso é não compreender a teoria de Platão porque, como eu disse, as Idéias não são sensíveis pois tem matéria e forma diferentes. Os sensíveis tem como forma a Idéia e tem como matéria a matéria initeligível(descrever a matéria initeligível e sua initeligibilidade também daria um trabalhão!), ao passo que as Idéias tem, para Platão, como forma o Uno e como matéria os tais entes matemáticos(números intermediários). O argumento de Aristóteles é inválido pois ele não toma a Idéia platônica tal qual o Platâo disse mas tal qual ele quis que a tese parecesse. Isso não só acontece na Metafísica como na física tal como está escrito no número 4 e 5 de nosso anexo espertezas aristotélicas.
A refutação deste trecho é também e mais compactamente dada por nosso Mário na Introdução de sua tradução do De generatione et corruptione: "Estas digressões mais comezinhas a dialectica platônica que a aristotelica, levar-nos-iam a afirmacão de que um ser que atingisse a perfeição da forma essencial do eidos platônico, por exemplo, ou do arithmós pleithos (o numero de conjunto) pitagorico, seria materialmente inalcançável. No segundo caso, seria incompreensível porque o número da harmornia pitagorica, os arithmoi harmonikoi são sempre indefinidos, portanto nunca alcançáveis materialmente, na sua perfeição extensista e definiVamente acabada como a relação entre o diâmetro e a circunferência ou a hipotenusa e o quadrado, dão sempre um número indefinido. A forma essencial na ordem ontológica é perfeita e jamais alcançada pela materialidade, que dela pode potencialmente aproximar-se sempre, como o numero de ouro pitagórico, que jamais alcança um termo finito."
Ademais, além do caso citado(aqui me baseio em Reale), Aristóteles faz várias reduções confundindo Idéia, Idéia-número, numeros ideais e número. Reale ainda diz: "... e sobretudo para compreender as reduções sistemáticas a que ele[Aristóteles] submete a essa doutrina[teoria das Idéias], justamente para poder refutá-la com facilidade".
B)A teoria das Idéias é, em si, desnecessária
O tópico A é um desdobramento do argumento principal do meu último texto que ficou mal escrito(também exclui posteriores desenvolvimentos dele), mas aqui me ocorreu uma nova forma de defesa. No texto anterior a defesa consistia na reexposição do mecanismo de relacionamento Idéia-sensíveis de modo a tornar o argumento do terceiro homem inutilizável. Agora me parece claro o seguinte: a noção que Aristóteles tem da Idéia é a de que "as Formas que eles[Platônicos] afirmam não são mais do que sensíveis eternos", isto é, tal qual descrito no número 7 do anexo espertezas aristotélicas, as Idéias segundo Ar. são entidades físicas duplicadas. Ora, não é esse de modo algum o modo que Platão acreditava serem suas Idéias de modo que o argumento de Ar. é invalidado desde as bases. De qualquer modo desde o diálogo Parmênides de Platão que sabemos ser o argumento do terceiro homem conhecido pelo mestre ateniense o que mais uma vez prova a superioridade da concepção platônica ante o argumento antes mesmo de Aristóteles o criar(v. notas sobre O que NÃO é uma idéia, n°4)
ANEXO - Espertezas aristotélicas
São basicamente alguns testemunhos de abalizados tradutores e comentadores do estagirita mostrando eventuais deformações e reduções de outros pensadores (especialmente de Platão) para que se pudessem ressaltar qualidades da filosofia aristotélica. Simplesmente não o julgo, sou eternamente grato pela filosofia que ele criou.
1- "É a Amizade que os une, enquanto esta domina, separando-se, porém,
quando o ódio domina. A espera de Empédocles é eterna e
imutável, e a crítica que Aristóteles lhe fêz, neste parágrafo,
é TENDENCIOSA para Joachim, e com razão, pois todo o processo
do mundo se verifica segundo um ciclo imutável, dentro
dessa espera imóvel."
Mário ferreira dos Santos in Aristóteles e as mutações
2- "Mas é preciso considerar (o que não o fêz Aristóteles),
que os poros não são vazios para Empédocles, e sim cheios.
Dai todo argumento de Ar. ser improcedente, o qual pode
ser lido no texto."
Mário ferreira dos Santos in Aristóteles e as mutações
3- "La crítica del infinito como continente y delimitante parece dirigida contra Platón. Aunque en Met. 987b18-22 se dice que para Platón el Infinito es lo Grande y lo Pequeño como materia, la cual recibe del Uno su delimitación, pero no que el Infinito fuese lo que contiene (periéchein) y delimita (horízein). Para ápeiros en Platón véase Parm. 143a-145a, 158d-e;Fil. 16c, 27b."
Guilhermo R. de Echandía nas notas ao tratado da física de Aristóteles publicado pela Gredos
4- "Lo que parece injustificado es afirmar que Platón identificó chôra con hýle. Si se la entendiese como «materia inteligible» habría cierta equivalencia, como indica Hussey, pero sería algo enteramente distinto de la «materia» aristotélica, pues la hypodoché del Timeo parece una entidad independiente de los cuerpos."
Guilhermo R. de Echandía nas notas ao tratado da física de Aristóteles publicado pela Gredos
5- "Ahora se afirma que para Platón tò methektikón (= tò metalêptikón de b14) es el «receptáculo» (hypodochê) de las Ideas y los Números. Pero Platón nunca habla de la hypodochê como recibiendo las Ideas, sino como la phýsis que recibe todos los cuerpos (Tim. 50b6). Por tanto, la objeción que se le hace a Platón no tiene sentido. La hypodochê no es un hypokeí-menon. Aristóteles parece proyectar una vez más sobre Platón su propia concepción de la materia."
Guilhermo R. de Echandía nas notas ao tratado da física de Aristóteles publicado pela Gredos
6- "As teorias platônicas que Aristóteles tende de modo mais desconcertante a 'deformar' são as Idéias e princípios primeiros"
Giovanni Reale no volume introdutório do metafísica
7- "a teoria das Idéias é apresentada, a nosso ver da maneira mais decepcionante, porque Aristóteles, interpretando as Idéias como indevidas hipóstases dos universais, tende a 'dar-lhes um caráter físico' e, portanto, a fazer com que se a entenda como duplicação das coisas"
Giovanni Reale no volume introdutório do metafísica
a) Provar a incoerência intrínseca da teoria das Idéias;
b) A teoria das Idéias é, em si, desnecessária
Dentro de cada uma dessas classes existem vários argumentos e dou um exemplo de cada uma dessas classes para mostrar até onde ele tinha consciência da profundidade da teoria.
A)Provar a incoerência intrínseca da teoria das Idéias
A.i- Exposição
Aristóteles diz que "Se as formas existem, e se o Animal[Idéia de Animal] encontra-se no homem e no cavalo, então ele (a)será um só e o mesmo quanto ao número OU, (b)será diferente num e noutro". É claro que a resposta é a "A" mas Ar. objeta o seguinte 1- se a Animal(a Idéia) é una como ela estaria no cavalo e no homem e permaneceria una? e por que o animal não é separado de si mesmo? ; 2- Se o Animal(a Idéia) deve participar tanto de bípede e quadrupede como pode ele ser determinado e uno com atributos opostos?(um animal ao mesmo tempo bípede e quadrúpede).
A.ii- Unidade da Idéia, matéria inteligível
A maioria das pessoas não entende o caráter unitário da Idéia platônica, geralmente a confundindo com um conceito ou então indentificando-a com a forma. No entanto prefiro escutar o velho Platão e afirmar que a Idéia também é feita de Matéria + Forma.O próprio Aristóteles diz que há uma materia inteligível e uma initeligível: "Existe uma matéria sensível e uma inteligível: a sensível é, por exemplo, o bronze, a madeira ou tudo o que é suscetível de movimento; a inteligível é, ao contrário, a que está presente nos sensíveis, não enquanto sensíveis mas como entes matemáticos"(Met. Z 10, 1036 A 9-12). E ainda nos textos Met. H 6, 1045 a 33-35 e Met. K 1, 1059 b 14-21.
No texto está escrito que as duas matérias estão nos sensíveis mas temos aí uma deformação na doutrina platônica. Reale nos diz sobre o texto supra citado: "Aqui recordamos, particularmente, a destacada dificuldade que Ar. demonstra ante a 'matéria inteligível', justamente no que concerne a explicação dos entes matemáticos, as suas notáveis incertezas e as suas notáveis incertezas e as suas tendências a admiti-la embora a seu modo". Isto é, a confusão de Aristóteles de atribuir duas matérias a uma forma é na verdade um resquício de uma doutrina herdada do Platão. Nessa doutrina uma forma corresponde a uma matéria, ou seja, os entes sensíveis tem uma forma e uma matéria e os entes ideais também tem uma forma e uma matéria.
Então se assume que os sensíveis tem como matéria aquela substância amorfa e initeligível e como forma as próprias Idéias enquanto que as Idéias tem por sua vez uma matéria inteligível que se identifica com certos entes matemáticos e uma forma que é a própria Idéia de Bem. Mas o que é número? segundo o próprio Aristóteles número é "o que é divisível em partes indivisíveis". Se trata de uma estrutura de certos conjuntos de unidades como "um par", "uma díade", "uma tríade" etc.... Um número é sobretudo uma estrutura, um agrupamento. Tomemos então uma Idéia como Música, ora, a música é harmonia, melodia e ritmo. Isto é a música é feita por partes indivisas, ela é um número e do mesmo modo todas as Idéias são assim. Tanto que método platônico mais famoso é o da divisão ou o das espécies indivisas.
A.iii- Defesa da teoria das Idéias
Dito isso voltamos ao argumento e veremos o seguinte, para refutar uma tese temos que aceitar a tese tal qual o opositor disse e ver se daí geram-se absurdos como no caso do Reductio ad absurdum e é o que mais ou menos Aristóteles tenta fazer não fosse pelo seguinte: ele cria para si um Platão para refutar. Sim, estou dizendo que Aristóteles está sendo desonesto. Isto é, ele teria que aceitar o argumento de Platão tal qual Platão disse, mas é justamente o que ele não faz. Especificamente tanto o argumento aristotélico supracitado 1 como o 2 se baseiam na premissa que Platão considerava as Idéias do seguinte modo descrito em Met., B-12, 997 b 5-12: "Com efeito, os Deuses que eles[os vulgos] admitem não são mais do que homens eternos, enquanto as Formas que eles[Platônicos] afirmam não são mais do que sensíveis eternos".
Isso é não compreender a teoria de Platão porque, como eu disse, as Idéias não são sensíveis pois tem matéria e forma diferentes. Os sensíveis tem como forma a Idéia e tem como matéria a matéria initeligível(descrever a matéria initeligível e sua initeligibilidade também daria um trabalhão!), ao passo que as Idéias tem, para Platão, como forma o Uno e como matéria os tais entes matemáticos(números intermediários). O argumento de Aristóteles é inválido pois ele não toma a Idéia platônica tal qual o Platâo disse mas tal qual ele quis que a tese parecesse. Isso não só acontece na Metafísica como na física tal como está escrito no número 4 e 5 de nosso anexo espertezas aristotélicas.
A refutação deste trecho é também e mais compactamente dada por nosso Mário na Introdução de sua tradução do De generatione et corruptione: "Estas digressões mais comezinhas a dialectica platônica que a aristotelica, levar-nos-iam a afirmacão de que um ser que atingisse a perfeição da forma essencial do eidos platônico, por exemplo, ou do arithmós pleithos (o numero de conjunto) pitagorico, seria materialmente inalcançável. No segundo caso, seria incompreensível porque o número da harmornia pitagorica, os arithmoi harmonikoi são sempre indefinidos, portanto nunca alcançáveis materialmente, na sua perfeição extensista e definiVamente acabada como a relação entre o diâmetro e a circunferência ou a hipotenusa e o quadrado, dão sempre um número indefinido. A forma essencial na ordem ontológica é perfeita e jamais alcançada pela materialidade, que dela pode potencialmente aproximar-se sempre, como o numero de ouro pitagórico, que jamais alcança um termo finito."
Ademais, além do caso citado(aqui me baseio em Reale), Aristóteles faz várias reduções confundindo Idéia, Idéia-número, numeros ideais e número. Reale ainda diz: "... e sobretudo para compreender as reduções sistemáticas a que ele[Aristóteles] submete a essa doutrina[teoria das Idéias], justamente para poder refutá-la com facilidade".
B)A teoria das Idéias é, em si, desnecessária
O tópico A é um desdobramento do argumento principal do meu último texto que ficou mal escrito(também exclui posteriores desenvolvimentos dele), mas aqui me ocorreu uma nova forma de defesa. No texto anterior a defesa consistia na reexposição do mecanismo de relacionamento Idéia-sensíveis de modo a tornar o argumento do terceiro homem inutilizável. Agora me parece claro o seguinte: a noção que Aristóteles tem da Idéia é a de que "as Formas que eles[Platônicos] afirmam não são mais do que sensíveis eternos", isto é, tal qual descrito no número 7 do anexo espertezas aristotélicas, as Idéias segundo Ar. são entidades físicas duplicadas. Ora, não é esse de modo algum o modo que Platão acreditava serem suas Idéias de modo que o argumento de Ar. é invalidado desde as bases. De qualquer modo desde o diálogo Parmênides de Platão que sabemos ser o argumento do terceiro homem conhecido pelo mestre ateniense o que mais uma vez prova a superioridade da concepção platônica ante o argumento antes mesmo de Aristóteles o criar(v. notas sobre O que NÃO é uma idéia, n°4)
ANEXO - Espertezas aristotélicas
São basicamente alguns testemunhos de abalizados tradutores e comentadores do estagirita mostrando eventuais deformações e reduções de outros pensadores (especialmente de Platão) para que se pudessem ressaltar qualidades da filosofia aristotélica. Simplesmente não o julgo, sou eternamente grato pela filosofia que ele criou.
1- "É a Amizade que os une, enquanto esta domina, separando-se, porém,
quando o ódio domina. A espera de Empédocles é eterna e
imutável, e a crítica que Aristóteles lhe fêz, neste parágrafo,
é TENDENCIOSA para Joachim, e com razão, pois todo o processo
do mundo se verifica segundo um ciclo imutável, dentro
dessa espera imóvel."
Mário ferreira dos Santos in Aristóteles e as mutações
2- "Mas é preciso considerar (o que não o fêz Aristóteles),
que os poros não são vazios para Empédocles, e sim cheios.
Dai todo argumento de Ar. ser improcedente, o qual pode
ser lido no texto."
Mário ferreira dos Santos in Aristóteles e as mutações
3- "La crítica del infinito como continente y delimitante parece dirigida contra Platón. Aunque en Met. 987b18-22 se dice que para Platón el Infinito es lo Grande y lo Pequeño como materia, la cual recibe del Uno su delimitación, pero no que el Infinito fuese lo que contiene (periéchein) y delimita (horízein). Para ápeiros en Platón véase Parm. 143a-145a, 158d-e;Fil. 16c, 27b."
Guilhermo R. de Echandía nas notas ao tratado da física de Aristóteles publicado pela Gredos
4- "Lo que parece injustificado es afirmar que Platón identificó chôra con hýle. Si se la entendiese como «materia inteligible» habría cierta equivalencia, como indica Hussey, pero sería algo enteramente distinto de la «materia» aristotélica, pues la hypodoché del Timeo parece una entidad independiente de los cuerpos."
Guilhermo R. de Echandía nas notas ao tratado da física de Aristóteles publicado pela Gredos
5- "Ahora se afirma que para Platón tò methektikón (= tò metalêptikón de b14) es el «receptáculo» (hypodochê) de las Ideas y los Números. Pero Platón nunca habla de la hypodochê como recibiendo las Ideas, sino como la phýsis que recibe todos los cuerpos (Tim. 50b6). Por tanto, la objeción que se le hace a Platón no tiene sentido. La hypodochê no es un hypokeí-menon. Aristóteles parece proyectar una vez más sobre Platón su propia concepción de la materia."
Guilhermo R. de Echandía nas notas ao tratado da física de Aristóteles publicado pela Gredos
6- "As teorias platônicas que Aristóteles tende de modo mais desconcertante a 'deformar' são as Idéias e princípios primeiros"
Giovanni Reale no volume introdutório do metafísica
7- "a teoria das Idéias é apresentada, a nosso ver da maneira mais decepcionante, porque Aristóteles, interpretando as Idéias como indevidas hipóstases dos universais, tende a 'dar-lhes um caráter físico' e, portanto, a fazer com que se a entenda como duplicação das coisas"
Giovanni Reale no volume introdutório do metafísica
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
Matemática marxista
Segundo Marx as leis da dialética governam a natureza toda, nosso pensar é dialético. A terceira lei da dialética exposta por Engels na dialética da natureza nos diz que como a mudança dialética advém das contradições, podemos observar que estas contradições seguem um movimento típico: a afirmação, a negação e a negação da negação. Esta última terá que superar dialeticamente a primeira.
Engels exemplifica: "Assim também na matemática: tomemos uma grandeza algébrica qualquer, por exemplo, a. Neguemo-la, teremos -a. Neguemos esta negação multiplicando -a por -a, teremos a², isto é, a grandeza positiva primitiva mas em um grau superior"
Agora apliquemos a regra aprendida: tomemos o número 0,5; sua negação será -0,5 cuja negação da negação obtida pela multiplicação por -0,5 será 0,25, isto é, a grandeza positiva em um grau su... ops!
Engels exemplifica: "Assim também na matemática: tomemos uma grandeza algébrica qualquer, por exemplo, a. Neguemo-la, teremos -a. Neguemos esta negação multiplicando -a por -a, teremos a², isto é, a grandeza positiva primitiva mas em um grau superior"
Agora apliquemos a regra aprendida: tomemos o número 0,5; sua negação será -0,5 cuja negação da negação obtida pela multiplicação por -0,5 será 0,25, isto é, a grandeza positiva em um grau su... ops!
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Os demônios
52° Congresso da UNE
"Um velho careca com cara de Ney Matogrosso doente se aproxima e pergunta se estou anotando o nome de todo mundo que passa por mim. Digo que não. Ele parece aliviado. Pergunto quem é ele. Enigmático ele responde: 'Eu sou nada'.
Nos próximos 5 minutos, sempre cuspindo perdigotos no meu rosto, ele conta que recebeu da Unesco o título de sportsman for peace por ter pedalado por dois anos em defesa dos direitos humanos. Ele ainda reproduz uma conversa que supostamente foi travada entre o papa João Paulo II, a política irlandesa Iris Robinson e o antigo secretário-geral da ONU Kofi Annan a respeito dele. Em Italiano. Compreendo que o sujeito é completamente louco. Ele só sossega quando aceito fazer parte da produção do filme sobre ele mesmo que, afirma, realizará com 10 milhões de dólares que lavantou graças a lei rouanet.
Mal me livro do maluco e um hippie para ao meu lado, olha para meu bloco de notas e grasna(não ri, grasna). 'Deve ser estranho ser observado observando os outros...', diz. Respondo que não, não é. Ele vai embora.
Sou então interpelado outra vez. Agora por um homem de 56 anos que pergunta pela fila de chope. Ele se diz defensor público do estado de Goiás e antigo filiado do PCB. 'Isso aqui é uma vergonha. A UNE faz eleições indiretas e senta do lado do presidente e fala em democracia e independência? No congresso de 1982 não era assim! Era 60% política e 40% putaria. Hoje no máximo é 12% de política', protesta. 'O foda é que naqueles tempos só tinha baranga no PC do B e PCB. No PT, não. Elas bebiam, fumavam um e no final todo mundo metia!', conclui"
Playboy, Agosto 2011.
Nota: O custo do congresso foi de 4 milhões, bancados pela Petrobras, Eletrobras e por mais quatro ministérios
É errado dizer que estes indivíduos estão em um nível abaixo do humano? Que foram reduzidos a condição bestial? E tendo em vista que da UNE sai boa parte de nossos politicos, será que temos futuro?
"Um velho careca com cara de Ney Matogrosso doente se aproxima e pergunta se estou anotando o nome de todo mundo que passa por mim. Digo que não. Ele parece aliviado. Pergunto quem é ele. Enigmático ele responde: 'Eu sou nada'.
Nos próximos 5 minutos, sempre cuspindo perdigotos no meu rosto, ele conta que recebeu da Unesco o título de sportsman for peace por ter pedalado por dois anos em defesa dos direitos humanos. Ele ainda reproduz uma conversa que supostamente foi travada entre o papa João Paulo II, a política irlandesa Iris Robinson e o antigo secretário-geral da ONU Kofi Annan a respeito dele. Em Italiano. Compreendo que o sujeito é completamente louco. Ele só sossega quando aceito fazer parte da produção do filme sobre ele mesmo que, afirma, realizará com 10 milhões de dólares que lavantou graças a lei rouanet.
Mal me livro do maluco e um hippie para ao meu lado, olha para meu bloco de notas e grasna(não ri, grasna). 'Deve ser estranho ser observado observando os outros...', diz. Respondo que não, não é. Ele vai embora.
Sou então interpelado outra vez. Agora por um homem de 56 anos que pergunta pela fila de chope. Ele se diz defensor público do estado de Goiás e antigo filiado do PCB. 'Isso aqui é uma vergonha. A UNE faz eleições indiretas e senta do lado do presidente e fala em democracia e independência? No congresso de 1982 não era assim! Era 60% política e 40% putaria. Hoje no máximo é 12% de política', protesta. 'O foda é que naqueles tempos só tinha baranga no PC do B e PCB. No PT, não. Elas bebiam, fumavam um e no final todo mundo metia!', conclui"
Playboy, Agosto 2011.
Nota: O custo do congresso foi de 4 milhões, bancados pela Petrobras, Eletrobras e por mais quatro ministérios
É errado dizer que estes indivíduos estão em um nível abaixo do humano? Que foram reduzidos a condição bestial? E tendo em vista que da UNE sai boa parte de nossos politicos, será que temos futuro?
Atualidades Sádicas
por: Otto Maria Carpeaux
(Nota: Não sou de ficar publicando texto alheio mas esse me pareceu raro. O Carpeaux disse que "tinha publicado na imprensa brasileira entre 1941 e 1966, mais ou menos 1500 artigos sôbre artigos literários. Dêstes, duas centenas foram enfeixados em livros, hoje esgotados e dificilmente acessíveis. E o resto?". Bem, o resto tratemos de juntar. Minha pequena contribuição ao imenso trabalho a ser realizado.)
Assim como em Paris também há no Rio de Jeniro e em São Paulo devotos do Marquês de Sade e dosa seus romances que a censura do regime De Gaulle condenou novamente a serem vendidos clandestinamente: Justine e Juliette e os outros todos em que sempre se repete a combinação de orgias sexuais e torturas sangrentas, às vezes degenerando em hecatombas: bondouir e necrotério. Sade é hoje o santo de um culto literário-filosófico-místico. Espero que não lhe esqueçam o sesquicentenário: morreu em 2 de Dezembro de 1814 e é hoje, 150 anos depois, mais atual que então. Dupla atualidade: uma literária e outra.
Desde 1945 saíram várias edições de suas principais obras. Mais lidos que as próprias obras foram os ensaios sobre Sade, de escritores e pensadores tão sérios e hermáticamente profundos como George Bataille e Maurice Blanchot. A grande biografia de Maurice Heine, interrompida pela morte do autor, foi completada por Gilbert Lely, que compara Sade a Bocaccio e Cervantes, mas fala mais da filosofia do marquês do que seus enredos e do seu estilo. Pois do estilo de Sade não vale a pena falar e seus enredos são de uma insipidez que confirma a frase de Baudelaire, grande especialista na matéria: "o pecado é monótono".
Como escritor, Sade não se pode comparar com Rétif de la Bretonne nom com Laclos, seus contemporâneos. Rétif, realista crasso e inculto, conhece todas as ruas, bairros, casas, classes de Paris antes da revolução: dá um apnorama completo da sociedade do seu tempo, não menos "pecaminoso" que o panorama de Sade, que se limita, por sua vez a mostrar o intérieour de um bordel e porão, bem fechado para ninguém ouvir os gritos das vítimas. Rétif, um realista; Sade, um visionário. Mas sua visão só penetra corpos e não as almas. Desafio a quem me possa mostrar uma única obra de Sade que valha a análise de uma página de Laclos. Mas como se explica, então, a fama literária do pai do Sadismo?
É muito conhecida, até em várias traduções, a obra em que o crítico italiano Mário Paz estudou as correntes de ateísmo, diabolismo etc. no romantismo europeu, especialmente no francês. Mas por volta de 1850, os não-românticos Rétif e Laclos estavam esquecidos. Consideráva-se Sade como grande satanista. É palavra que, com razão, não se usa mais. Mas tampouco se usa o conceito. O que ontem passava satânico, é hoje exaltado como místico. Os "sadianos"(é necessário o neologismo para não confundí-los com sádicos) elevaram seu santo para o autar da "liberdade absoluta". E por mais que repugne certo palavrório místico-filosófico em torno de Sade, não se pode negar que a "liberdade absoluta" de Sade á coisa muito séria.
Resta escrever uma história do ateísmo europeu. Seria livro menos volumoso que se pensa. Muitos dos ateus anatemizados do passado seriam hoje panteístas; como Spinoza. Outros foram budistas disfarçados como Schopenhauer, ou mesmo cristãos às avessas como Nietzsche. Não é a negação de Deus que faz o ateu. Existe uma definição, a melhor do ateísmo que exclui ateus idealistas(como Fichte), ou ateus pan-logistas(como Hegel) e até os ateus por paixão de justiça, como Marx. A definição é do próprio mestre de Marx: Ludwing Feuerbach; e diz: "Só aquele é verdadeiro ateu para o qual não significam nada os atributos próprios da divindade, a Onipotência, a Sabedoria, a Justiça, a Bondade, o Amor; não é ateu aquele para o qual não significa nada só o sujeito desses atributos". Esse falso ateu ele atribui-os a um outro ser qualquer, digamos o Homem ou Estado ou à História e adora o Homem, caso da Sabedoria, o Estado, instrumento da Justiça, ou a História onipotente, como se fossem Deus; não é ateu autêntico. Conforme essas definições, é Sade um dos raros ateus autênticos. Negou Deus e um dos principais atributos de Deus: o Amor. É propriamente o destruidor da religião do Amor.
Estava especialmente autorizado apara tanto. O autor de Justine e Juliette era descendente do sieur Hugo de Sade, nobre provençal que viveu no século XIV, casado com Laura de Noves: Laura, bitetravó do marquês de Sade; Laura, a "amada imortal" de Patrarca, pai de toda a literatura amorosa e da própria religião do amor poético.
Sade destruiu o mito de Laura e Patrarca. Demonstrou que o amor é sinônimo de egoísmo e que amor radical é egoísmo radical e que a conclusão última do egoísmo radical é a destruição do outro, de todos os outros, destruição que é a expressão da literatura da liberdade absoluta do Destruidor. O culto, a religião dessa liberdade Absoluta leva modestamente o nome de sadismo.
Quem já leu pelo menos algumas páginas de Sade, sabe que sua maneira de praticar sua religião não se parece com o sadismo comum. Em Sade, as orgias sexuais são requintadas de vítimas escolhidas e com mortandade em massa de comparsas. Teoricamente, a liberdade Absoluta de Sade poderia ser uma variante da liberdade existencialista; e pelo Boulevard At. Grermain reentreou Sade, em 1945, na atualidade literária. Mas praticamente o sadismo radical de Sade parece a todos não-sádicos expresssão de loucura. Não se diz isso para desprezar ou insultar. Só se pensa no fato que Sade passou mais da metade da vida em manicômios judiciais, onde ficou preso, mas menos como inimigo da moralidade pública e, sim, por ter torturado e assassinado moças. O manicômio seria lugar conveniente para comemorar o sesquicentenário da morte de Sade. É o que fez o dramaturgo alemão Peter Weiss, em peça cuja representação berlinense, em maio desse ano, fez sensação.
A peça, que também já existe impressa chamará a atenção do mundo. Esse Peter Weiss é dramaturgo de extraordinária força inventiva. A elementos de Brecht, de Ionesco e do expressionismo soube acrescentar um frisson autenticamente pirandelliano. Mas é originalíssimo e, pelo anti-realismo do estilo dramático, moderno up to date. No entanto o título da peça é longo e pomposo como o de uma tragédia histórica barroca: "A perseguição e assassinato de Jean-Paul Marat, representado pela companhia teatral do manicômio de Charenton, sob a direção de sieur de Sade".
Afirma a lenda, álias duvidosa, que Sade, quando em Cherenton, último manicômio em que esteve preso, teria escrito peças de teatro. Weiss imagina que uma dessas peças tivesse comemorado um acontecimento histórico bem ao gosto de Sade: o assassinato do tribuno revolucionário Marat, em 1793, na sua banheira, pela heróica Charlotte Condey. Quinze anos depois, os loucos encerrados em Charenton representam na grande sala de banheiros da casa a peça que Sade escreveu sobre aquele acontecimento, representação dirigida pelo próprio Sade. Teatro no teatro. Na platéia dentro do palco, o diretor do estabelecimento, Dr. Coulmier, outros médicos, outros loucos. Um speaker anuncia, gritando, as cenas e comenta o enredo. Não há um coro como na tragédia grega mas dois coros: um Chorus mysticus e um coro de quatro palhaços que representam o povo parisiense. Os atores, empolgados pelos seus papéis, têm de vez em quando acessos de loucura furiosa, e então o Dr. Coulmier dá aos enfermeiros sinal para dominá-los. Cena culminante é um diálogo filosófico entre Sade e Marat. Depois do assassinato do tribuno aparece Bonaparte, como Anjo de morte, e todos saem atrás dele em ritmo de marcha. É a História.
É uma peça estranha como não há outra igual: o realismo cru e visões oníricas, danças e pantomimas dos loucos, gíria ordinária, frases altamente poéticas e o grande diálogo filosófico em que Marat defende a revolução, ao passo que Sade não acredita em revoluções: não libertam realmente ninguém; matam, sim mas enfim terminam e as matanças acabam e para que foi bom? Para Sade, o ponto mais alto da revolução francesa foi o assassinato de Marat, não porque Marat foi vítima, mas porque ele é assassinado sem motivo imediato e em circunstâncias tão extraordinárias, na banheira que inspiram a imaginação do marquês: lembra como em 1744 foi em Paris executado Damiens, que tinha feito um atentado contra a pessoa sagrada do rei Luis XV; execução em praça pública perante uma multidão que acompanhou estarrecida e (talvez deliciada) a tortura inefável - Damiens foi esquartejado vivo.
Estabelecer uma relação entre a doutrina de Sade e o caso de Damiens (Otto Flake, em livro sobre Sade, já o lembrou também há 40 anos atrás) parece-me idéia feliz e profunda do dramaturgo Peter Weiss: colocou Sade no seu momento histórico. Pensemos no século XVIII como na época em que foi, nos países principais da Europa, abolida a tortura judicial e em que Beccaria começou a luta contra a pena capital. Mas o séc. XVIII também é a época de execuções, com torturas requintadas, em praça pública. Inventou a guilhotina. E Sade restabeleceu, pelo menos para seu uso particular, a tortura. É homem de seu tempo mas não da época da revolução quando Sade tinha já 49 anos de idade. É contemporâneo de Casanova, libertin como ele, mas não um aventureiro, como o veneziano, e sim um grande senhor aristocrático; um daqueles aristocratas aos quais a França do Ancien Régime tudo parecia lícito e impunemente permitido. As vítimas de Sade não eram aquelas mulheres licensiosas que teriam participado dos seus prazeres. Eram moças pobre, do povo e foram remuneradas a servirem aos desejos do marquês; mas no momento em recebiam o dinheiro ignoravam que sairiam do bordoir do marquês multiladas ou mortas. Por esses "casos", a famosa affaire de Marseille e outras semelhantes, Sade foi tantas vezes preso, e em uma carta ao Garde des Sceaux ele se queixa amargamente: ele, um homem da nobreza, preso durante anos, pour une poutaine.
Na mesma carta anuncia ao dignatário do Reino uma vingança histórica: un jour de la liberté. Mas quando a Revolução veio não tratou de forma melhor - pour une poutaine - o defensor da liberdade Absoluta. Nenhum regime teve uso para ele: passou mais que metade da vida em prisões e manicômios, sob Luís XVI, sob a Gironde, sob Robespierre e sob Napoleão, que no entanto também eram especialistas em derramar sangue. A vida e a obra de Sade são a atualidade entre a tortura judicial e a execução de Damiens, de um lado e, por outro lado, a guilhotina e as primeiras guerras do século XIX. E essa atualidade não é histórica. Ainda não acabou. Mais viva e pungente que a atualidade literária de Sade é esta outra: Auschwitz e Belsen, os tiros na nuca na prisão de Luianka, os comunistas chineses queixosos em locomotivas da China de 1972(testemunha Malraux), as execuções de Katin e as de Via Ardeatina(Roma, città aperta) e o garote vil na Espanha e os torturados da Argélia, e aos devotos do marquês de Sade se pede: menos atualidade.
publicado no Correio da Manhã, em 10/04/1967.
(Nota: Não sou de ficar publicando texto alheio mas esse me pareceu raro. O Carpeaux disse que "tinha publicado na imprensa brasileira entre 1941 e 1966, mais ou menos 1500 artigos sôbre artigos literários. Dêstes, duas centenas foram enfeixados em livros, hoje esgotados e dificilmente acessíveis. E o resto?". Bem, o resto tratemos de juntar. Minha pequena contribuição ao imenso trabalho a ser realizado.)
Assim como em Paris também há no Rio de Jeniro e em São Paulo devotos do Marquês de Sade e dosa seus romances que a censura do regime De Gaulle condenou novamente a serem vendidos clandestinamente: Justine e Juliette e os outros todos em que sempre se repete a combinação de orgias sexuais e torturas sangrentas, às vezes degenerando em hecatombas: bondouir e necrotério. Sade é hoje o santo de um culto literário-filosófico-místico. Espero que não lhe esqueçam o sesquicentenário: morreu em 2 de Dezembro de 1814 e é hoje, 150 anos depois, mais atual que então. Dupla atualidade: uma literária e outra.
Desde 1945 saíram várias edições de suas principais obras. Mais lidos que as próprias obras foram os ensaios sobre Sade, de escritores e pensadores tão sérios e hermáticamente profundos como George Bataille e Maurice Blanchot. A grande biografia de Maurice Heine, interrompida pela morte do autor, foi completada por Gilbert Lely, que compara Sade a Bocaccio e Cervantes, mas fala mais da filosofia do marquês do que seus enredos e do seu estilo. Pois do estilo de Sade não vale a pena falar e seus enredos são de uma insipidez que confirma a frase de Baudelaire, grande especialista na matéria: "o pecado é monótono".
Como escritor, Sade não se pode comparar com Rétif de la Bretonne nom com Laclos, seus contemporâneos. Rétif, realista crasso e inculto, conhece todas as ruas, bairros, casas, classes de Paris antes da revolução: dá um apnorama completo da sociedade do seu tempo, não menos "pecaminoso" que o panorama de Sade, que se limita, por sua vez a mostrar o intérieour de um bordel e porão, bem fechado para ninguém ouvir os gritos das vítimas. Rétif, um realista; Sade, um visionário. Mas sua visão só penetra corpos e não as almas. Desafio a quem me possa mostrar uma única obra de Sade que valha a análise de uma página de Laclos. Mas como se explica, então, a fama literária do pai do Sadismo?
É muito conhecida, até em várias traduções, a obra em que o crítico italiano Mário Paz estudou as correntes de ateísmo, diabolismo etc. no romantismo europeu, especialmente no francês. Mas por volta de 1850, os não-românticos Rétif e Laclos estavam esquecidos. Consideráva-se Sade como grande satanista. É palavra que, com razão, não se usa mais. Mas tampouco se usa o conceito. O que ontem passava satânico, é hoje exaltado como místico. Os "sadianos"(é necessário o neologismo para não confundí-los com sádicos) elevaram seu santo para o autar da "liberdade absoluta". E por mais que repugne certo palavrório místico-filosófico em torno de Sade, não se pode negar que a "liberdade absoluta" de Sade á coisa muito séria.
Resta escrever uma história do ateísmo europeu. Seria livro menos volumoso que se pensa. Muitos dos ateus anatemizados do passado seriam hoje panteístas; como Spinoza. Outros foram budistas disfarçados como Schopenhauer, ou mesmo cristãos às avessas como Nietzsche. Não é a negação de Deus que faz o ateu. Existe uma definição, a melhor do ateísmo que exclui ateus idealistas(como Fichte), ou ateus pan-logistas(como Hegel) e até os ateus por paixão de justiça, como Marx. A definição é do próprio mestre de Marx: Ludwing Feuerbach; e diz: "Só aquele é verdadeiro ateu para o qual não significam nada os atributos próprios da divindade, a Onipotência, a Sabedoria, a Justiça, a Bondade, o Amor; não é ateu aquele para o qual não significa nada só o sujeito desses atributos". Esse falso ateu ele atribui-os a um outro ser qualquer, digamos o Homem ou Estado ou à História e adora o Homem, caso da Sabedoria, o Estado, instrumento da Justiça, ou a História onipotente, como se fossem Deus; não é ateu autêntico. Conforme essas definições, é Sade um dos raros ateus autênticos. Negou Deus e um dos principais atributos de Deus: o Amor. É propriamente o destruidor da religião do Amor.
Estava especialmente autorizado apara tanto. O autor de Justine e Juliette era descendente do sieur Hugo de Sade, nobre provençal que viveu no século XIV, casado com Laura de Noves: Laura, bitetravó do marquês de Sade; Laura, a "amada imortal" de Patrarca, pai de toda a literatura amorosa e da própria religião do amor poético.
Sade destruiu o mito de Laura e Patrarca. Demonstrou que o amor é sinônimo de egoísmo e que amor radical é egoísmo radical e que a conclusão última do egoísmo radical é a destruição do outro, de todos os outros, destruição que é a expressão da literatura da liberdade absoluta do Destruidor. O culto, a religião dessa liberdade Absoluta leva modestamente o nome de sadismo.
Quem já leu pelo menos algumas páginas de Sade, sabe que sua maneira de praticar sua religião não se parece com o sadismo comum. Em Sade, as orgias sexuais são requintadas de vítimas escolhidas e com mortandade em massa de comparsas. Teoricamente, a liberdade Absoluta de Sade poderia ser uma variante da liberdade existencialista; e pelo Boulevard At. Grermain reentreou Sade, em 1945, na atualidade literária. Mas praticamente o sadismo radical de Sade parece a todos não-sádicos expresssão de loucura. Não se diz isso para desprezar ou insultar. Só se pensa no fato que Sade passou mais da metade da vida em manicômios judiciais, onde ficou preso, mas menos como inimigo da moralidade pública e, sim, por ter torturado e assassinado moças. O manicômio seria lugar conveniente para comemorar o sesquicentenário da morte de Sade. É o que fez o dramaturgo alemão Peter Weiss, em peça cuja representação berlinense, em maio desse ano, fez sensação.
A peça, que também já existe impressa chamará a atenção do mundo. Esse Peter Weiss é dramaturgo de extraordinária força inventiva. A elementos de Brecht, de Ionesco e do expressionismo soube acrescentar um frisson autenticamente pirandelliano. Mas é originalíssimo e, pelo anti-realismo do estilo dramático, moderno up to date. No entanto o título da peça é longo e pomposo como o de uma tragédia histórica barroca: "A perseguição e assassinato de Jean-Paul Marat, representado pela companhia teatral do manicômio de Charenton, sob a direção de sieur de Sade".
Afirma a lenda, álias duvidosa, que Sade, quando em Cherenton, último manicômio em que esteve preso, teria escrito peças de teatro. Weiss imagina que uma dessas peças tivesse comemorado um acontecimento histórico bem ao gosto de Sade: o assassinato do tribuno revolucionário Marat, em 1793, na sua banheira, pela heróica Charlotte Condey. Quinze anos depois, os loucos encerrados em Charenton representam na grande sala de banheiros da casa a peça que Sade escreveu sobre aquele acontecimento, representação dirigida pelo próprio Sade. Teatro no teatro. Na platéia dentro do palco, o diretor do estabelecimento, Dr. Coulmier, outros médicos, outros loucos. Um speaker anuncia, gritando, as cenas e comenta o enredo. Não há um coro como na tragédia grega mas dois coros: um Chorus mysticus e um coro de quatro palhaços que representam o povo parisiense. Os atores, empolgados pelos seus papéis, têm de vez em quando acessos de loucura furiosa, e então o Dr. Coulmier dá aos enfermeiros sinal para dominá-los. Cena culminante é um diálogo filosófico entre Sade e Marat. Depois do assassinato do tribuno aparece Bonaparte, como Anjo de morte, e todos saem atrás dele em ritmo de marcha. É a História.
É uma peça estranha como não há outra igual: o realismo cru e visões oníricas, danças e pantomimas dos loucos, gíria ordinária, frases altamente poéticas e o grande diálogo filosófico em que Marat defende a revolução, ao passo que Sade não acredita em revoluções: não libertam realmente ninguém; matam, sim mas enfim terminam e as matanças acabam e para que foi bom? Para Sade, o ponto mais alto da revolução francesa foi o assassinato de Marat, não porque Marat foi vítima, mas porque ele é assassinado sem motivo imediato e em circunstâncias tão extraordinárias, na banheira que inspiram a imaginação do marquês: lembra como em 1744 foi em Paris executado Damiens, que tinha feito um atentado contra a pessoa sagrada do rei Luis XV; execução em praça pública perante uma multidão que acompanhou estarrecida e (talvez deliciada) a tortura inefável - Damiens foi esquartejado vivo.
Estabelecer uma relação entre a doutrina de Sade e o caso de Damiens (Otto Flake, em livro sobre Sade, já o lembrou também há 40 anos atrás) parece-me idéia feliz e profunda do dramaturgo Peter Weiss: colocou Sade no seu momento histórico. Pensemos no século XVIII como na época em que foi, nos países principais da Europa, abolida a tortura judicial e em que Beccaria começou a luta contra a pena capital. Mas o séc. XVIII também é a época de execuções, com torturas requintadas, em praça pública. Inventou a guilhotina. E Sade restabeleceu, pelo menos para seu uso particular, a tortura. É homem de seu tempo mas não da época da revolução quando Sade tinha já 49 anos de idade. É contemporâneo de Casanova, libertin como ele, mas não um aventureiro, como o veneziano, e sim um grande senhor aristocrático; um daqueles aristocratas aos quais a França do Ancien Régime tudo parecia lícito e impunemente permitido. As vítimas de Sade não eram aquelas mulheres licensiosas que teriam participado dos seus prazeres. Eram moças pobre, do povo e foram remuneradas a servirem aos desejos do marquês; mas no momento em recebiam o dinheiro ignoravam que sairiam do bordoir do marquês multiladas ou mortas. Por esses "casos", a famosa affaire de Marseille e outras semelhantes, Sade foi tantas vezes preso, e em uma carta ao Garde des Sceaux ele se queixa amargamente: ele, um homem da nobreza, preso durante anos, pour une poutaine.
Na mesma carta anuncia ao dignatário do Reino uma vingança histórica: un jour de la liberté. Mas quando a Revolução veio não tratou de forma melhor - pour une poutaine - o defensor da liberdade Absoluta. Nenhum regime teve uso para ele: passou mais que metade da vida em prisões e manicômios, sob Luís XVI, sob a Gironde, sob Robespierre e sob Napoleão, que no entanto também eram especialistas em derramar sangue. A vida e a obra de Sade são a atualidade entre a tortura judicial e a execução de Damiens, de um lado e, por outro lado, a guilhotina e as primeiras guerras do século XIX. E essa atualidade não é histórica. Ainda não acabou. Mais viva e pungente que a atualidade literária de Sade é esta outra: Auschwitz e Belsen, os tiros na nuca na prisão de Luianka, os comunistas chineses queixosos em locomotivas da China de 1972(testemunha Malraux), as execuções de Katin e as de Via Ardeatina(Roma, città aperta) e o garote vil na Espanha e os torturados da Argélia, e aos devotos do marquês de Sade se pede: menos atualidade.
publicado no Correio da Manhã, em 10/04/1967.
Quem quer ser rei?
1- As árvores em busca de um rei(Jz 9, 8-15)
As árvores se tinham posto a caminho
para ungir aquele que seria seu rei.
Disseram à oliveira: "reina sobre nós".
A oliveira lhes disse:
"Renunciarei a meu óleo,
que deuses e homens em mim apreciam,
para ir me agitar-me em cima das árvores?"
As árvores disseram à figueira:
"vem tu reinar sobre nós!"
A figueira lhes disse:
"Renunciarei à minha doçura
e a meu bom fruto
para ir me agitar-me em cima das árvores?"
Então as árvores disseram à vinha:
"vem tu reinar sobre nós!"
A vinha lhes disse:
"Renunciarei a meu vinho,
que alegra deuses e homens,
para agitar-me sobre as árvores?"
As árvores disseram ao espinheiro:
"vem tu reinar sobre nós!"
Mas o espinheiro disse às árvores:
"Se é com lealdade que me dão a unção
para que eu seja vosso rei,
então vinde abrigar-vos sob a minha sombra!"
Mas se não for assim, um fogo sairá do espinheiro
e devorará os cedros do Líbano.
2- República (trecho do livro A)
"Por este motivo, por conseguinte, os homens de bem não querem governar nem por causa das riquezas, nem das honrarias, porquanto não querem ser tratados como mercenários, exigindo abertamente a recompensa por seu cargo, nem de ladrões, tirando a vantagem de sua posição.... Ora, o maior dos castigos é ser governado por quem é pior de nós, se não quisermos governar nós mesmos. É com receio disso, me parece, que os bons ocupam a magistratura, quando governam; e então vão para o poder, não como quem vai tomar conta de qualquer benefício, nem para com ele gozar, mas como quem vai para uma necessidade, sem ter pessoas melhores que eles, nem mesmo iguais, para que possam relegá-lo"
As árvores se tinham posto a caminho
para ungir aquele que seria seu rei.
Disseram à oliveira: "reina sobre nós".
A oliveira lhes disse:
"Renunciarei a meu óleo,
que deuses e homens em mim apreciam,
para ir me agitar-me em cima das árvores?"
As árvores disseram à figueira:
"vem tu reinar sobre nós!"
A figueira lhes disse:
"Renunciarei à minha doçura
e a meu bom fruto
para ir me agitar-me em cima das árvores?"
Então as árvores disseram à vinha:
"vem tu reinar sobre nós!"
A vinha lhes disse:
"Renunciarei a meu vinho,
que alegra deuses e homens,
para agitar-me sobre as árvores?"
As árvores disseram ao espinheiro:
"vem tu reinar sobre nós!"
Mas o espinheiro disse às árvores:
"Se é com lealdade que me dão a unção
para que eu seja vosso rei,
então vinde abrigar-vos sob a minha sombra!"
Mas se não for assim, um fogo sairá do espinheiro
e devorará os cedros do Líbano.
2- República (trecho do livro A)
"Por este motivo, por conseguinte, os homens de bem não querem governar nem por causa das riquezas, nem das honrarias, porquanto não querem ser tratados como mercenários, exigindo abertamente a recompensa por seu cargo, nem de ladrões, tirando a vantagem de sua posição.... Ora, o maior dos castigos é ser governado por quem é pior de nós, se não quisermos governar nós mesmos. É com receio disso, me parece, que os bons ocupam a magistratura, quando governam; e então vão para o poder, não como quem vai tomar conta de qualquer benefício, nem para com ele gozar, mas como quem vai para uma necessidade, sem ter pessoas melhores que eles, nem mesmo iguais, para que possam relegá-lo"
Explicação filosófica e ontologia
Pressuposto fundante e regra fundamental do método filosófico foi enunciada por Heráclito com precisão profética: "Os homens despertos estão todos no mesmo mundo, quando dormem cada um vai para seu mundo". Máxima de extrema concisão que revela dois lados da consciência humana. O homem não é só aquele que tem contato simbólico com o que "todos, sempre e em toda parte conhecem" por meio da leitura da Bíblia, cultos pagões públicos e sua religião(ões) como é o que tem seu trabalho, sua arte, e cuida de seus interesses pragmatistas. Em períodos de forte sentimentos religiosos essa divisão é imperceptível mas nos crepúsculos da consciência da luminosidade divina um abismo toma conta do espírito humano e novas espiritualidades tentam preenchê-lo.
Cada uma das artes e a própria ciência tem uma lógica e modus operandi próprios(agora, lógica menor) mas que, como diz a máxima, são "mundos separados". Porém, transpostos esses limites, nenhuma delas aguenta a prova de fogo da dialética. Na matemática, e.g., se diz 1+1=2, mas é esse um que se ajunta ao outro ou o outro ao um? É só pela contiguidade que se forma o dois? E mais: se o 10 é maior que o 8 pelo 2 então a grandeza do dez é a pequenez do dois? É pela pequenez que é a grandeza? Semelhantemente na estética se dirá algo ser belo pelo brilho, ou forma ou pelo que for ou pela beleza? Embora sejam lógicas em si as consequências dos postulados não se harmonizam com o todo do conhecimento e da linguagem humana. Em suma, não há razão.
Não podemos seguir esse caminho. Admitir isso é negar racionalidade ao homem e também a existência de conhecimento, pois, conhecimento não pode ser válido só às vezes. Ou o conhecimento é válido erga omnes ou não é de modo algum. Não pode ser só para os que dormem. Se é verdade que a natureza não frustra e que Deus nos fez racionais então é porque tem que haver razão e devemos superar essa explicação pelos contrários por uma pelo si mesmo, i.e, o dois é dois pela dualidade, o 10 é maior que o 8 pela grandeza e o belo pela beleza. Ou seja, pela Idéia de dualidade, grandeza e beleza(não me vá confundir com conceito, que é um universal).
Isso é explicar uma coisa. Pois explicar vem de ex-plicare donde plicare é fazer rugas, dobras e explicare é portanto desenrugar, desembrulhar e foi precisamente o que fiz. Entendeste minhas afirmativas em outra clave, na de demonstração, mas o que fiz foi mostração, i. e, tentei desembrulhar o conceito por meio de símbolos e exemplos dar toda a dimensão das assertivas platônicas no que tange a idéia de modo que toda a rede de necessidades(incluso perguntas) ficasse clara.
A importância da teoria é conspícua pois dela depende nossa cognoscibilidade. Historicamente(e não tornarei mais a falar de história) de duas fontes provém a Idéia: da matemática e da medicina. O logos matemático busca um critérion, uma pedra de medida, onde se pode reduzir uma multiplicidade a uma unidade. Você pode formar qualquer número pela forma, expressa até por Aristóteles, de número numerante e numerado, por exemplo: sabemos que qualquer número natural, exceto o 1, pode ser gerado pela multiplicação de números primos então o número 531 é formado pelo número primo 59 e pelo número 9. O 59 é o número numerado ou numeroso e o número 9 o número numerante então qualquer número ou GRANDEZA(v. Euclides, quia de intuições) pode ser formado assim. O 59 é o Um do 531. Então pensou-se com acerto que o mesmo se poderia fazer com os sensíveis e encontrar a mônada que para mim é o mesmo que Idéia. Já na medicina o logos é o diagnóstico. O médico grego encontrou similaridade de sintomas entre dois doentes e fez o discernimento entre sintoma e doença. O desgosto para com coisa que antes se gostava, a dor de cabeça, a febre e as manchas no corpo não são autonomas e emboras devam ser tratadas elas não são seu problema: você está com dengue, meu filho, esse é o problema! A aplicação desta descoberta trouxe similares resultados que a da matemática.
Na verdade o logos da medicina é muito mais extenso e compraz não só a Idéia mas a metaidéia e o universal(embora nem sempre este último). A Idéia é um particular e tem existência tal qual um sensível e o sensível tem dependência ontológica do Ideal tal qual o 531 tem do 59 embora ambos sejam igualmente números(ou substância no caso da Idéia e sensível). O logos da medicina se aplica ao da Idéia na medida em que esta tem analogia para com o sensível. A metaidéia é algo que existe mas não tem substância. Perplexo? Exemplifico: o movimento sempre se dá ou substantivamente ou qualitativamente ou quantitativamente ou localmente e não existe fora ou além do ser. A metaidéia é o logos da medicina por excelência(strico sensu). O universal é um conjunto de coisas com as mesmas notas e que não existe em si, por exemplo o conjunto de múltiplos de 59. O logos da medicina, para não se confundir com o da matemática(idéia) foi cunhado como forma(lato sensu).
Sobre a diferença entre lógica e ontologia temos outra dica de Heráclito: "O caminho de subida e o de descida é o mesmo". Na lógica menor há sempre uma operação, por exemplo, 1+1=2 na matemática e as premissas e as conclusões de modo geral na lógica. Isso é algo próprio da lógica menor, o problema conceitual do antes e do depois. Pensamos "1+1" e "animal racional" como uma coisa e "2" e "homem" outra que "por sobreposição de imagens"(espécies de speculum que é espelho então são duas coisas, a imagem e a coisas que se dizem iguais quando sobrepostos"), no caso da lógica são iguais e pela união e separação de unidades no da matemática. A lógica menor é predominantemente psicológica(noológica se quisermos ser precisos). Somente com a teoria das Idéias e com a admissão da imutabilidade destas superaremos essa dualidade. Existe uma Lógica onde não existam duas coisas, mas mesmo com a dualidade de conceitos há unidade no ser. Essa Lógica não há demonstração e essa matemática onde não há operação se chama Metafísica ou Ontologia. Essa Lógica maior é o logos, o Pensamento, cujo objeto não é o conceito mais o Ser. LÓGICA É ONTOLOGIA sendo que ontologia é lógica aplicada e lógica é ontologia formal ou conceitual.
Cada uma das artes e a própria ciência tem uma lógica e modus operandi próprios(agora, lógica menor) mas que, como diz a máxima, são "mundos separados". Porém, transpostos esses limites, nenhuma delas aguenta a prova de fogo da dialética. Na matemática, e.g., se diz 1+1=2, mas é esse um que se ajunta ao outro ou o outro ao um? É só pela contiguidade que se forma o dois? E mais: se o 10 é maior que o 8 pelo 2 então a grandeza do dez é a pequenez do dois? É pela pequenez que é a grandeza? Semelhantemente na estética se dirá algo ser belo pelo brilho, ou forma ou pelo que for ou pela beleza? Embora sejam lógicas em si as consequências dos postulados não se harmonizam com o todo do conhecimento e da linguagem humana. Em suma, não há razão.
Não podemos seguir esse caminho. Admitir isso é negar racionalidade ao homem e também a existência de conhecimento, pois, conhecimento não pode ser válido só às vezes. Ou o conhecimento é válido erga omnes ou não é de modo algum. Não pode ser só para os que dormem. Se é verdade que a natureza não frustra e que Deus nos fez racionais então é porque tem que haver razão e devemos superar essa explicação pelos contrários por uma pelo si mesmo, i.e, o dois é dois pela dualidade, o 10 é maior que o 8 pela grandeza e o belo pela beleza. Ou seja, pela Idéia de dualidade, grandeza e beleza(não me vá confundir com conceito, que é um universal).
Isso é explicar uma coisa. Pois explicar vem de ex-plicare donde plicare é fazer rugas, dobras e explicare é portanto desenrugar, desembrulhar e foi precisamente o que fiz. Entendeste minhas afirmativas em outra clave, na de demonstração, mas o que fiz foi mostração, i. e, tentei desembrulhar o conceito por meio de símbolos e exemplos dar toda a dimensão das assertivas platônicas no que tange a idéia de modo que toda a rede de necessidades(incluso perguntas) ficasse clara.
A importância da teoria é conspícua pois dela depende nossa cognoscibilidade. Historicamente(e não tornarei mais a falar de história) de duas fontes provém a Idéia: da matemática e da medicina. O logos matemático busca um critérion, uma pedra de medida, onde se pode reduzir uma multiplicidade a uma unidade. Você pode formar qualquer número pela forma, expressa até por Aristóteles, de número numerante e numerado, por exemplo: sabemos que qualquer número natural, exceto o 1, pode ser gerado pela multiplicação de números primos então o número 531 é formado pelo número primo 59 e pelo número 9. O 59 é o número numerado ou numeroso e o número 9 o número numerante então qualquer número ou GRANDEZA(v. Euclides, quia de intuições) pode ser formado assim. O 59 é o Um do 531. Então pensou-se com acerto que o mesmo se poderia fazer com os sensíveis e encontrar a mônada que para mim é o mesmo que Idéia. Já na medicina o logos é o diagnóstico. O médico grego encontrou similaridade de sintomas entre dois doentes e fez o discernimento entre sintoma e doença. O desgosto para com coisa que antes se gostava, a dor de cabeça, a febre e as manchas no corpo não são autonomas e emboras devam ser tratadas elas não são seu problema: você está com dengue, meu filho, esse é o problema! A aplicação desta descoberta trouxe similares resultados que a da matemática.
Na verdade o logos da medicina é muito mais extenso e compraz não só a Idéia mas a metaidéia e o universal(embora nem sempre este último). A Idéia é um particular e tem existência tal qual um sensível e o sensível tem dependência ontológica do Ideal tal qual o 531 tem do 59 embora ambos sejam igualmente números(ou substância no caso da Idéia e sensível). O logos da medicina se aplica ao da Idéia na medida em que esta tem analogia para com o sensível. A metaidéia é algo que existe mas não tem substância. Perplexo? Exemplifico: o movimento sempre se dá ou substantivamente ou qualitativamente ou quantitativamente ou localmente e não existe fora ou além do ser. A metaidéia é o logos da medicina por excelência(strico sensu). O universal é um conjunto de coisas com as mesmas notas e que não existe em si, por exemplo o conjunto de múltiplos de 59. O logos da medicina, para não se confundir com o da matemática(idéia) foi cunhado como forma(lato sensu).
Sobre a diferença entre lógica e ontologia temos outra dica de Heráclito: "O caminho de subida e o de descida é o mesmo". Na lógica menor há sempre uma operação, por exemplo, 1+1=2 na matemática e as premissas e as conclusões de modo geral na lógica. Isso é algo próprio da lógica menor, o problema conceitual do antes e do depois. Pensamos "1+1" e "animal racional" como uma coisa e "2" e "homem" outra que "por sobreposição de imagens"(espécies de speculum que é espelho então são duas coisas, a imagem e a coisas que se dizem iguais quando sobrepostos"), no caso da lógica são iguais e pela união e separação de unidades no da matemática. A lógica menor é predominantemente psicológica(noológica se quisermos ser precisos). Somente com a teoria das Idéias e com a admissão da imutabilidade destas superaremos essa dualidade. Existe uma Lógica onde não existam duas coisas, mas mesmo com a dualidade de conceitos há unidade no ser. Essa Lógica não há demonstração e essa matemática onde não há operação se chama Metafísica ou Ontologia. Essa Lógica maior é o logos, o Pensamento, cujo objeto não é o conceito mais o Ser. LÓGICA É ONTOLOGIA sendo que ontologia é lógica aplicada e lógica é ontologia formal ou conceitual.
domingo, 25 de setembro de 2011
O Ônfalo
(este texto deverá fazer parte de um estudo que pretendo realizar sobre Ésquilo mas que ainda estou longe de completar)
Em momentos difíceis, nada melhor que um exemplo em que possamos nos identificar, uma imagem para nos dar força nos momentos de indecisão e cujas dores de alguma forma participamos. Caso não exista nenhum exemplo vivo a literatura pode criar um. Essa é a função da literatura e na Íliada Homero nos dá exemplo disso. Ele tenta nos ensinar isso no episódio da embaixada, quando Fênix(personagem criado ad hoc e que não aparece mais), tutor de Aquiles, conta para seu pupilo a própria história dele. Nos referimos a cólera de Meléagro que é, sem tirar nem pôr, a história de Aquiles.
Também na Odisséia o mesmo método é usado, mas com uma diferença sensível. Telêmaco é aconselhado por Atena a mirar o exemplo de Orestes sendo que aquele lutava para encontrar o pai e salvar a mãe dos pretendentes, e este para vingar o pai morto... pela própria mãe. O que há de comum entre as duas histórias? Aparentemente nada, mas deve ser algo bem geral dada a variedade de casos em que é usada, uma espécie de lei. Não vamos fazer aqui uma análise completa da obra de Ésquilo onde o mito de Orestes é contado mas vale ressaltar talvez o simbolismo central. A descida e subida ao Ônfalo.
Após o assassínio materno surgem, advindas das profundezas, as "cadelas da mãe", isto é, as Fúrias ou Erínias. Orestes segue buscando purificação no templo de Apolo em Delfos enquanto é atormentado pelas Fúrias. Ele segue de Micenas à Delfos e depois, por ordem de Apolo, vai à Atenas onde é julgado. Essa peregrinação me parece ser universal e é quase obrigatória nos romances de formação como é o caso da Telemaquéia(parte da Odisséia onde são contados os feitos de Telêmaco). Trata-se no fundo de encontrar o "Eu", o autoconhecimento.
O homem antigo sempre adorou o lugar. Acreditava-o mágico e que com efeito o lugar tem um poder. Hesíodo diz que "o primeiro de todos foi o caos e, logo depois, a terra de largo seio", como se o lugar fosse um princípio das coisas existentes. Todo o rito do Grande Imperador da antiga China se baseava na adoração das quatro direções cardinais e ele próprio era a ligação entre o cima(céu) e baixo(terra). Terra e céu na babilônia também eram divididos pelas direções cardinais: na terra os quadrantes eram preenchidas por cidades do mundo político e no céu pelas constelações. No Egito vários hinos de adoração foram compostos para as direções mas a mais adorada era o eixo norte-sul pois além de ser a divisão política fundamental do Egito é a direção do nilo, isto é, tendo nascente ao sul, na África setentrional e o delta ao norte, no mar Mediterrâneo. Ademais até o vento predominante ajuda neste sentido pois ele vêm de norte para o sul então se se quisesse subir o nilo usava-se vela e, para vir a jusante(usando a corrente do rio), o remo.
Hoje, graças a matematização de nossa cosmovisão pela ciência, cremos as direções arbitrárias e que cima e baixo é mera questão de ponto de vista. Mas ao contrário, para eles o lugar era um absoluto e mais, como princípio, ele, de certa forma, determina as coisas. O fogo é fogo porque tende para cima e a terra é terra porque tende para baixo e não importa o seu ponto de vista. Há uma estrutura cósmica no mundo que determina o acima e o abaixo como lugares primordiais, isto é, o centro e a periferia do mundo(o céu). Dessas duas direções derivam as outras de modo que cada coisa tem seu lugar próprio e que a este tende naturalmente.
Quando a civilização foi criada o homem perdeu a liberdade de se estabelecer em qualquer lugar que quisesse e também a vivência muito mais íntima que este tinha com o universo e com a natureza. Mas para o civilizado o universo pode ser simbolizado de duas maneiras: o templo e o território de sua civilização. Este último tinha que ser uma imagem de todo o kosmos e a prova disto pode ser encontrada em toda a literatura sacra. Há cidades sagradas, montes onde se diriam bem aventuranças, imprecações e até a morada dos deuses. Também os mares significavam alguma coisa para a representação do kosmos recebendo várias denominações. Mas, para que cada cada lugar dentro do território recebesse a designação e interpretação certa era necessária a presença de uma estrutura que desse a direção dos lugares. Me refiro ao centro e a periferia do universo que serão nominados como o ônfalo(centro) e o confim(limites do território).
Ônfalo é uma palavra grega que designa o "umbigo do mundo". Ele é chamado de luminoso porque é por sua descoberta que todos os lugares tem sentido e são organizados para serem a imagem do universo. É por sua luz que conhecemos o lugar próprio de cada coisa, isto é, o lugar a que cada coisa tende. Então para os persas primitivos quanto mais longe de seu ônfalo, piores são as pessoas. Em Israel, o profeta Isaias escreve sobre uma Jerusalem no topo da glória e que emite círculos concêntricos de graça que abençõam todo o mundo. Na Grécia, o Ônfalo é o templo de Apolo em Delfos que é o centro do mundo.
Deixando essa digressão de lado e voltando à Orestéia vemos que as Fúrias representam a auto acusação e a acusação do meio social. Orestes está poluto e sua voz está longe de sua salvação. As Erínies são, em número igual com as vozes interiores acusatórias, elas são múltiplas. Mas Orestes foje e aqui, como observa Apolo, fugir é um ato de coragem. Ele quer dentre todas essas vozes encontrar a sua voz, saber quem é que fala quando a boca se movimenta e quem é que age quando seus membros movem. Ele só tem uma saída: o Ônfalo. Não falamos de uma cidade grega ou do templo de um antigo deus mas da alma do próprio leitor. Tomemos para nós o conselho de Atena para Telêmaco: miremos Orestes. Só a busca do Ônfalo poderá distinguir as vozes acusatórias e os atos falsos de nossa verdadeira voz e de nossas verdadeiras ações. Só assim poderemos distinguir o "Eu" do "não-eu": a sinceridade é conquista de anos.
Em momentos difíceis, nada melhor que um exemplo em que possamos nos identificar, uma imagem para nos dar força nos momentos de indecisão e cujas dores de alguma forma participamos. Caso não exista nenhum exemplo vivo a literatura pode criar um. Essa é a função da literatura e na Íliada Homero nos dá exemplo disso. Ele tenta nos ensinar isso no episódio da embaixada, quando Fênix(personagem criado ad hoc e que não aparece mais), tutor de Aquiles, conta para seu pupilo a própria história dele. Nos referimos a cólera de Meléagro que é, sem tirar nem pôr, a história de Aquiles.
Também na Odisséia o mesmo método é usado, mas com uma diferença sensível. Telêmaco é aconselhado por Atena a mirar o exemplo de Orestes sendo que aquele lutava para encontrar o pai e salvar a mãe dos pretendentes, e este para vingar o pai morto... pela própria mãe. O que há de comum entre as duas histórias? Aparentemente nada, mas deve ser algo bem geral dada a variedade de casos em que é usada, uma espécie de lei. Não vamos fazer aqui uma análise completa da obra de Ésquilo onde o mito de Orestes é contado mas vale ressaltar talvez o simbolismo central. A descida e subida ao Ônfalo.
Após o assassínio materno surgem, advindas das profundezas, as "cadelas da mãe", isto é, as Fúrias ou Erínias. Orestes segue buscando purificação no templo de Apolo em Delfos enquanto é atormentado pelas Fúrias. Ele segue de Micenas à Delfos e depois, por ordem de Apolo, vai à Atenas onde é julgado. Essa peregrinação me parece ser universal e é quase obrigatória nos romances de formação como é o caso da Telemaquéia(parte da Odisséia onde são contados os feitos de Telêmaco). Trata-se no fundo de encontrar o "Eu", o autoconhecimento.
O homem antigo sempre adorou o lugar. Acreditava-o mágico e que com efeito o lugar tem um poder. Hesíodo diz que "o primeiro de todos foi o caos e, logo depois, a terra de largo seio", como se o lugar fosse um princípio das coisas existentes. Todo o rito do Grande Imperador da antiga China se baseava na adoração das quatro direções cardinais e ele próprio era a ligação entre o cima(céu) e baixo(terra). Terra e céu na babilônia também eram divididos pelas direções cardinais: na terra os quadrantes eram preenchidas por cidades do mundo político e no céu pelas constelações. No Egito vários hinos de adoração foram compostos para as direções mas a mais adorada era o eixo norte-sul pois além de ser a divisão política fundamental do Egito é a direção do nilo, isto é, tendo nascente ao sul, na África setentrional e o delta ao norte, no mar Mediterrâneo. Ademais até o vento predominante ajuda neste sentido pois ele vêm de norte para o sul então se se quisesse subir o nilo usava-se vela e, para vir a jusante(usando a corrente do rio), o remo.
Hoje, graças a matematização de nossa cosmovisão pela ciência, cremos as direções arbitrárias e que cima e baixo é mera questão de ponto de vista. Mas ao contrário, para eles o lugar era um absoluto e mais, como princípio, ele, de certa forma, determina as coisas. O fogo é fogo porque tende para cima e a terra é terra porque tende para baixo e não importa o seu ponto de vista. Há uma estrutura cósmica no mundo que determina o acima e o abaixo como lugares primordiais, isto é, o centro e a periferia do mundo(o céu). Dessas duas direções derivam as outras de modo que cada coisa tem seu lugar próprio e que a este tende naturalmente.
Quando a civilização foi criada o homem perdeu a liberdade de se estabelecer em qualquer lugar que quisesse e também a vivência muito mais íntima que este tinha com o universo e com a natureza. Mas para o civilizado o universo pode ser simbolizado de duas maneiras: o templo e o território de sua civilização. Este último tinha que ser uma imagem de todo o kosmos e a prova disto pode ser encontrada em toda a literatura sacra. Há cidades sagradas, montes onde se diriam bem aventuranças, imprecações e até a morada dos deuses. Também os mares significavam alguma coisa para a representação do kosmos recebendo várias denominações. Mas, para que cada cada lugar dentro do território recebesse a designação e interpretação certa era necessária a presença de uma estrutura que desse a direção dos lugares. Me refiro ao centro e a periferia do universo que serão nominados como o ônfalo(centro) e o confim(limites do território).
Ônfalo é uma palavra grega que designa o "umbigo do mundo". Ele é chamado de luminoso porque é por sua descoberta que todos os lugares tem sentido e são organizados para serem a imagem do universo. É por sua luz que conhecemos o lugar próprio de cada coisa, isto é, o lugar a que cada coisa tende. Então para os persas primitivos quanto mais longe de seu ônfalo, piores são as pessoas. Em Israel, o profeta Isaias escreve sobre uma Jerusalem no topo da glória e que emite círculos concêntricos de graça que abençõam todo o mundo. Na Grécia, o Ônfalo é o templo de Apolo em Delfos que é o centro do mundo.
Deixando essa digressão de lado e voltando à Orestéia vemos que as Fúrias representam a auto acusação e a acusação do meio social. Orestes está poluto e sua voz está longe de sua salvação. As Erínies são, em número igual com as vozes interiores acusatórias, elas são múltiplas. Mas Orestes foje e aqui, como observa Apolo, fugir é um ato de coragem. Ele quer dentre todas essas vozes encontrar a sua voz, saber quem é que fala quando a boca se movimenta e quem é que age quando seus membros movem. Ele só tem uma saída: o Ônfalo. Não falamos de uma cidade grega ou do templo de um antigo deus mas da alma do próprio leitor. Tomemos para nós o conselho de Atena para Telêmaco: miremos Orestes. Só a busca do Ônfalo poderá distinguir as vozes acusatórias e os atos falsos de nossa verdadeira voz e de nossas verdadeiras ações. Só assim poderemos distinguir o "Eu" do "não-eu": a sinceridade é conquista de anos.
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